Nem bem a Segunda Guerra Mundial havia terminado e a Inglaterra já se preparava para enfrentar uma nova batalha, desta vez, por sua sobrevivência econômica. O esforço bélico havia esgotado todas as suas reservas, e para reverter esse quadro a exportação de manufaturados se apresentava como a grande saída. Cunhou-se um slogan: "
Export or Die". E o país foi à luta, tendo sua indústria automobilística como ponta de lança.
Nenhum automóvel fez mais pelo sucesso dessa investida do que o Austin A40. Produzido entre 1947 e 1952, vendeu quase 300 mil unidades, volume nada desprezível para a época. Foi exportado para muitos países, inclusive o Brasil, e teve boa aceitação até no mercado norte-americano, quase sempre um campo minado para carros de pequeno porte. Entretanto, poucas unidades permaneceram na própria Inglaterra, por dois motivos básicos: o preço, inacessível para a maioria dos consumidores britânicos daquele período, e a já citada prioridade ao mercado externo.

O Austin A40 não era um carrinho qualquer, mas um legítimo Austin of England como seu fabricante fazia questão de frisar. Um automóvel que expressava as tradicionais virtudes britânicas de solidez e discrição. Graças ao seu sucesso comercial, lançou as bases para a ampliação da gama de modelos da Austin. E com o desenho de sua carroceria (sim, o A40 ainda usava chassi separado), estabeleceu a linguagem visual que caracterizaria a maioria dos Austins fabricados na década de 1950.
Dada a importância histórica desse automóvel, é de causar espanto a escassez de informações sobre o homem que o desenhou, Ricardo Burzi. Nem mesmo a sua data de nascimento pode ser encontrada na Internet, ainda que as evidências circunstanciais permitam situá-la ao redor de 1900. E como se não bastasse, vários autores (no meio acadêmico, inclusive) lhe atribuem incorretamente a nacionalidade italiana, quando na verdade o seu país de origem era a Argentina.
A biografia de Ricardo Burzi mereceria uma investigação mais aprofundada, mas esse é um trabalho para ser feito
in loco, na Argentina e nos arquivos das empresas onde trabalhou. O que se sabe a seu respeito é que, ao chegar à Europa, fixou residência na Itália e empregou-se como desenhista na Lancia. Até que um dia, talvez mais por ingenuidade do que por qualquer motivação política, aceitou fazer uma charge de Mussolini para um jornal de oposição. A partir daí, passou a ser visado pelas autoridades de Roma como inimigo do regime.
Burzi devia ser uma figura muito benquista na Lancia, pois para evitar que sofresse represálias a empresa decidiu transferi-lo para sua subsidiária em Paris. O próprio Vincenzo Lancia, numa conversa que teve casualmente com Sir Herbert Austin a bordo de um navio, recomendou sua contratação ao industrial britânico - o qual, por uma feliz coincidência, andava à procura de alguém para dirigir o recém-criado departamento de estilo de sua empresa.
Ricardo Burzi não falava uma só palavra de inglês quando chegou à sede da Austin em Longbridge. Mas aprendeu rapidinho, e logo virou Dick Burzi. E lá ficou por quase trinta anos, o que leva a crer que possuia um temperamento cordato e uma paciência fora do comum. Só isso poderia explicar tamanha longevidade na empresa, principalmente depois que esta passou a ser comandada por Leonard Lord, um executivo conhecido por seus métodos autocráticos e sua personalidade centralizadora.
Um episódio que ilustra bem o relacionamento entre Lord e Burzi é o que diz respeito à origem do conhecido logotipo da Austin no formato de uma letra "A" alada. Um dia, Lord entrou na sala de Burzi, colocou o ornamento de capô de seu próprio Bentley sobre a sua mesa, e incumbiu-o de fazer algo parecido. Na tarde do mesmo dia, Burzi lhe apresentou uma maquete do "A" alado em madeira compensada revestida de papel alumínio. Era exatamente o que Lord queria, sem questionamentos nem contestações.
O Austin A40 de Burzi deu a Leonard Lord seu primeiro grande sucesso no comando da empresa, ajudando a consolidar seu prestígio junto aos meios políticos e empresariais britânicos e impulsionando o seu projeto de juntar a Austin e sua principal concorrente (e ex-empregadora) Nuffield Organisation, fabricante dos automóveis Morris, em uma só corporação. O que efetivamente ocorreu com a formação da British Motor Company, em 1952.
Os Austin que vieram depois do A40 mantiveram os principais elementos de seu estilo. É o caso da segunda geração do modelo, também conhecida como Somerset, dos sedãs médios A70 e A90, e também do pequeno A30 - este, um modelo de importância vital para ampliar a base de clientes da marca no mercado interno.
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| A40 Somerset |
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| A70 Hampshire |
Com vistas à criação do A30, Leonard Lord chegou a contratar o designer americano Bob Koto, da equipe de Raymond Loewy. Gostou do resultado, mas aos quarenta e cinco do segundo tempo parece ter se lembrado da máxima de que "em time que está ganhando não se mexe". O jeito foi pedir socorro ao velho e bom Dick Burzi, a quem coube a ingrata tarefa de modificar os desenhos de Koto até chegar a um A30 que fosse imediatamente reconhecível como um Austin.
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| A30 |
O produto final ficou um tanto prejudicado em suas proporções, mas isso não impediu que alcançasse grande popularidade. Hoje, tanto o Austin A30 como a sua evolução, o A35, têm status de
cult entre os aficionados britânicos. Entre os usuários ilustres que o modelo teve ao longo de sua história estão o piloto britânico Graham Hill, que no final dos anos 50 usava um A35 mexidíssimo para se deslocar de um Grande Prêmio para outro, e o também campeão da F1 James Hunt, que nos últimos anos de sua vida costumava circular por Londres a bordo de um furgão A35. Por sinal, esse mesmo modelo brilharia nas telas anos depois como meio de transporte da impagável dupla Wallace & Gromit.


Depois de várias décadas em Longbridge, a rotina de trabalho de Ricardo Burzi fluia sem grandes sobressaltos. Até que um dia, no final de 1955, uma visita à fábrica por um membro da realeza britânica mudou o rumo de sua história. O visitante era o Principe Philip, marido da Rainha Elisabeth, e aquela não era uma visita meramente protocolar, já que Philip se interessava por automóveis e era um atento observador da indústria. Entusiasmado com sua presença, Leonard Lord resolveu mostrar-lhe os futuros lançamentos da empresa. Só que a reação do príncipe diante do que viu não foi exatamente a esperada: "Sir Leonard", disse ele, "creio que o senhor deveria rever as coisas porque não me parece que esses modelos estejam à altura dos nossos concorrentes estrangeiros".
Naturalmente, Lord ficou constrangido com o que ouviu. Mas como não era homem de perder tempo, nem de ignorar as opiniões vindas de cima, ligou no dia seguinte para Battista 'Pinin' Farina. Daí em diante, o estilo dos novos automóveis da Austin, com a exceção dos esportivos de baixo volume e do Mini de Alec Issigonis, passaria a ser definido pelo
carrozziere italiano. A "Era Burzi" havia chegado ao fim.
Sobre o que foi feito da vida e do trabalho de Ricardo Burzi depois disso, nada se sabe. Nem mesmo todos os algoritmos dos buscadores da Internet são capazes de rastrear qualquer informação a respeito. Até que ela venha à tona, cabe aos Austins que hoje estão em poder dos colecionadores servir de testamento a esse desenhista argentino que um dia - discretamente, como era de seu feitio - ajudou a reerguer a indústria automobilística britânica, e com ela toda a economia de sua terra de adoção.