quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O barquinho vai (Parte 4 - Final)

A Canção dos Barqueiros do Volga, com sua cadência lenta e obstinada, daria uma boa trilha sonora para este post, o último da série sobre automóveis com nomes náuticos. Se bem que, neste caso, talvez fosse mais apropriado se falar em nomes fluviais.

"Volga, Volga..."
O Volga é o mais extenso rio da Rússia e também da Europa. Mas para o russo médio, ele representa muito mais do que isso: ele é a "Mãe Volga", o rio da identidade nacional, tão carregado de lendas e simbolismo quanto o São Francisco no Brasil ou o Mississippi nos Estados Unidos. Na década de 1950, seu nome foi usado para batizar um dos principais modelos de automóveis produzidos na antiga União Soviética. Não é ele o tema deste post, mas sim outro carro russo de uma geração um pouco mais recente: o Lada, velho conhecido dos brasileiros e um dos primeiros importados da era Collor.


Lada {ou Lad'ya, na pronúncia russa) é o nome do barco a vela estilizado que se vê no logotipo ao lado. Sua semelhança com os navios Viking não é mera coincidência, já que foi neles que os russos se inspiraram para criar uma embarcação de menor porte, destinada principalmente ao transporte fluvial.

Mas o Lada sobre rodas não nasceu com esse nome. No começo, chamava-se VAZ 2101, denominação de escasso apelo comercial para um automóvel que o governo soviético pretendia exportar em grande volume para todos os países do antigo bloco socialista, bem como para vários mercados do ocidente. A ambição era proporcional ao gigantismo da fábrica construída em associação com a Fiat na localidade de Stavropol, às margens do Volga, na época a maior unidade produtora de automóveis do mundo.

Nota no L'Unità, jornal do PCI: comunista sim, mas com o orgulho de ser italiano

Concluído em 1970, o empreendimento teve a participação direta do governo italiano, tendo o aval político do veterano líder comunista Palmiro Togliatti. Em homenagem ao velho aliado, fundador do Partido Comunista Italiano, Stavropol teve o seu nome mudado para Tolyatti. E numa contrapartida mais concreta aos novos parceiros comerciais, a União Soviética comprometeu-se a lhes fornecer chapas de aço produzidas em suas siderúrgicas. Essas chapas de aço, que foram utilizadas não só pela Fiat como por outras empresas italianas do setor nas décadas de 1970 e 1980, acabaram afetando negativamente a imagem dessas empresas por sua baixa resistência à corrosão, motivo de constantes preocupações para a maioria dos proprietários de carros italianos produzidos no período.

Mas de volta ao tema deste post, a escolha de um nome mais atraente em substituição ao VAZ 2101 foi feita por um meio surpreendentemente democrático para um país onde quase todas as decisões eram tomadas pelo governo: uma concurso via correio, organizado em conjunto com uma das poucas revistas automotivas russas, em que qualquer cidadão poderia indicar o nome de sua preferência.

Choveram cartinhas com nomes de toda espécie, desde os delicadamente poéticos como "alvorada" e "primavera" até outros de viés mais ideológico, como "longa vida aos ideais do marxismo-leninismo" (em forma de acrônimo, é claro). Entre os milhares de nomes sugeridos havia até Madonna, presumivelmente uma homenagem à religião predominante no país de origem do novo modelo. 

Depois de muita deliberação, foi proclamado um vencedor: Zhiguli, nome de uma cadeia montanhosa próxima a Tolyatti, e por extensão ao Volga. Foi com essa denominação que o VAZ 2101 começou a ser exportado. Mas logo começaram a chegar mensagens um tanto constrangidas dos distribuidores na Bélgica, primeiro país do ocidente a importar o sedã russo, dando conta de que já começavam a circular piadas maldosas motivadas pela proximidade fonética entre Zhiguli (pronuncia-se "jiguli") e gigolô.

O jeito foi vasculhar as sugestões recebidas em busca de outro nome. E uma vez mais, a solução veio do Volga com o nome do barquinho Lada, tão associado a esse rio quanto Zhiguli, mas sem conotações indesejáveis no ocidente.


O Lada pode ter sido um automóvel polêmico ao longo de sua história, com detratores e defensores em igual proporção. Mas o fato é que vendeu quase 17 milhões de unidades, quatro vezes mais que o Fiat 124 que lhe serviu de modelo, sendo portanto um dos automóveis mais vendidos de todos os tempos. Gerou dois filhotes, a perua Laika e o fora-de-estrada Niva, e só saiu de cena no início deste ano depois de mais de quatro décadas em produção. Deixou como legado o seu nome, que hoje identifica não só um modelo de automóvel mas a própria empresa fabricante, atualmente associada à Renault.

Nada mal para um barquinho que foi resgatado das águas do Volga quase que por acaso...


9 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

No governo DELLE que aportaram por aqui, os barcos Lada até espantavam o consumidor pois eram confortáveis e já tinham espelho retrovisor no lado direito e cintos retráteis no banco traseiro, coisa que a DITADURA DAS MULTINACIONAIS AUTOMOBILÍSTICAS NO BRASIL..demoraram um certo tempo para colocar nos seus carros...é mais um carro que "FOI-CE" ....

Belair disse...

Legal a historinha PL.Não imaginava que esse nome tão simples tivesse sido adotado de forma tão tortuosa.
Eu mesmo tive muitas "aventuras" num primo do Ladinha,o 125P,de Polski,fabricado na Polonia.Carrinho muito valente.

Charles disse...

Note-se que hoje podem ser comprados por nada ou perto disso os exemplares remanescentes.
Carro simpático, gosto bastante, aliás, qualquer carro com tração traseira por essas terras é algo interessante por si só.

Luís Augusto disse...

Também gosto dos Ladas, embora o calorão do habitáculo, preparado para os invernos de Moscou e Leningrado, praticamente inviabilize o seu uso no dia a dia.
Essa história da má qualidade do aço soviético acabou com a imagem dos carros italianos que, fato raro na história, levaram um "chapéu" no mundo dos negócios, justamente dos ingênuos comunistas soviéticos.

Rui Amaral Jr disse...

Muito bom Paulo!
O FIAT 124 era um bom carro, no Lada nunca andei.


Abraços

Paulo Levi disse...

Chico, "Foi-ce" é ótimo, rsrsrs!

Paulo Levi disse...

Belair e Rui,

Andei num 124 em 1966, pouco depois de seu lançamento. Era um carro muito atualizado para a época, com um estilo anos-luz à frente do modelo que nasceu para substituir, o Fiat 1100. Além disso, inaugurou a nova nomenclatura da Fiat com números de três digitos (os quais não se referiam à cilindrada), que chegaria até nós com o 147.

Quanto ao 125, que foi fabricado na Polônia e tambémi na Argentina. Imagino que os russos sentissem uma ponta de inveja dos poloneses por se tratar de um carro de categoria superior ao 124/Zhiguli/Lada.

Paulo Levi disse...

Charles, seu comentário me fez pensar no Lada do Flávio Gomes. É um automóvel que pode ser uma boa base para um projeto especial como o dele, desde que se esteja disposto a investir pesado e a encará-lo como "carro para toda a vida" (se a ferrugem permitir, rsrs.)

Paulo Levi disse...

Luís, o aço soviético acabou sendo uma espécie de agente sabotador infiltrado na indústria automobilística italiana, veja só que ingratidão... E quanto a adequação do Lada ao clima tropical, lembro de uma história que ouvi de um taxista chileno segundo o qual o motor desse carro fervia a três por dois nas ladeiras de Valparaiso. Se isso é lenda ou é fato, eu não saberia dizer.