sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Pedalando em grande estilo

Se ainda faltava alguma coisa para fazer do Goodwood Revival Meeting o mais completo evento de automobilismo histórico do mundo, agora não falta nada.

  (Imagem atualizada em 15/09/2012)

Entre as atrações programadas para o próximo fim de semana no tradicional circuito britânico, a novidade fica por conta da primeira edição do Settrington Cup, uma corrida monomarcas para carros de pedal Austin J40. Cerca de trinta desses carros participarão das duas baterias da prova, pilotados por crianças de cinco a oito anos de idade. A bandeirada final, que será dada por Sir Stirling Moss, promete emocionar os fãs do grande piloto inglês, que por muito pouco não perdeu a vida num acidente ocorrido nesse mesmo circuito 50 anos atrás.

Comparar um Austin J40 (o "J" vem de junior) com um carrinho de pedal comum seria o mesmo que comparar champagne com tubaína. Para começar, o J40 não era fabricado por uma indústria de brinquedos, mas sim pela própria Austin Motor Company. Era vendido nas concessionárias da marca e tinha detalhes construtivos altamente sofisticados, como os pedais ajustáveis para acomodar crianças de diferentes estaturas, as pontas de eixo com rolamentos de esferas, e as rodas removíveis com pneus Dunlop. Trazia ainda revestimento interno em couro sintético, grade e para-choques cromados, e duas baterias de 4,5 volts cada para fazer funcionar os faróis e a buzina (além das luzes de advertência no painel). Com tudo isso, não era exatamente um peso-pluma - na balança, passava dos 40 quilos - mas mesmo assim era razoavelmente fácil de pedalar.


Mais de 32 mil unidades do J40 foram produzidas entre 1949 e 1971, uma sobrevida de 29 anos em relação ao automóvel que o inspirou. Tão extraordinários quanto a sua longevidade e a sua qualidade de construção são a história de seu projeto e o impacto que teve na cultura popular britânica, especialmente na década de 1950. E como se não bastasse, o Austin J40 é um dos primeiros casos conhecidos de responsabilidade social corporativa, numa época em que essa expressão ainda não existia.

Ao que parece, a idéia de lançar o J40 partiu do próprio chairman da Austin, Sir Leonard Lord. O ambicioso Lord tinha grandes planos para o então recém-lançado Austin A40 na América do Norte, e como recurso promocional pensou em comercializar uma versão em escala desse modelo para o deleite dos filhos dos abastados consumidores americanos e canadenses.


O Austin A40 não chegou a obter o sucesso que Lord imaginava na América do Norte, mas sua versão a pedal virou objeto de desejo da meninada nos quatro cantos do planeta. E em nenhum lugar mais do que na própria Grã-Bretanha, onde apesar do preço alto (cerca de 30 libras esterlinas, o equivalente à metade da renda mensal média de um trabalhador assalariado) registrou vendas muito acima do esperado.


Isso, e mais algumas aparições do carrinho em filmes de grande popularidade, fez com que ele se tornasse um ícone para os súditos britânicos daquela geração. Um dos felizes proprietários do modelo era o pequeno Charles, filho da Rainha Elizabeth e do Duque de Edimburgo, cujo J40 apresentava alguns detalhes de acabamento exclusivos como se vê nas fotos abaixo.




Apesar de ser um Austin de pleno direito, o J40 não era produzido na fábrica da empresa em Longbridge, mas sim numa unidade especialmente construida em Bargoed, no País de Gales. E é aí que entra o tema da responsabilidade social nessa história. A nova fábrica ficava numa região onde a principal atividade econômica era a mineração de carvão, um trabalho insalubre que frequentemente causava doenças respiratórias e levava à aposentadoria compulsória por motivo de invalidez. A montagem do carrinho da Austin daria aos trabalhadores nessas condições a oportunidade de exercer uma atividade remunerada ao abrigo desses riscos.

Surpreendentemente para um carrinho de pedal, a carroceria do J40 era confeccionada com a mesma chapa de aço utilizada nos demais modelos da Austin. Mais surpreendentes ainda são os aspectos de responsabilidade social (ou, para ser mais exato, socioambiental) que estão por trás desse fato: na produção do J40, reutilizavam-se os retalhos do aço proveniente da estamparia da empresa em Longbridge. A motivação de Leonard Lord pode ter sido puramente econômica, mas não há como negar os méritos sociais e ambientais do projeto.

