Nossos vizinhos sairam na frente, lançando dois carros com esse tipo de nome em rápida sucessão. Mas aí o Brasil empatou o jogo, e o placar continua empatado até hoje.
Quem abriu o marcador foi o IKA Carabela, versão argentina do luxuoso Kaiser Manhattan. Lançado pela então recém-fundada Industrias Kaiser Argentina em 1958, cinco anos após o fim da produção desse modelo nos EUA, foi o primeiro automóvel fabricado em série no país vizinho. Seu porte fazia dele uma verdadeira caravela sobre rodas, evidenciando a adequação entre nome e modelo.
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O Carabela não só era um carro grande como também caro demais para a média dos consumidores argentinos, o que limitava o seu público a altos funcionários do governo, proprietários rurais e outros integrantes da elite do país.
Claramente, para poder crescer a IKA teria que acrescentar à sua gama de produtos um modelo menor e mais barato. Como a Kaiser Jeep já deixara de produzir automóveis de passeio nos EUA, tendo inclusive despachado a linha de montagem do Aero Willys para o Brasil, o jeito foi buscar um acordo com outra empresa do setor.
Por coincidência, a Alfa Romeo acabava de aposentar o 1900 Berlina, então com quase dez anos de mercado, e poderia ceder o seu maquinário à IKA a preço de liquidação. Fechado o negócio, o veterano modelo passou a ser montado na Argentina, mas sem o sofisticado motor de duplo comando de válvulas que era o ponto alto do original italiano. Em seu lugar entrou o rústico motor vareteiro que equipava a Estanciera, versão argentina da nossa Rural Willys. Algumas mudanças cosméticas, quase todas para pior, completaram a adaptação, e o carro foi para as concessionárias com o nome de Bergantín.
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E por que Bergantín? Porque esse é o nome de outra embarcação do tempo das caravelas, porém bem menor. A palavra é uma corruptela do italiano brigantino, por sua vez derivado de brigante, termo relacionado ao nosso verbo brigar.
Os bergantins eram navios de dois mastros, ágeis e bons de briga, especialmente apreciados por piratas, aventureiros e brigantes de toda espécie. Como o Alfa 1900 argentinizado deveria ficar um degrau abaixo do Carabela, e como possuia um temperamento mais esportivo apesar do motor sem brilho, a escolha desse nome até que fazia sentido.
Lançado em 1960, o IKA Bergantín durou apenas dois anos, metade do ciclo de produção do Carabela. No final de 1962, tanto um quanto o outro já pertenciam ao passado.
Foi por volta dessa época que surgiu o primeiro automóvel brasileiro com um nome de inspiração náutica, o Jangada. Na França, o modelo era conhecido como Marly, em referência à localidade do mesmo nome. Mas por aqui a Simca do Brasil, que já havia rebatizado o Vedette como Chambord para evitar associações com as vedetes do teatro rebolado, decidiu mudar também esse nome, já que por uma curiosa coincidência uma das principais expoentes do gênero era a escultural Marly Marley, ainda hoje na ativa como jurada de programas de auditório.
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Como no caso dos hermanos Carabela e Bergantín, a Jangada também teve vida curta, não chegando a emplacar cinco anos de fabricação. Muito tempo ainda haveria de passar antes que aparecesse outro automóvel brasileiro com nome náutico: o VW Saveiro, lançado no final de 1982.
Os saveiros são embarcações inteiramente construídas em madeira, originárias das regiões norte e nordeste do Brasil, onde eram (e ainda são) utilizadas na pesca artesanal e no transporte de cabotagem. Apesar de sua construção não exigir grandes conhecimentos teóricos, apresentam boas características de navegabilidade, versatilidade e robustez. Tudo a ver, portanto, com a proposta de uma picape como que a Volkswagen acabava de lançar.
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O VW Saveiro foi o quarto representante da chamada família BX depois do Gol, do Voyage e da perua Parati. Originalmente o Gol deveria ter se chamado Angra, mas a construção da usina nuclear de Angra dos Reis fez que a Volkswagen mudasse de idéia.
De qualquer forma, há uma evidente afinidade entre os nomes Angra, Parati e Saveiro. Os dois primeiros são de localidades quase vizinhas, cuja história está intrinsecamente ligada à navegação marítima. Já o último, mesmo não sendo nativo da região, designa um tipo de embarcação que também pode ser vista singrando suas águas. Seria apenas uma coincidência, ou o pessoal da Volkswagen e de sua agência de propaganda costumava frequentar esse pedaço privilegiado da costa brasileira?
Aos trinta anos completados em 2012, o VW Saveiro é hoje um dos modelos presentes há mais tempo em nosso mercado, além de ser um dos campeões mundiais de longevidade em matéria de nomes náuticos. Só não é o recordista absoluto porque o título pertence a um automóvel de outra nacionalidade, que inclusive já teve vendas bastante expressivas aqui no Brasil. Mas essa é uma outra história, que fica para a quarta (e última) parte desta série.



















