sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O barquinho vai (Parte 3)

A América Latina também já teve, e continua tendo, os seus automóveis com nomes náuticos. E até mesmo nisso, a velha rivalidade entre argentinos e brasileiros se manifesta.

Nossos vizinhos sairam na frente, lançando dois carros com esse tipo de nome em rápida sucessão. Mas aí o Brasil empatou o jogo, e o placar continua empatado até hoje.

Quem abriu o marcador foi o IKA Carabela, versão argentina do luxuoso Kaiser Manhattan. Lançado pela então recém-fundada Industrias Kaiser Argentina em 1958, cinco anos após o fim da produção desse modelo nos EUA, foi o primeiro automóvel fabricado em série no país vizinho. Seu porte fazia dele uma verdadeira caravela sobre rodas, evidenciando a adequação entre nome e modelo.

        http://bestcars.uol.br

O Carabela não só era um carro grande como também caro demais para a média dos consumidores argentinos, o que limitava o seu público a altos funcionários do governo, proprietários rurais e outros integrantes da elite do país.

Claramente, para poder crescer a IKA teria que acrescentar à sua gama de produtos um modelo menor e mais barato. Como a Kaiser Jeep já deixara de produzir automóveis de passeio nos EUA, tendo inclusive despachado a linha de montagem do Aero Willys para o Brasil, o jeito foi buscar um acordo com outra empresa do setor.

Por coincidência, a Alfa Romeo acabava de aposentar o 1900 Berlina, então com quase dez anos de mercado, e poderia ceder o seu maquinário à IKA a preço de liquidação. Fechado o negócio, o veterano modelo passou a ser montado na Argentina, mas sem o sofisticado motor de duplo comando de válvulas que era o ponto alto do original italiano. Em seu lugar entrou o rústico motor vareteiro que equipava a Estanciera, versão argentina da nossa Rural Willys. Algumas mudanças cosméticas, quase todas para pior, completaram a adaptação, e o carro foi para as concessionárias com o nome de Bergantín.
         www.testdelayer.com.ar
E por que Bergantín? Porque esse é o nome de outra embarcação do tempo das caravelas, porém bem menor. A palavra é uma corruptela do italiano brigantino, por sua vez derivado de brigante, termo relacionado ao nosso verbo brigar.

Os bergantins eram navios de dois mastros, ágeis e bons de briga, especialmente apreciados por piratas, aventureiros e brigantes de toda espécie. Como o Alfa 1900 argentinizado deveria ficar um degrau abaixo do Carabela, e como possuia um temperamento mais esportivo apesar do motor sem brilho, a escolha desse nome até que fazia sentido.

Lançado em 1960, o IKA Bergantín durou apenas dois anos, metade do ciclo de produção do Carabela. No final de 1962, tanto um quanto o outro já pertenciam ao passado.

Foi por volta dessa época que surgiu o primeiro automóvel brasileiro com um nome de inspiração náutica, o Jangada. Na França, o modelo era conhecido como Marly, em referência à localidade do mesmo nome. Mas por aqui a Simca do Brasil, que já havia rebatizado o Vedette como Chambord para evitar associações com as vedetes do teatro rebolado, decidiu mudar também esse nome, já que por uma curiosa coincidência uma das principais expoentes do gênero era a escultural Marly Marley, ainda hoje na ativa como jurada de programas de auditório.
                 
http://vejasp.com.br
Não que Jangada fosse o nome ideal para designar a versão perua de um automóvel que carregava a pecha de ser pouco confiável. À parte o lirismo das canções praieiras de Dorival Caymmi, poucas embarcações são tão frágeis quanto uma jangada. Mas o sentimento nativista estava em alta no Brasil daqueles tempos, conforme se podia constatar em automóveis com nomes como Candango, Caiçara e Saci, para não falar em Uirapuru e Capeta - e Jangada fazia parte desse contexto. Ou não: numa interpretação mais conspiratória, esse nome também poderia ser uma homenagem não tão velada ao então presidente da república, Jango Goulart. Se a Fábrica Nacional de Motores já havia batizado um automóvel com o nome de JK em homenagem a Juscelino Kubitschek, por que não?
       Acervo digital revista Quatro Rodas
Como no caso dos hermanos Carabela e Bergantín, a Jangada também teve vida curta, não chegando a emplacar cinco anos de fabricação. Muito tempo ainda haveria de passar antes que aparecesse outro automóvel brasileiro com nome náutico: o VW Saveiro, lançado no final de 1982. 

