Há coisa de duas, três semanas atrás, notei um forte aumento no número de acessos ao Adverdriving. Fiquei feliz com isso - que blogueiro não ficaria? - mas num primeiro momento também fiquei em dúvida quanto ao motivo. Agora, depois de analisar os dados do Sitemeter e do Google Analytics, posso resumi-lo em duas palavrinhas: Camaro amarelo.
Tudo começou em agosto de 2010, quando publiquei
um post sobre o lançamento do Camaro no Brasil. Para ilustrar esse post, usei a imagem acima, que identifiquei com o nada criativo tag de "Camaro amarelo". Ou seja, não há nenhuma relação entre essa imagem (nem aquele post de um modo geral) e a música "Camaro Amarelo" - esta, sim, a verdadeira responsável pelo aumento no número de acessos. Confesso que eu nunca tinha ouvido falar nela, mas fiz a lição de casa e agora sei que se trata de um fenômeno da internet, com mais de oito milhões e meio de views no YouTube. Aos que acessaram o Adverdriving por causa dela e não encontraram o que queriam, apresento minhas sinceras desculpas.
Mas como nada se perde, esse desencontro de expectativas me trouxe a idéia de fazer um passeio por algumas músicas em que um automóvel é citado nominalmente, por marca ou por modelo. Nos EUA, por exemplo, o que não falta são músicas sobre Fords e Chevys, para não falar nos Porsches e Mercedes-Benz que Janis Joplin cantou. Mas é melhor circularmos só pelo cenário artístico nacional para que esse passeio não vire uma peregrinação sem fim. Se você se lembrar de alguma música que ficou de fora, sua contribuição será muito bem vinda.
O CADILLAC DE ROBERTO E ERASMO CARLOS (1964)
A principal função do Cadillac no clássico "O Calhambeque" é fazer um contraponto ao automóvel do título, que apesar de anônimo é o seu verdadeiro protagonista. Considerando a época e o contexto dessa música, será que a palavra "Cadillac" se refere mesmo a um carro dessa marca, ou é apenas um termo genérico para um automóvel caro, vistoso e que dá status ao seu proprietário?
Qualquer que seja a resposta, a letra de "O Calhambeque" veio ao encontro de um certo não-conformismo que começava a se difundir, ainda que timidamente, entre os jovens brasileiros no início dos anos 1960. Sua mensagem pode ser resumida assim: para ser popular (principalmente junto ao chamado sexo oposto), não é preciso ser bonito como um Cadillac, nem rico o suficiente para ter um - basta ter a autenticidade e a simpatia de um calhambeque.
Saí da oficina
Um pouquinho desolado
Confesso que estava
Até um pouco envergonhado
(...)
E logo uma garota
Fez sinal para eu parar
E no meu Calhambeque
Fez questão de passear
(...)
E muitos outros brotos
Que encontrei pelo caminho
Falavam: "Que estouro
Que beleza de carrinho"
E fui me acostumando
E do carango fui gostando
(...)
Mas o Cadillac
Finalmente ficou pronto
Lavado, consertado
Bem pintado, um encanto
Mas o meu coração
Na hora exata de trocar
Aha! Aha! Aha! Aha! Aha!
O Calhambeque, bi-bi
Meu coração ficou com
O Calhambeque
De lá para cá muita coisa mudou. E em 2003, Roberto Carlos gravaria uma nova música em homenagem ao... Cadillac. O calhambeque podia até ser uma paixão nos tempos da Jovem Guarda, mas o amor pelo Cadillac prevaleceu no final.
O CORCEL DE MARCOS VALLE (1969)
Na geléia geral do fim da década de 1960, Marcos Valle, autor de clássicos da bossa nova como "Samba de Verão" e "Eu Preciso Aprender a Ser Só", virou as costas ao gênero para aderir entusiasticamente ao pop. O disco
Mustang Cor de Sangue, Corcel Cor de Mel foi o primeiro dessa nova fase.
Na letra da música-título, que mistura o Eros e o Tânatos com algumas pitadas de Herbert Marcuse, o então recém-lançado Corcel é alçado ao mesmo patamar de desejabilidade do Mustang, um dos automóveis mais cobiçados da época.
Tenho um novo ideal
Sexual
Abandono a mulher
Virgem no altar
Amo em ferro e sangue
Um Mustang
Cor de sangue..
(...)
A questão social
Industrial
Não permite que eu
Seja fiel
Na vitrine um Corcel
Cor de mel
Meu Corcel!
