sábado, 21 de julho de 2012

A Fiat no tribunal da inquisição

Olhe com atenção para a imagem aí embaixo. Se o que você vê é um menino num carrinho de pedal, com os pais sorrindo ao seu lado, então está muito enganado.


Pelo menos assim é que pensa o Instituto Alana, uma organização não-governamental que se propõe a defender as crianças brasileiras contra aquilo que considera práticas abusivas de marketing e comunicação, e que tem entre suas principais bandeiras a proibição pura e simples de qualquer mensagem comercial dirigida a esse público. Segundo a visão de mundo dessa ONG, esse carrinho de pedal faz parte de uma engrenagem diabólica que busca arrastar os cidadãos para o caldeirão do consumismo desde a mais tenra idade. O menino da foto é ao mesmo tempo vítima e agente dessa engrenagem, enquanto os pais são autômatos que só existem para realizar os seus desejos de consumo, de um carrinho de pedal até um automóvel para toda a família, contanto que seja da marca Fiat.

Pode parecer piada, mas é sério. Tão sério que no começo deste mês o Instituto Alana interpelou publicamente a Fiat, censurando-a por disponibilizar o tal carrinho e intimando-a retirá-lo do mercado o quanto antes. Detalhe: a Fiat tomou conhecimento do fato pela imprensa.

(Fonte: Revista Exame, edição online - 02/07/2012)

É bem verdade que a montadora deu a cara para bater quando o seu diretor de publicidade, João Batista Ciaco, afirmou em entrevista ao jornal Valor Econômico que este e outros brinquedos com a marca Fiat eram uma plataforma de comunicação destinada a criar uma relação afetiva com a marca. "Em vez de focar no pai, decidimos focar no filho, que influencia o pai na decisão de compra", disse Ciaco na ocasião.

Mas há uma distância considerável entre o wishful thinking marqueteiro e o que acontece na vida real, e nenhuma criança se deixaria influenciar por elocubrações do gênero. O que criança quer é se divertir, e se o carrinho de pedal for da marca Fiat ou de qualquer outra marca, tanto faz.

Se eu pudesse voltar no tempo, gostaria de ser corrompido por um Austin J40 igualzinho a esse. E só compraria carros da Austin pelo resto da vida.

De igual maneira, não é o que um executivo da Fiat falou ou deixou de falar que irá determinar os efeitos de um brinquedo desses sobre as atitudes e preferências de uma criança, muito menos as de seus pais.

Em todo caso, distinções dessa natureza não fazem a menor diferença para uma ONG de perfil fundamentalista como o Instituto Alana. Tudo é motivo para atazanar as empresas que não rezam pela sua cartilha, e para condená-las como inimigas da infância e daqueles que, em sua opinião, deveriam ser os verdadeiros valores da sociedade. Tradicionalmente, os seus alvos preferenciais têm sido as redes de fast food e os fabricantes de brinquedos e guloseimas. Agora, alargando o seu campo de atuação, submete uma empresa do setor automotivo à sua versão do auto-da-fé.

Vigilante em sua atitude e firme em suas convicções, o Instituto Alana não gosta de ser contrariado. Em 2011, depois de receber um parecer desfavorável a uma de suas inúmeras representações junto ao CONAR, declarou guerra a essa entidade sob o argumento de que a auto-regulamentação publicitária no Brasil havia fracassado, e que a unica forma eficaz de defender o consumidor seria a intervenção governamental. Além, é claro, de sua própria atividade na produção de denúncias pelos motivos mais disparatados, sempre a partir do pressuposto de que as empresas são mal intencionadas e os consumidores, incapazes de pensar por sua própria conta. 

Até hoje, a atuação do Instituto Alana tem se restringido ao território nacional. Mas num mundo cada vez mais globalizado, uma ONG tão ciosa de sua missão não poderia fechar os olhos para os crimes de lesa-infância praticados por eles - os famigerados carrinhos de pedal - em outras partes do mundo. E é por isso mesmo que, imbuído do mais elevado espírito de cooperação, apresento a seguir uma galeria de imagens que certamente irão ajudar na identificação desses insidiosos agentes do consumismo internacional. Agora é com você, Alana!

domingo, 15 de julho de 2012

A turma do Camaro amarelo

Há coisa de duas, três semanas atrás, notei um forte aumento no número de acessos ao Adverdriving. Fiquei feliz com isso - que blogueiro não ficaria? - mas num primeiro momento também fiquei em dúvida quanto ao motivo. Agora, depois de analisar os dados do Sitemeter e do Google Analytics, posso resumi-lo em duas palavrinhas: Camaro amarelo.