Tendo por trás de si uma história tão arraigada na psique britânica do período do pós-guerra, os Austins J40 que estarão em Goodwood nem precisariam ir para a pista para mexer com as emoções do público. E mesmo que fiquem um tanto longe dos Jaguars, Cobras e McLarens em termos de velocidade final, isso é o de menos: seus pilotos têm muito chão pela frente, e o que realmente importa é começar com o pé direito. Ou com os dois pés, neste caso.

Como é mesmo que se diz "pedala, garoto!" em inglês?

12 comentários:

Anônimo disse...

Em Porto Alegre havia um carrossel com esses carrinhos.

Anônimo disse...

Moleque Chatto

Av. Atrântica, 666, 13ªandar

Copabacana



Ex.mo Senhor Paulo Levi,


... bom dia. Venho solicitar a atenção do ex.mo senhor para o fato de ter deixado este seu amigo, inoportuno das horas vagas, extremamente emocionado já que fez lembrar-lhe do Jeep Militar de pedal de ferro da minha infância. Bandeirantes ! Um grande companheiro de brincadeiras ! Era de um primo mais velho... Faróis de 6 volts ! Não era uma Brastemp, quer dizer, um Austin J40 mas as moças da época queriam dar uma voltinha. Ficava muito cansado. Tinha, também, o Jeep Bandeirantes bombeiro ! Um garoto, todo pimpão, chegou com este no parquinho. Farol e giroscópio 6 volts ! Giroscópio ! Uma modernidade naqueles anos. Mas tinha também o Genovese. Para os mais remediados... o que hoje chamamos novas classe média. Graças ao bom Deus, ninguém chegou com o Austin J40 ! Pior seria, imaginem caro senhor Paulo Levi, chegar algum menino com um Rolls-Royce pedal car ! Um Mercedes pedal car ! Um packard pedal car ! Uma Ferrari F2 1952-1957 pedal car mas só teria lugar para o menino. Uma Ferrari Califórnia pedal car.... Mas essa não era do meu tempo. Graças ao bom Deus. Hoje, a garotada anda com uns movidos à bateria. Preguiçosos ! Os pais !

Agradecendo antecipadamente a atenção do Ex.mo Senhor, apresento os meus melhores cumprimentos

Ron Groo disse...

Põ que inveja... Destes carrinhos de pedal tive um Jipe.
Não era tão chique.

Migdonio disse...

hehehe legal. Paulo, voce viu o 936 Jr no meu blog??
Nao e' a pedal, mas e' um sonho para qualquer crianca.

Joel Gayeski disse...

Eu teria chorado com um carrinho desses na minha infância.

Nem um Audi ou Prsche a pedal de hoje chega aos pés doesse Austin.

Francisco J.Pellegrino disse...

Tive um pedal car Chevy, de segunda mão, desmontei tudo e coloquei rolemãs nas rodas traseiras (saudades do meu querido pai e a fabulosa Pirelli dos anos 50)..aí soltávamos a josta Chevy numa ladeira da antiga Light aqui em S.André e seja o que Deus quiser ! Estou vivo para contar !

Francisco J.Pellegrino disse...

Putz, mil desculpas...o teu artigo é nota 10 como sempre...muito bom.

Paulo Levi disse...

Bem lembrado, Anônimo de 14/09 às 08:10: a Austin também produziu carrinhos para parques de diversão. Há pouco tempo, num parquinho desses na Inglaterra, os Austin J40 voltaram à ativa depois de passarem por uma restauração. Onde andarão esses carrinhos de POA?

Paulo Levi disse...

MC e Ron Groo, eu também tive que me contentar com um simples jipinho, provavelmente fabricado pela Bandeirante. Tinha me esquecido completamente dos carrinhos de pedal da Genovese, que o MC tirou lá do fundo do baú.

Paulo Levi disse...

Mig, eu vi o 936 no seu blog. É bem bacana, mas no gênero "movido a gasolina" prefiro a réplica em escala 1:2 do Mercedes W196 feita na Argentina. Em matéria de fidelidade ao original, nunca vi nada tão perfeito. Veja aqui:
http://www.adverdriving.blogspot.com.br/2010/10/el-sueno-del-pibe.html

Paulo Levi disse...

Joel, o vizinho da casa em frente tinha um Austin J40, British Racing Green ainda por cima. E o pai dele tinha um Bel Air 56. Foi uma boa escola pra aprender a controlar a inveja.

Paulo Levi disse...

Francisco, pelo jeito esse seu Chevy era uma cadeira elétrica em miniatura, rsrs. Ainda bem que Deus protege os loucos e as criancinhas, senão não estariamos aqui para contar histórias como essa.

PS: obrigado pelo elogio!