Segundo Marcos Valle, a letra é uma crítica à sociedade de consumo. Talvez seja - mas que a capa do disco tem uma tremenda cara de merchandising, isso tem.
Outra coisa que reforça essa impressão é um texto escrito por Washington Olivetto em homenagem a Mauro Salles, dono da agência que atendia a Ford naquela época. Nele, Olivetto enaltece Salles como "precursor do merchandising, que colocou o Marcos Valle para cantar o seu Mustang Cor de Sangue e o seu Corcel Cor de Mel naquele novo lançamento da Ford." Precisa dizer mais alguma coisa?
O CORCEL DE RAUL SEIXAS (1973)
Se a idéia é fazer crítica social, a letra de "Ouro de Tolo" é bem mais convincente que a de "Mustang Cor de Sangue". Nela, um Corcel 73 ajuda a compor um quadro de vazio existencial que só é agravado com o acúmulo de bens materiais e de outros símbolos do sucesso numa sociedade em que as pessoas são avaliadas (e se auto-avaliam) por esses critérios.
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...
(...)
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
(...)
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
O FUSCÃO PRETO DE ATÍLIO VERSUTI E JECA MINEIRO (1978)
Carro chefe do estilo sertanejo-brega, a lacrimosa Fuscão Preto é um verdadeiro hino à dor de corno. O Fuscão, no caso, é uma representação figurativa do impiedoso ricardão que roubou a amada do narrador (ou "eu-lírico", como diriam os pedantes), ao qual agora só resta chorar suas mágoas de amor.
Me disseram que ela foi vista com outro
Num fuscão preto pela cidade a rodar
(...)
Fuscão preto, você é feito de aço
Fez o meu peito em pedaço
Também aprendeu a matar
Fuscão preto, com o seu ronco maldito
Meu castelo tão bonito
Você fez desmoronar...
A BRASÍLIA AMARELA DOS MAMONAS ASSASSINAS (1991)
Mais uma história de paixão não correspondida - só que desta vez em tom de deboche, a começar pelo título "Pelados em Santos". Nada é levado a sério: nem a Brasília amarela com rodas gaúchas, nem a mina pitchula que se recusa a entrar no carro, muito menos o narrador dessa ópera bufa da periferia, que lança mão de uma linguagem conscientemente brega para fazer uma hilariante crítica de costumes.
Mina, seus cabelo é da hora
Seu corpão violão
Meu docinho de coco
Tá me deixando louco
Minha Brasília amarela
Tá de portas abertas
Pra gente se amar
Pelados em Santos
Music, is very good
(Oxente ai, ai, ai!)
Mas comigo ela não quer se casar
(Oxente ai, ai, ai!)
Na Brasília amarela com roda gaúcha
Ela não quer entrar
(Oxente ai, ai, ai!)
O LAND ROVER DE TONINHO HORTA E FERNANDO BRANT
De todas as composições desta lista, essa é a minha preferida. Não conheço nenhuma outra em que letra e a música se conjuguem de modo tão harmônico para expressar a sensação de liberdade, amplidão de horizontes e às vezes até de magia que se tem ao fazer uma longa viagem de automóvel.
Seu título, "Manoel, o Audaz", homenageia um Land Rover 1951 que pertenceu ao compositor mineiro Fernando Brant. A marca do carro não aparece na parte escrita da letra, mas sim no recitativo semi-improvisado que lhe serve de introdução..
Não chega a causar surpresa o uso da palavra jipe em referência a esse Land Rover, denotando o status da marca Jeep como sinônimo de categoria. E a palavra "amarelou" não quer dizer que o carro de Brant tenha se acovardado diante de algum obstáculo - trata-se apenas de uma referência à sua cor.
Se já nem sei
Meu nome
Se eu já não sei parar
Viajar é mais
Eu vejo mais
A rua, luz, estrada, pó
O jipe amarelou
Manoel, o audaz
Manoel, o audaz
Manoel, o audaz, vamos lá
Viajar
OS CHEVETTES DE LUCAS EBONE, WAGNER JOSÉ E ANA CAROLINA. E O DOS VIRGULÓIDES TAMBÉM.