Tudo começou em agosto de 2010, quando publiquei um post sobre o lançamento do Camaro no Brasil. Para ilustrar esse post, usei a imagem acima, que identifiquei com o nada criativo tag de "Camaro amarelo". Ou seja, não há nenhuma relação entre essa imagem (nem aquele post de um modo geral) e a música "Camaro Amarelo" - esta, sim, a verdadeira responsável pelo aumento no número de acessos. Confesso que eu nunca tinha ouvido falar nela, mas fiz a lição de casa e agora sei que se trata de um fenômeno da internet, com mais de oito milhões e meio de views no YouTube. Aos que acessaram o Adverdriving por causa dela e não encontraram o que queriam, apresento minhas sinceras desculpas.

Mas como nada se perde, esse desencontro de expectativas me trouxe a idéia de fazer um passeio por algumas músicas em que um automóvel é citado nominalmente, por marca ou por modelo. Nos EUA, por exemplo, o que não falta são músicas sobre Fords e Chevys, para não falar nos Porsches e Mercedes-Benz que Janis Joplin cantou. Mas é melhor circularmos só pelo cenário artístico nacional para que esse passeio não vire uma peregrinação sem fim. Se você se lembrar de alguma música que ficou de fora, sua contribuição será muito bem vinda.

O CADILLAC DE ROBERTO E ERASMO CARLOS (1964)


A principal função do Cadillac no clássico "O Calhambeque" é fazer um contraponto ao automóvel do título, que apesar de anônimo é o seu verdadeiro protagonista. Considerando a época e o contexto dessa música, será que a palavra "Cadillac" se refere mesmo a um carro dessa marca, ou é apenas um termo genérico para um automóvel caro, vistoso e que dá status ao seu proprietário?

Qualquer que seja a resposta, a letra de "O Calhambeque" veio ao encontro de um certo não-conformismo que começava a se difundir, ainda que timidamente, entre os jovens brasileiros no início dos anos 1960. Sua mensagem pode ser resumida assim: para ser popular (principalmente junto ao chamado sexo oposto), não é preciso ser bonito como um Cadillac, nem rico o suficiente para ter um - basta ter a autenticidade e a simpatia de um calhambeque.   
Saí da oficina
Um pouquinho desolado
Confesso que estava
Até um pouco envergonhado
(...)
E logo uma garota
Fez sinal para eu parar
E no meu Calhambeque
Fez questão de passear
(...)
E muitos outros brotos
Que encontrei pelo caminho
Falavam: "Que estouro
Que beleza de carrinho"
E fui me acostumando
E do carango fui gostando
(...)
Mas o Cadillac
Finalmente ficou pronto
Lavado, consertado
Bem pintado, um encanto
Mas o meu coração
Na hora exata de trocar
Aha! Aha! Aha! Aha! Aha!
O Calhambeque, bi-bi
Meu coração ficou com
O Calhambeque
De lá para cá muita coisa mudou. E em 2003, Roberto Carlos gravaria uma nova música em homenagem ao... Cadillac. O calhambeque podia até ser uma paixão nos tempos da Jovem Guarda, mas o amor pelo Cadillac prevaleceu no final.

O CORCEL DE MARCOS VALLE (1969)


Na geléia geral do fim da década de 1960, Marcos Valle, autor de clássicos da bossa nova como "Samba de Verão" e "Eu Preciso Aprender a Ser Só", virou as costas ao gênero para aderir entusiasticamente ao pop. O disco Mustang Cor de Sangue, Corcel Cor de Mel foi o primeiro dessa nova fase.

