
A dois dias do segundo turno da eleição presidencial francesa, todas as pesquisas confirmam o favoritismo do candidato da oposição, o socialista François Hollande. Mas como eleição é sempre uma caixinha de surpresas, um fato novo na reta final pode mudar tudo. Ainda mais na França de hoje, onde a crise inflama as tensões e os golpes baixos fazem parte do jogo político.
Ao contrário de muitos analistas que dão a vitória de Hollande como favas contadas, prefiro não arriscar um prognóstico para não passar vexame no
day after da eleição. A prudência recomenda que se formule dois cenários alternativos, um considerando a vitória do desafiante e o outro, a reeleição de Nicolas Sarkozy. Pois é exatamente esse o exercício que pretendo desenvolver aqui, claro que sem extrapolar a área de competência deste blog. A intenção é apenas a de contribuir para que os dois candidatos possam escolher o automóvel mais adequado ao perfil de cada um. Se gostarem do resultado, aceito propostas para prestar consultoria ao Palácio do Eliseu como "personal car" do candidato vitorioso.
Cenário 1: vitória de Hollande
François Hollande é o desafiante, o candidato da ruptura, o homem que veio para mudar tudo o que aí está. Já declarou que não gosta dos ricos, e já identificou no mercado financeiro o seu inimigo número um. Promete governar o país dentro dos mesmos preceitos de integridade e honradez que lhe foram inculcados desde a infância em sua Corrèze natal.
Com um discurso como esse, é fundamental que Hollande passe imediatamente das palavras à ação caso venha a se eleger. Isso quer dizer que não poderá em hipótese alguma manter o Citroën C6 que tem servido até agora ao seu oponente Sarkozy, um típico carro de plutocrata. Nem deve pensar em substituí-lo por um C5 como o que tem usado em sua própria campanha, pois muita gente dificilmente reconheceria a diferença. Aliás, chega de Citroën - se a mudança for pra valer, então a marca do automóvel presidencial também tem que mudar.
Um Renault seria a escolha lógica, já que essa é a marca mais identificada com a base de sustentação política do candidato. O problema é que Hollande vive às turras com a empresa, a quem acusa de prejudicar os trabalhadores franceses por exportar empregos para outros países. Mas existe um meio de superar esse impasse: em vez de um Renault zero km fabricado sob a gestão atual da empresa, Hollande poderia optar por um legítimo modelo
vintage. Ou mais especificamente um Renault Frégate, cem por cento francês até o último parafuso de seu carburador Solex.
A escolha desse modelo traria importantes ganhos de imagem para Hollande. Um deles vem da contraposição ao estilo
high profile de Sarkozy. Outro é a simpatia dos ambientalistas, já que a presença de um Frégate nos mais altos escalões do governo sinalizaria o seu compromisso com o lema "reduzir, reutilizar, reciclar." E o melhor de tudo é que o carro já está disponível. Foi produzido em 1959 para o então presidente Charles De Gaulle, mas como este não abria mão de seu amado Citroën DS19, o Frégate praticamente não saiu da garagem. Se Hollande simpatizar com ele, basta passar um espanador, calibrar os pneus e encher o tanque. E depois, seguir direto para o desfile da posse e a consagração popular. Ninguém irá duvidar que a mudança já começou.
Cenário 2: vitória de Sarkozy
Se Nicolas Sarkozy conseguir se eleger para um segundo mandato, terá que suavizar o estilo rolo compressor que tem caracterizado sua atuação até aqui. Também terá que calçar as sandálias da humildade, já que muitos o criticam pelo que consideram um ego excessivamente inflado. Talvez o invejem por ter se casado com uma mulher rica, bonita e elegante, além de muito mais jovem do que ele. Qualquer que seja o motivo, o fato é que Sarkozy tem um sério problema de imagem. Por isso mesmo, terá que fazer algumas mudanças se quiser governar efetivamente em um eventual segundo mandato.

Mas como há males que vem para bem, a necessidade de mudar pode ser a oportunidade que Sarkozy esperava para se livrar do Citroën C6, um carro que herdou muito a contragosto de seu antecessor Jacques Chirac. Ainda no início de seu mandato, tentou trocá-lo por um Renault Vel Satis produzido especialmente para ele, mas a opinião pública reagiu mal e a idéia acabou sendo arquivada. Sarkozy ficou sem o seu Vel Satis, mas isso não significa que tenha desistido de ter um Renault presidencial para chamar de seu.
Em política, às vezes acontece de os opostos se encontrarem. É o que vemos neste caso, já que o Renault Frégate é o automóvel mais indicado também para Sarkozy. É claro que não estamos falando de dois Frégates idênticos, mas sim de versões diferentes do mesmo carro, cada uma levando em conta as necessidades específicas do usuário a que se destina. O Frégate de Sarkozy ainda precisa passar por uma reforma geral, como se vê na foto abaixo, mas basta uma olhada rápida para constatar o seu potencial como símbolo de uma nova postura, mais sensível aos anseios da maioria e menos obcecada com os sinais exteriores do poder.
O fato do Frégate de Sarkozy ainda não estar pronto pode parecer uma desvantagem à primeira vista, mas a verdade é exatamente o contrário. Com o vasto espaço disponível no interior dessa limousine, o atual presidente finalmente poderá ter o gabinete presidencial sobre rodas que sempre desejou. Cabe um aparelho de telex, um computador
mainframe, um centro de controle de lançamento de foguetes, e ainda sobra espaço para espichar as pernas entre um compromisso e outro.
E se algum dia Sarkozy decidir que o ambiente interno do Frégate é espartano demais para o seu gosto, é só requisitar os serviços do estilista Jean Charles de Castelbajac, que possui experiência em automóveis presidenciais e poderá resolver a questão em um piscar de olhos. Para quem j
á dotou um humilde Twingo de um interior que mais parece o boudoir de Maria Antonieta, não será problema algum instalar dentro desse Frégate uma réplica em tamanho natural do salão de baile do Palácio de Versalhes. Se Sua Majestade (ou melhor, Sua Excelência) assim o desejar, é claro.