Os saveiros são embarcações inteiramente construídas em madeira, originárias das regiões norte e nordeste do Brasil, onde eram (e ainda são) utilizadas na pesca artesanal e no transporte de cabotagem. Apesar de sua construção não exigir grandes conhecimentos teóricos, apresentam boas características de navegabilidade, versatilidade e robustez. Tudo a ver, portanto, com a proposta de uma picape como que a Volkswagen acabava de lançar.
            Divulgação

O VW Saveiro foi o quarto representante da chamada família BX depois do Gol, do Voyage e da perua Parati. Originalmente o Gol deveria ter se chamado Angra, mas a construção da usina nuclear de Angra dos Reis fez que a Volkswagen mudasse de idéia.

De qualquer forma, há uma evidente afinidade entre os nomes Angra, Parati e Saveiro. Os dois primeiros são de localidades quase vizinhas, cuja história está intrinsecamente ligada à navegação marítima. Já o último, mesmo não sendo nativo da região, designa um tipo de embarcação que também pode ser vista singrando suas águas. Seria apenas uma coincidência, ou o pessoal da Volkswagen e de sua agência de propaganda costumava frequentar esse pedaço privilegiado da costa brasileira?

Aos trinta anos completados em 2012, o VW Saveiro é hoje um dos modelos presentes há mais tempo em nosso mercado, além de ser um dos campeões mundiais de longevidade em matéria de nomes náuticos. Só não é o recordista absoluto porque o título pertence a um automóvel de outra nacionalidade, que inclusive já teve vendas bastante expressivas aqui no Brasil. Mas essa é uma outra história, que fica para a quarta (e última) parte desta série.
  

10 comentários:

Ron Groo disse...

Eu sempre achei Saveiro um nome horrível, e depois quando Gilberto Gil gravou Parabolicamará a sensação piorou.
Na letra ele diz: "De Saveiro leva uma eternidade...".
Ai comecei a achar que além de feio, era lento também.

Francisco J.Pellegrino disse...

PL, ótima a lembrança dos hermanos arrentinos...e a Marly ainda continua um dos meus xodós....

Luís Augusto disse...

Sobre o Jangada, uma curiosidade: o logotipo lateral, que realmente lembra a frágil embarcação, foi usado nas Marly francesas. Eram alusões aos veleiros da Cote d'Azur. Os brasileiros aproveitaram o mesmo logotipo.

Irapuã disse...

Gosto bastante dos Simca brasileiros. As jangadas eram raras mesmo em seu tempo. Já Saveiro não é um nome ruim, mas não me diz muita coisa.
Carabela soa interessante pelo porte do Ika/Kaiser. O Bergantin portenho não conheci ao vivo. Preciso pesquisar, nunca vi um e não parecem ser muito comuns mesmo em seu país.

Interessante post.

Felipe Mortara disse...

Paulão, adorei o psot e o fato de o GOl quase ter se chamado Angra. Aliás, Angra e Paraty são ambas no Estado do Rio.

Um abraço,
Felipe

Paulo Levi disse...

Groo,
Entendo como a música do Gilberto Gil teria te deixado com essa percepção sobre os saveiros. Pessoalmente, prefiro uma canção do Edu Lobo em que esses barcos também são mencionados. O nome dela é "Aleluia", e a passagem em questão é assim:

"Toma a decisão, aleluia
Lança o teu saveiro no mar
Quem não tem mais nada a perder
Só vai poder ganhar."

Paulo Levi disse...

Francisco,
Os hermanos. sempre um passo à frente... até lembrei da propaganda do "Eu sou você amanhã".

E Marly é um nome lá da minha adolescência. Pesquisando para escrever esse post, encontrei outras figuras da mesma época, como a Eloína e a Gina Le Feu. A Luz del Fuego não, que eu ainda não era nascido... rsrs.

Paulo Levi disse...

Luís, interessante esse fato sobre o reaproveitamento do logotipo da Marly na Jangada. Pelo menos deu pra Simca economizar alguns cobres, rs!

Paulo Levi disse...

Irapuã, o Simca Jangada eram de fato muito raras. Lembro de um carro desses que pertenceu a uma tia minha, antiga apreciadora de produtos Vemag. Acho que ela até que gostava do carro, mas também teve muita dor de cabeça com ele.

Sobre o Bergantín, escrevi alguma coisa sobre ele num post anterior. Se quiser dar uma olhada, o link é Alfas, pero no mucho

Paulo Levi disse...

Felipe, obrigado por chamar a minha atenção para o trecho em que eu erroneamente me refiro a Angra dos Reia e Parati como pertencentes a estados diferentes, sendo que na verdade as duas ficam no Estado do Rio de Janeiro. Já fiz a devida correção no texto.

Agora, das duas uma: ou passo a visitar a região com mais assiduidade para entender melhor a sua geografia, ou volto para os bancos de escola...rs.