Na letra da música-título, que mistura o Eros e o Tânatos com algumas pitadas de Herbert Marcuse, o então recém-lançado Corcel é alçado ao mesmo patamar de desejabilidade do Mustang, um dos automóveis mais cobiçados da época.
Tenho um novo ideal
Sexual
Abandono a mulher
Virgem no altar
Amo em ferro e sangue
Um Mustang
Cor de sangue..
(...)
A questão social
Industrial
Não permite que eu
Seja fiel
Na vitrine um Corcel
Cor de mel
Meu Corcel!
Segundo Marcos Valle, a letra é uma crítica à sociedade de consumo. Talvez seja - mas que a capa do disco tem uma tremenda cara de merchandising, isso tem.

Outra coisa que reforça essa impressão é um texto escrito por Washington Olivetto em homenagem a Mauro Salles, dono da agência que atendia a Ford naquela época. Nele, Olivetto enaltece Salles como "precursor do merchandising, que colocou o Marcos Valle para cantar o seu Mustang Cor de Sangue e o seu Corcel Cor de Mel naquele novo lançamento da Ford." Precisa dizer mais alguma coisa?

O CORCEL DE RAUL SEIXAS (1973)


Se a idéia é fazer crítica social, a letra de "Ouro de Tolo" é bem mais convincente que a de "Mustang Cor de Sangue". Nela, um Corcel 73 ajuda a compor um quadro de vazio existencial que só é agravado com o acúmulo de bens materiais e de outros símbolos do sucesso numa sociedade em que as pessoas são avaliadas (e se auto-avaliam) por esses critérios.
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...
(...)
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
(...)
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"

O FUSCÃO PRETO DE ATÍLIO VERSUTI E JECA MINEIRO (1978)


Carro chefe do estilo sertanejo-brega, a lacrimosa Fuscão Preto é um verdadeiro hino à dor de corno. O Fuscão, no caso, é uma representação figurativa do impiedoso ricardão que roubou a amada do narrador (ou "eu-lírico", como diriam os pedantes), ao qual agora só resta chorar suas mágoas de amor.
Me disseram que ela foi vista com outro
Num fuscão preto pela cidade a rodar
(...)
Fuscão preto, você é feito de aço
Fez o meu peito em pedaço
Também aprendeu a matar

Fuscão preto, com o seu ronco maldito
Meu castelo tão bonito
Você fez desmoronar...

A BRASÍLIA AMARELA DOS MAMONAS ASSASSINAS (1991)


Mais uma história de paixão não correspondida - só que desta vez em tom de deboche, a começar pelo título "Pelados em Santos". Nada é levado a sério: nem a Brasília amarela com rodas gaúchas, nem a mina pitchula que se recusa a entrar no carro, muito menos o narrador dessa ópera bufa da periferia, que lança mão de uma linguagem conscientemente brega para fazer uma hilariante crítica de costumes.
Mina, seus cabelo é da hora
Seu corpão violão
Meu docinho de coco
Tá me deixando louco

Minha Brasília amarela
Tá de portas abertas
Pra gente se amar
Pelados em Santos

Music, is very good
(Oxente ai, ai, ai!)
Mas comigo ela não quer se casar
(Oxente ai, ai, ai!)
Na Brasília amarela com roda gaúcha
Ela não quer entrar
(Oxente ai, ai, ai!)

O LAND ROVER DE TONINHO HORTA E FERNANDO BRANT


De todas as composições desta lista, essa é a minha preferida. Não conheço nenhuma outra em que letra e a música se conjuguem de modo tão harmônico para expressar a sensação de liberdade, amplidão de horizontes e às vezes até de magia que se tem ao fazer uma longa viagem de automóvel. 

Seu título, "Manoel, o Audaz", homenageia um Land Rover 1951 que pertenceu ao compositor mineiro Fernando Brant. A marca do carro não aparece na parte escrita da letra, mas sim no recitativo semi-improvisado que lhe serve de introdução..

