sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O co-piloto assume o comando

Já virou uma tradição do Adverdriving o último post do ano com a participação especial do Pocho, o cãozinho que adotei há cerca de três anos e que pouco depois se tornou paralítico em decorrência de uma crise aguda de hérnia de disco.

Ao apresentar o Pocho no final de 2010, me referi a ele como "o co-piloto do Adverdriving". Acho que a definição continua válida, mas nesses três anos de convivência descobri outras facetas de sua personalidade que fazem com que eu me sinta privilegiado por contar com a sua companhia praticamente desde o início do blog.

Pense num animal que de uma hora para a outra perde todo o movimento de seus membros posteriores, passando a depender de ajuda humana até mesmo para fazer suas necessidades básicas. Seria de se imaginar que ficasse apático, deprimido, sem vontade de viver. Ou então rancoroso e agressivo. Mas no caso do Pocho, nada disso aconteceu. Ele continua afetuoso, brincalhão e cheio de vitalidade. E é por isso que na reta de chegada deste ano é ele quem dá o sprint final, como se pode ver no vídeo aí embaixo.



Cuidar de um animal com necessidades especiais como o Pocho impõe uma série de limitações na vida de quem se propõe a fazê-lo. O compromisso é praticamente o mesmo exigido por uma criança de colo, com a diferença de que com o passar do tempo a criança vai se tornando independente e o animal não. Não digo isso para reclamar da vida nem daquilo a que se convencionou chamar de destino, é apenas a constatação de um fato. Só sei que eu não faria nada de maneira diferente.

Mas chega de divagações existenciais, que o lugar certo para isso é um livro (o qual estou seriamente pensando em escrever) e não aqui. A hora agora é de comemorar. Um Feliz 2013 para todos nós, e que nenhum obstáculo possa impedir a realização dos nossos sonhos nesse novo ano que está para começar.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Papai Noel Minimalista

De quanto espaço precisa o Papai Noel para transportar seus presentes? Se levar apenas o essencial, bem pouquinho. Coisas como saúde, alegria de viver e paz na terra cabem no coração das pessoas de boa vontade, e o bom velhinho é uma dessas pessoas. Portanto, precisa apenas proteger-se dos elementos e andar rapidinho, pois o mundo não pode esperar.


É por isso que este ano o Papai Noel vai de Messerschmitt KR 200, um automóvel minimalista sem ser lerdo como a maioria dos microcarros. Andar a 100 km/h num veículo com três rodas e tecnologia dos anos 1950, controlando a máquina através de uma espécie de guidão de moto, não é para qualquer mortal. E isso o nosso Noel já provou que não é, caso contrário nem teria fechado a capota de plexiglass desse aviãozinho sem asas, muito menos ar condicionado.

Boa viagem, Papai Noel - e um Feliz Natal a todos os leitores do Adverdriving!

Imagem: http://worldlicenseplates.com

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Subida de Montanha, o quiz

Quem deu a idéia foi o Rui Amaral, titular do blog Histórias que Vivemos. Quem autorizou o uso das fotos, de autoria do grande Jorge Lettry, foram o Gabriel Marazzi e o próprio Rui. E a mim coube a tarefa de apresentá-las aqui no formato de um quiz.

A idéia é simples: ganha quem reconhecer o maior número possível de automóveis presentes nessas fotos. Para simplificar o processo, cada foto está identificada por uma letra onde normalmente estaria a legenda. Não há prêmios, apenas a satisfação inerente ao saudável exercício do carspotting.

Desvendar a identidade desses automóveis não chega a ser um bicho de sete cabeças, mas há exceções. As principais são os roadsters de números 37, 34 e 75, além de outro carro com o mesmo estilo de carroceria cujo número não está visível, mas que ostenta em sua traseira a publicidade de um certo Auto Elétrico Nove de Julho.

E apesar de não haver nenhuma pegadinha neste quiz, alguns dos automóveis apresentados pertencem à turma do "parece mas não é", exigindo um olhar especialmente atento e algum conhecimento histórico para que o leitor não seja induzido a erro. Quem avisa amigo é...

Em tempo: o evento ao qual se referem essas fotos é a primeira Subida de Montanha, prova realizada em 1958 na Estrada Velha de Santos, também conhecida como Caminho do Mar. Hoje fechada ao tráfego motorizado, essa foi a principal ligação rodoviária entre a cidade de São Paulo e o litoral do estado até a inauguração da Via Anchieta, ocorrida em 1947.

E então, quem se habilita?

Foto A
Foto B
Foto C
Foto D
Foto E
Foto F
Foto G
Foto H
Foto I
Foto J
Foto K
Foto L

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Pintou na caixa do correio

Foi só a campainha tocar, e virei criança de novo: era o meu exemplar pessoal de Pinte os Clássicos, o livro para colorir lançado recentemente pelo ilustrador, blogueiro e entusiasta automotivo Maurício Morais.


Que eu saiba, esse é um projeto inédito em nosso mercado editorial, uma coletânea de desenhos de automóveis nacionais que deixaram sua marca na história, e que hoje fazem parte do patrimônio afetivo de várias gerações de brasileiros. São 25 automóveis ao todo, do Simca Chambord 1960 até vários modelos da Volkswagen e da GM dos anos 1970 e 1980, representados no traço limpo e preciso de um dos maiores artistas automotivos hoje em atividade no Brasil. Apesar de produzido de forma semi-artenanal, com encadernação em espiral e capas de plástico flexível, o livro é bem cuidado e impresso em papel de boa qualidade.


Folheando as páginas de Pinte os Clássicos, é difícil não sentir vontade de abrir aquela gaveta de fotos antigas que temos em casa (ou então no sótão da memória) e usá-las como referência para dar ainda mais vida aos carros que Maurício colocou no papel.

