sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O barquinho vai (Parte 2)

Na década de 1930, a Renault era a mais conservadora das grandes fabricantes francesas. Novas tecnologias, como a tração dianteira, os freios de acionamento hidráulico e a aerodinâmica veicular, pareciam não exercer nenhum atrativo especial sobre ela. Seu foco era estritamente comercial, e para atingir os seus objetivos não hesitava em copiar as idéias de outras fabricantes se preciso fosse. O Renault Juvaquatre, por exemplo, era virtualmente um clone do Opel Olympia alemão.

Opel Olympia e Renault Juvaquatre, separados no nascimento
Em contrapartida, a Renault abusava da criatividade na hora de batizar seus modelos, usando nomes fantasia numa época em que nenhuma outra fabricante fazia isso. Na maioria dos casos, esses nomes eram formados pela justaposição de prefixos e sufixos derivados do francês e do latim. Por exemplo: Celtaquatre, Monaquatre e Vivaquatre, além do já citado Juvaquatre. Ou então Nervastella, Nervahuit e Nervasport, apenas para acrescentar alguns.

Mas tudo isso foi antes da Segunda Guerra Mundial. Findo o conflito, a realidade da empresa era outra - a começar pelo fato de que seu controle acionário agora pertencia ao governo francês. Dos antigos nomes fantasia, só restava o Juvaquatre. O pequeno 4CV, primeiro Renault lançado no pós-guerra, trazia uma sucinta denominação alfanumérica em sintonia com a austeridade do momento.


Alguns anos depois, as condições do mercado já haviam melhorado o suficiente para que a Renault pensasse em lançar um sedã de porte médio/grande. Seu nome não seria nem uma sigla alfanumérica, como no caso do 4CV, nem uma reprise dos nomes fantasia usados pela empresa antes da guerra. Desta vez, a inspiração viria do mar. E assim nasceu o Renault Frégate.


As primeiras fragatas, surgidas no século 17, eram embarcações militares ágeis, velozes e fortemente armadas. O nome e o conceito acompanharam a evolução da tecnologia naval, e seguem vigentes até os dias de hoje.

Há uma certa ironia no fato de que, a menos de cinco anos do término do maior confilito armado na história, a Renault tenha decidido dar o nome de uma espécie de canhoneira ao seu novo automóvel. Mas foi o que fez - e como o políticamente correto ainda não existia, ninguém achou ruim.


Àquela altura - início dos anos 50 - a empresa já começava a trabalhar no desenvolvimento de um sucessor para o 4CV. E como esse novo lançamento ficaria um degrau abaixo do Frégate, nada mais lógico do que batizá-lo com um nome náutico também. De preferência, com o nome de alguma outra embarcação pertencente à família das fragatas, porém de menor porte. Uma corveta, por exemplo.

O nome do novo modelo já estava praticamente definido quando a Renault foi pega de surpresa por uma notícia vinda do outro lado do Atlântico: a General Motors acabava de usar justamente esse nome para batizar um novo carro esporte de sua fabricação. Não fosse isso e o Projeto 109, que acabou indo para as ruas com o nome de Dauphine, provavelmente entraria para a história como o Renault Corvette.

Chevrolet Corvette: chovendo no piquenique da Renault
Esse acidente de percurso não impediu que o Dauphine se tornasse um sucesso, pelo menos na Europa. Mas a frustração da Renault pela perda do nome Corvette deve ter sido grande, pois a empresa não desistiu da idéia de ter mais um modelo com nome náutico.

A oportunidade veio em 1958 com o lançamento do Caravelle, uma evolução do semi-esportivo Renault Floride - carros que estão para o Dauphine assim como o Karmann-Ghia está para o Fusca.


Como no caso do Packard Clipper, o nome Caravelle também possuia conotações aeronáuticas bastante desejáveis, pois já vinha sendo usado para designar um dos aviões comerciais de maior sucesso no mundo, verdadeiro brasão tecnológico de uma França que reencontrava a sua autoestima.


O Renault Caravelle foi produzido até 1968, quando saiu de linha sem deixar sucessores. Depois disso, seu fabricante parece ter-se dado por satisfeito e nunca mais lançou outro automóvel com um nome de inspiração náutica.

Curiosamente, há uma "conexão Volkswagen" também nessa história: depois de reaproveitar o nome Clipper para uma versão da Kombi no final dos anos sessenta, a empresa de Wolfsburg fez o mesmo com o nome Caravelle, que hoje designa uma van de sua fabricação. Seria uma vendetta alemã, ainda que um pouco tardia, pelas idéias que a Renault roubou da Opel?


7 comentários:

Belair disse...

Numa viagem com a molecada,tinhamos tantas malas que fui obrigado a alugar um VW Caravelle.Onde? Adivinhou: France...
A locadora nao tinha um Renault...Espace.
E' mole?

Rui Amaral Jr disse...

Muito bom!!!

Francisco J.Pellegrino disse...

Ótimas lembranças, o nome Corvette não ficaria bem no Dauphine....

Luís Augusto disse...

Concordo com o Chicão, ainda bem que a GM chegou primeiro e ficou com o nome Corvette. No mais, belo texto, como sempre!

Leroi disse...

Ia ser estranho um Dauphine chamando Corvette.

Paulo Levi disse...

Belair, tem muito VW Caravelle fazendo serviço de taxi na Alemanha. É perfeito pra isso, principalmente em aeroportos e estações de trem. Mas para um usuário comum, que às vezes precisa de uma vaguinha pra estacionar na área central das cidades, é um trambolho e tanto. Imagino que isso tenha sido um problema relativamente frequente nessa sua viagem.

Paulo Levi disse...

Chico, Luís e Leroi, concordo com vocês - Renault Corvette seria tão bizarro quanto Chevrolet Dauphine.

Detalhe curioso: Corvette é um dos raros casos de nome de automóvel em que não há dúvida quanto à identidade do criador. Trata-se de Myron "Scottie" Scott, que na época trabalhava na área de relações públicas da divisão Chevrolet.

A vocês, e também ao Rui e ao Belair, obrigado pelos comentários!