Não chega a causar surpresa o uso da palavra jipe em referência a esse Land Rover, denotando o status da marca Jeep como sinônimo de categoria. E a palavra "amarelou" não quer dizer que o carro de Brant tenha se acovardado diante de algum obstáculo - trata-se apenas de uma referência à sua cor.
Se já nem sei
Meu nome
Se eu já não sei parar
Viajar é mais
Eu vejo mais
A rua, luz, estrada, pó
O jipe amarelou

Manoel, o audaz
Manoel, o audaz
Manoel, o audaz, vamos lá
Viajar

OS CHEVETTES DE LUCAS EBONE, WAGNER JOSÉ E ANA CAROLINA. E O DOS VIRGULÓIDES TAMBÉM.


Fiquei surpreso com a quantidade de músicas que falam em Chevette, mas não com o tom de esculhambação que permeia todas elas. O carro invariavelmente é um destroço ambulante cuja sina é testemunhar barracos, se envolver em acidentes, sofrer panes mecânicas e ser furtado - quando não apreendido pela polícia. Ou então, na melhor das hipóteses, funcionar como uma espécie de motel sobre rodas. Fazer o que? Não é por que sou um chevetteiro inveterado que vou submeter essas músicas a qualquer tipo de censura. Portanto, cumprindo minha obrigação jornalística, apresento a seguir um apanhado dos trechos mais representativos de cada uma delas.
Ei novinha, te dou um beijo sabor chiclete,
Se ficar arrepiada, te levo pro meu Chevette.
Se motel é o carro, hoje ele vai chacoalhar,
Balança o chevette, escuta o som, vamos zuar.

O Chevette tá balançando e o calor tá aumentando,
A novinha pede mais, e os vidros vão embaçando.
O chevette tá balançando e o calor tá aumentando,
A novinha pede mais, e a suspensão não tá aguentando

Botei o meu Chevette 77
na estrada sentido Minas
No Rádio os Stones, na camiseta John
E ao lado uma bela menina

Mas já bem pra lá da serra
surge um cheiro forte de gasolina
E o Chevette parando e eu me preocupando
Por aqui não tem oficina

Quem diria, meu Chevette me deixou na mão
Eu juro que da próxima vez
Eu faço a revisão

(...)
Se mandou
Bateu com meu Chevette
Pôs fogo na quitinete
Me traiu com mais de sete
Fez comigo um bafafá

(...)
Eu só tenho um velho
Chevete velho
Chevete velho
Mas com ele eu descolo mulher
E tudo tudo que eu quero
(...)
Mas descolei uma mina
Pra transar lá na represa
Mas sujou com a polícia
Naquele velho
Mãos pra cabeça
Documentos por favor
(...)
E eu falei lá pro doutor
O carro foi comprado
Com muito suor
Mas o bicho era cabrito
E a mina era menor
mas ninguem teve dó
E me mandou
Já pro xilindró
Bem, caro leitor, estamos chegando ao final do nosso passeio. Mas como seria injusto encerrá-lo sem falar nada sobre a música que o inspirou, aqui está ela:

O CAMARO AMARELO DE MUNHOZ E MARIANO


Quase cinquenta anos depois de "O Calhambeque", o Camaro da dupla Munhoz e Mariano assinala o retorno triunfal do carrão da moda como símbolo de status e poder, sem medo de ser feliz. O eterno triângulo homem-automóvel-mulher está presente, mas desta vez o automóvel assume poderes extraordinários. Transforma homens inexpressívos em casanovas irresistíveis, ajudando-os a conquistar as mesmas mulheres (ou a se vingarem delas, se assim o desejarem) que não ligavam a mínima para eles antes de sua entrada em cena. É um Bumblebee do amor, por assim dizer.
Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce
Agora eu fiquei dodododo doce, doce

Agora eu fiquei doce igual caramelo
To tirando onda de Camaro amarelo
Agora você diz: vem cá que eu te quero
Quando eu passo no Camaro amarelo

Quando eu passava por você
Na minha CG você nem me olhava
Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber
Mas nem me olhava

Aí veio a herança do meu véio
E resolveu os meus problemas, minha situação
E do dia pra noite fiquei rico
To na grife, to bonito, to andando igual patrão
(...)
Agora você quer, né?
E agora você vem, né?
Só que agora vou escolher,
Tá sobrando mulher
(...)
Munhoz e Mariano são expoentes do estilo conhecido como sertanejo universitário, mas não é preciso ser nenhum Ph.D para se dar conta do aparato de merchandising (ou, mais corretamente, product placement) que há por trás de "Camaro Amarelo". As imagens da abertura do clip oficial da música são imagens publicitárias, e numa recente edição do programa Autoesporte a dupla praticamente fez o papel de porta voz da fabricante. Eu poderia acreditar que tudo isso não passa de coincidência, mas já estou crescidinho demais para isso.