Se você estiver um pouco enferrujado no uso do crayon, do lápis de cor ou do gouache, não pense nisso como um problema mas sim como uma oportunidade: convide os membros mais jovens de sua família, sejam eles filhos, netos ou sobrinhos, para colorir esses automóveis com você num processo interativo a várias mãos. Uma parceria que envolve partes iguais de pesquisa e criatividade, conhecimento e diversão, história e fantasia, trazendo como benefício adicional o fortalecimento do vínculo entre as gerações. E também, quem sabe, ajudando a formar mais um (ou mais uma) entusiasta com quem você possa compartilhar o seu gosto por automóveis clássicos, e mais cedo ainda do que imaginava.


Serviço: o livro Pinte os Clássicos pode ser adquirido diretamente com o autor, Maurício Morais. Contatos pelo e-mail mau917@gmail.com, ou pelo site http://mauriciomorais.blogspot.com.br/

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O barquinho vai (Parte 4 - Final)

A Canção dos Barqueiros do Volga, com sua cadência lenta e obstinada, daria uma boa trilha sonora para este post, o último da série sobre automóveis com nomes náuticos. Se bem que, neste caso, talvez fosse mais apropriado se falar em nomes fluviais.

"Volga, Volga..."
O Volga é o mais extenso rio da Rússia e também da Europa. Mas para o russo médio, ele representa muito mais do que isso: ele é a "Mãe Volga", o rio da identidade nacional, tão carregado de lendas e simbolismo quanto o São Francisco no Brasil ou o Mississippi nos Estados Unidos. Na década de 1950, seu nome foi usado para batizar um dos principais modelos de automóveis produzidos na antiga União Soviética. Não é ele o tema deste post, mas sim outro carro russo de uma geração um pouco mais recente: o Lada, velho conhecido dos brasileiros e um dos primeiros importados da era Collor.


Lada {ou Lad'ya, na pronúncia russa) é o nome do barco a vela estilizado que se vê no logotipo ao lado. Sua semelhança com os navios Viking não é mera coincidência, já que foi neles que os russos se inspiraram para criar uma embarcação de menor porte, destinada principalmente ao transporte fluvial.

Mas o Lada sobre rodas não nasceu com esse nome. No começo, chamava-se VAZ 2101, denominação de escasso apelo comercial para um automóvel que o governo soviético pretendia exportar em grande volume para todos os países do antigo bloco socialista, bem como para vários mercados do ocidente. A ambição era proporcional ao gigantismo da fábrica construída em associação com a Fiat na localidade de Stavropol, às margens do Volga, na época a maior unidade produtora de automóveis do mundo.

Nota no L'Unità, jornal do PCI: comunista sim, mas com o orgulho de ser italiano

Concluído em 1970, o empreendimento teve a participação direta do governo italiano, tendo o aval político do veterano líder comunista Palmiro Togliatti. Em homenagem ao velho aliado, fundador do Partido Comunista Italiano, Stavropol teve o seu nome mudado para Tolyatti. E numa contrapartida mais concreta aos novos parceiros comerciais, a União Soviética comprometeu-se a lhes fornecer chapas de aço produzidas em suas siderúrgicas. Essas chapas de aço, que foram utilizadas não só pela Fiat como por outras empresas italianas do setor nas décadas de 1970 e 1980, acabaram afetando negativamente a imagem dessas empresas por sua baixa resistência à corrosão, motivo de constantes preocupações para a maioria dos proprietários de carros italianos produzidos no período.

Mas de volta ao tema deste post, a escolha de um nome mais atraente em substituição ao VAZ 2101 foi feita por um meio surpreendentemente democrático para um país onde quase todas as decisões eram tomadas pelo governo: uma concurso via correio, organizado em conjunto com uma das poucas revistas automotivas russas, em que qualquer cidadão poderia indicar o nome de sua preferência.

Choveram cartinhas com nomes de toda espécie, desde os delicadamente poéticos como "alvorada" e "primavera" até outros de viés mais ideológico, como "longa vida aos ideais do marxismo-leninismo" (em forma de acrônimo, é claro). Entre os milhares de nomes sugeridos havia até Madonna, presumivelmente uma homenagem à religião predominante no país de origem do novo modelo. 

Depois de muita deliberação, foi proclamado um vencedor: Zhiguli, nome de uma cadeia montanhosa próxima a Tolyatti, e por extensão ao Volga. Foi com essa denominação que o VAZ 2101 começou a ser exportado. Mas logo começaram a chegar mensagens um tanto constrangidas dos distribuidores na Bélgica, primeiro país do ocidente a importar o sedã russo, dando conta de que já começavam a circular piadas maldosas motivadas pela proximidade fonética entre Zhiguli (pronuncia-se "jiguli") e gigolô.

O jeito foi vasculhar as sugestões recebidas em busca de outro nome. E uma vez mais, a solução veio do Volga com o nome do barquinho Lada, tão associado a esse rio quanto Zhiguli, mas sem conotações indesejáveis no ocidente.


O Lada pode ter sido um automóvel polêmico ao longo de sua história, com detratores e defensores em igual proporção. Mas o fato é que vendeu quase 17 milhões de unidades, quatro vezes mais que o Fiat 124 que lhe serviu de modelo, sendo portanto um dos automóveis mais vendidos de todos os tempos. Gerou dois filhotes, a perua Laika e o fora-de-estrada Niva, e só saiu de cena no início deste ano depois de mais de quatro décadas em produção. Deixou como legado o seu nome, que hoje identifica não só um modelo de automóvel mas a própria empresa fabricante, atualmente associada à Renault.

Nada mal para um barquinho que foi resgatado das águas do Volga quase que por acaso...