Fiquei surpreso com a quantidade de músicas que falam em Chevette, mas não com o tom de esculhambação que permeia todas elas. O carro invariavelmente é um destroço ambulante cuja sina é testemunhar barracos, se envolver em acidentes, sofrer panes mecânicas e ser furtado - quando não apreendido pela polícia. Ou então, na melhor das hipóteses, funcionar como uma espécie de motel sobre rodas. Fazer o que? Não é por que sou um chevetteiro inveterado que vou submeter essas músicas a qualquer tipo de censura. Portanto, cumprindo minha obrigação jornalística, apresento a seguir um apanhado dos trechos mais representativos de cada uma delas.
Ei novinha, te dou um beijo sabor chiclete,
Se ficar arrepiada, te levo pro meu Chevette.
Se motel é o carro, hoje ele vai chacoalhar,
Balança o chevette, escuta o som, vamos zuar.
O Chevette tá balançando e o calor tá aumentando,
A novinha pede mais, e os vidros vão embaçando.
O chevette tá balançando e o calor tá aumentando,
A novinha pede mais, e a suspensão não tá aguentando
Botei o meu Chevette 77
na estrada sentido Minas
No Rádio os Stones, na camiseta John
E ao lado uma bela menina
Mas já bem pra lá da serra
surge um cheiro forte de gasolina
E o Chevette parando e eu me preocupando
Por aqui não tem oficina
Quem diria, meu Chevette me deixou na mão
Eu juro que da próxima vez
Eu faço a revisão
(...)
Se mandou
Bateu com meu Chevette
Pôs fogo na quitinete
Me traiu com mais de sete
Fez comigo um bafafá
(...)
Eu só tenho um velho
Chevete velho
Chevete velho
Mas com ele eu descolo mulher
E tudo tudo que eu quero
(...)
Mas descolei uma mina
Pra transar lá na represa
Mas sujou com a polícia
Naquele velho
Mãos pra cabeça
Documentos por favor
(...)
E eu falei lá pro doutor
O carro foi comprado
Com muito suor
Mas o bicho era cabrito
E a mina era menor
mas ninguem teve dó
E me mandou
Já pro xilindró
Bem, caro leitor, estamos chegando ao final do nosso passeio. Mas como seria injusto encerrá-lo sem falar nada sobre a música que o inspirou, aqui está ela:
O CAMARO AMARELO DE MUNHOZ E MARIANO
Quase cinquenta anos depois de "O Calhambeque", o Camaro da dupla Munhoz e Mariano assinala o retorno triunfal do carrão da moda como símbolo de status e poder, sem medo de ser feliz. O eterno triângulo homem-automóvel-mulher está presente, mas desta vez o automóvel assume poderes extraordinários. Transforma homens inexpressívos em casanovas irresistíveis, ajudando-os a conquistar as mesmas mulheres (ou a se vingarem delas, se assim o desejarem) que não ligavam a mínima para eles antes de sua entrada em cena. É um Bumblebee do amor, por assim dizer.
Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce
Agora eu fiquei dodododo doce, doce
Agora eu fiquei doce igual caramelo
To tirando onda de Camaro amarelo
Agora você diz: vem cá que eu te quero
Quando eu passo no Camaro amarelo
Quando eu passava por você
Na minha CG você nem me olhava
Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber
Mas nem me olhava
Aí veio a herança do meu véio
E resolveu os meus problemas, minha situação
E do dia pra noite fiquei rico
To na grife, to bonito, to andando igual patrão
(...)
Agora você quer, né?
E agora você vem, né?
Só que agora vou escolher,
Tá sobrando mulher
(...)
Munhoz e Mariano são expoentes do estilo conhecido como sertanejo universitário, mas não é preciso ser nenhum Ph.D para se dar conta do aparato de merchandising (ou, mais corretamente,
product placement) que há por trás de "Camaro Amarelo". As imagens da abertura do clip oficial da música são imagens publicitárias, e numa recente edição do programa Autoesporte a dupla praticamente fez o papel de porta voz da fabricante. Eu poderia acreditar que tudo isso não passa de coincidência, mas já estou crescidinho demais para isso.
De qualquer forma, oito milhões e meio de views no YouTube não é para qualquer um. Nenhum anunciante e nenhuma agência de comunicação resistiria por muito tempo à tentação de assumir a paternidade desse feito. Mas fazê-lo agora seria dar um tiro no pé. Ainda é cedo - e, para usar um verso de Johnny Alf que se aplica perfeitamente a grande parte das ações de
product placement, "se almejas algo escuso, é na moita que se faz. Portanto, o negócio é esperar até o festival publicitário de Cannes do ano que vem. Duvido que esse Camaro Amarelo não esteja lá, disputando prêmios com todo o estardalhaço a que tem direito.