De qualquer forma, oito milhões e meio de views no YouTube não é para qualquer um. Nenhum anunciante e nenhuma agência de comunicação resistiria por muito tempo à tentação de assumir a paternidade desse feito. Mas fazê-lo agora seria dar um tiro no pé. Ainda é cedo - e, para usar um verso de Johnny Alf que se aplica perfeitamente a grande parte das ações de product placement, "se almejas algo escuso, é na moita que se faz. Portanto, o negócio é esperar até o festival publicitário de Cannes do ano que vem. Duvido que esse Camaro Amarelo não esteja lá, disputando prêmios com todo o estardalhaço a que tem direito.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Fiat Balilla, popular por decreto

Governos autoritários de perfil populista sempre reconheceram no automóvel um eficaz instrumento para conquistar e manter a adesão de seus governados. O exemplo mais notório é o da Alemanha na década de 1930, quando Adolf Hitler instituiu um programa destinado a motorizar a população de seu país. Desse programa nasceu o projeto KdF (iniciais de Kraft durch Freude, ou "a força que vem da alegria"), cujo resultado prático foi o Volkswagen Sedan - ou Fusca, como se tornaria mais conhecido entre nós.

Mas Hitler não foi o primeiro a fazer isso: seu aliado, Benito Mussolini, chegou na frente. Não que o italiano tivesse planejado algo nesse sentido, mas graças ao seu oportunismo político e a altas doses de interferência estatal estabeleceu as bases para que a Fiat lançasse seu primeiro automóvel acessível ao chamado grande público.

Isso aconteceu em 1932, há exatos 80 anos portanto. Os efeitos do crash da bolsa de 1929 ainda se faziam sentir na Itália e no resto da Europa, mas isso não impediu que o novo lançamento se transformasse em um grande sucesso. Os italianos faziam fila para comprá-lo, e muitos não hesitavam em se endividar para realizar o sonho de ter seu próprio automóvel.


Por trás do Fiat Balilla há uma história quase arquetípica sobre as relações entre um governo autoritário (ainda que contasse com o apoio da maioria da população) e um grupo industrial com uma acentuada vocação para o monopólio. O pano de fundo é a crise financeira que fez com que as vendas de automóveis despencassem na Itália e em todo o mundo, deixando muitos fabricantes - entre eles a Fiat - em situação complicada. Mas para a empresa de Turim, essa não era a única preocupação: com ou sem crise, sua rival americana Ford vinha mexendo os pauzinhos para se instalar no país, onde já montava veículos a partir de kits CKD na cidade de Trieste, que naquela época desfrutava do status de zona franca.


O presidente e principal acionista da Fiat, Giovanni Agnelli, não tinha muita simpatia pelo fascismo, até por acreditar que o poder de mobilização desse movimento e a truculência de seus métodos poderiam lhe trazer sérios dissabores na área trabalhista. Além disso, o discurso oficial do partido (e do governo italiano, por extensão) pintava os grandes industriais como maus cidadãos e inimigos da economia popular. Mas na hora do aperto, Agnelli optou pelo pragmatismo e foi pedir ajuda a Mussolini. Era exatamente o que o Duce queria: a oportunidade de trazer Agnelli para o seu lado sem fazer força.

Apesar de suas diferenças, Agnelli e Mussolini tinham algo em comum: a certeza de que era preciso fazer algo para cortar as asinhas da Ford. Dois decretos em rápida sucessão, o primeiro determinando um forte aumento nos impostos de importação de componentes, o segundo proibindo a venda de automóveis importados "por motivos de superior interesse nacional", se encarregaram de resolver a questão.

Em contrapartida, a Fiat se comprometia a lançar um novo modelo para ser comercializado a preços populares, algo que a empresa nunca havia feito antes. Um automóvel ao qual todos pudessem ter acesso, e não apenas o público elitizado ao qual os seus produtos eram dirigidos até então.

Do ponto de vista do governo, isso ajudaria a manter os níveis de ocupação na indústria e demonstraria que a economia ia bem, graças sobretudo à sagacidade de Mussolini como grande mentor dos destinos da nação. E tão importante quanto isso, o novo automóvel ajudaria a fortalecer a auto-estima dos italianos. Não só os que efetivamente o adquirissem, mas a população como um todo.

Oficialmente, como era de praxe na Fiat, o novo automóvel recebeu a designação numérica de 508. Mas desde o início, o apelido Balilla fora escolhido para fazer parte de sua identidade. Essa era mais uma contrapartida de Agnelli ao apoio recebido de Mussolini.

Mas por que Balilla? O nome se referia a um personagem a meio caminho entre a história e a lenda, um menino de identidade incerta que em 1746, na cidade de Gênova, arremessou uma pedra contra as tropas de ocupação austríacas, desencadeando a revolta popular que as faria bater em retirada.


Para a ideologia fascista, que exaltava valores como o nacionalismo e o destemor juvenil, a figura de Balilla parecia feita sob encomenda. Antes mesmo da chegada do novo Fiat, seu nome fora apropriado pelo regime para batizar uma organização paramilitar destinada à doutrinação do público infanto - juvenil. Portanto, um automóvel com esse nome teria a dupla virtude de remeter tanto ao herói mirim do imaginário político nacional quanto a uma iniciativa especialmente cara a Mussolini, com forte penetração nos lares de toda a Itália.


O lançamento do Fiat Balilla foi feito em grande estilo, a começar pela apresentação oficial ao Duce em Roma, nos jardins da residência oficial. Seguiram-se a apresentação ao público na ala dedicada aos automóveis da Feira de Milão, o giro promocional pelos quatro cantos do país, as imagens do carro junto às principais celebridades do momento. Tudo documentado em fotos e filmes para divulgação através da imprensa e dos cinemas, na época um importante canal de comunicação noticiosa e publicitária.



A Fiat também caprichou na propaganda propriamente dita. Uma das peças mais emblemáticas da campanha era o poster em que um garoto reproduzia o gesto de Balilla com o novo automóvel ao fundo.

 
Mas talvez a mais curiosa de todas fosse o filme que se pode ver abaixo, em que a Fiat posiciona o Balilla contra o ônibus, o bonde e até mesmo o hábito de andar a pé. Se algum arauto do politicamente correto assistir esse engraçadíssimo desenho animado nos dias de hoje, seria bem capaz de mover uma ação contra a Fiat, em caráter retroativo, por incentivar comportamentos social e ambientalmente reprováveis.



Mas e o automóvel Fiat Balilla, como é que fica nesse enredo à base de trocas de favores políticos, manipulação da opinião pública e oba-oba publicitário? A resposta é: muito bem, obrigado. Felizmente, a Fiat contava em seu corpo técnico com engenheiros de grande competência, que projetaram um automóvel robusto, confiável e de fácil condução. Uma espécie de Ford Modelo A à italiana, mais convencional em sua concepção do que os seus contemporâneos franceses, e menos rústico e temperamental que os ingleses na mesma faixa de preço.

O carro chegou ao mercado custando pouco mais que dez mil liras, praticamente a metade do preço do Fiat mais barato até então. Ainda estava longe das cinco mil liras preconizadas por Mussolini, mas milagre não se faz por decreto.  

Graças a essa conjunção de fatores, o Balilla estabeleceu a fama da Fiat como fabricante de carros pequenos de boa relação custo-benefício. Foi o pioneiro de uma longa e bem sucedida linhagem de modelos que perdurou até o final dos anos 1960, quando o último Millecento deixou a linha de montagem. E apesar de ter nascido para ser apenas um honesto carro de passeio, serviu de base para inúmeras versões esportivas. Talvez o maior tributo a esse automóvel seja o fato de que hoje o nome Balilla é associado prioritariamente a ele, e não aos outros Balillas que seu fabricante pretendia homenagear.