domingo, 30 de setembro de 2012

O barquinho vai (Parte 1)

Os nomes de inspiração náutica formam um capítulo curto porém fascinante da história do naming automotivo. Impossível dizer ao certo qual foi o primeiro automóvel a ostentar um nome desses, principalmente em razão do grande número de marcas que desapareceram sem deixar vestígio nas primeiras décadas da indústria. Se o Titanic não tivesse tido o destino que teve, não seria de se estranhar que alguma empresa do setor usasse o seu nome para batizar algum modelo de sua fabricação.

Considerando esse passado um tanto nebuloso, não parece fora de propósito atribuir o pioneirismo no uso desse tipo de nome ao Packard Clipper, modelo lançado por essa prestigiosa marca americana em 1941. No caso, o termo de origem náutica passou primeiro por outra categoria, a aviação, onde foi usado para nomear os grandes hidroaviões Martin e Boeing que eram a última palavra em transporte aéreo de longa distância naquela época.


Muitas dessas aeronaves eram operadas pela Pan American Airways, que praticamente tratava o nome "Clipper" como uma marca de sua propriedade. Como o Packard Clipper apresentava linhas muito mais modernas e aerodinâmicas que as dos Packards que o antecederam, a associação com os clippers do ar era sem dúvida muito bem-vinda pelo seu fabricante.


Tanto no caso dos hidroaviões como no do novo lançamento da Packard, as associações históricas desse nome eram altamente positivas. Os clippers eram os grandes veleiros de casco estreito que em meados do Século 19 colocaram os Estados Unidos na vanguarda da navegacão marítima mundial, assegurando a sua supremacia principalmente nas rotas comerciais para a Ásia. Além de uma boa capacidade de carga para a época, destacavam-se pela aparência esguia e elegante e por uma rapidez jamais vista em embarcações a vela. E mesmo depois de cederem lugar aos navios a vapor, mantiveram-se vivos no imaginário popular norte-americano como símbolos da ascensão do país ao status de potência internacional.


Mas em 1941 os ventos prenunciavam tempestade, e o nome Clipper traria menos sorte ao novo modelo da Packard do que trouxe aos seus homônimos do mar e do ar - a começar pelo fato de que o seu lançamento se deu praticamente às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor. Junto com os demais fabricantes americanos, a Packard teve que interromper suas atividades normais para se dedicar à produção de material bélico. E quando a guerra acabou, seus concorrentes foram mais ágeis no lançamento de novos modelos destinados aos segmentos superiores do mercado.

Daí em diante, a Packard foi perdendo o seu foco estratégico, em parte pela dificuldade de se adaptar ao novo cenário, em parte por divergências dentro da própria empresa. O casamento forçado com a Studebaker só serviu para precipitar o seu fim, o que ocorreu em 1956. O nome Clipper sobreviveu até lá, mas em modelos que eram apenas uma pálida sombra do original.

Como uma espécie de post scriptum a essa triste história, haveriam de surgir dois outros automóveis com esse mesmo nome. Ou melhor, dois utilitários: a Kombi Clipper e o Nissan Clipper. Tanto em um caso como no outro, a capacidade de carga justifica a denominação. Já o estilo...



12 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Abrindo a minha Bible que vai de 1940 a 1980 achei um Chrysler "Highlander"....os Packards me trazem à lembrança o Ronald Golias, lembra-se ?

Belair disse...

Essa historia me lembrou um dos carros mais desengoncados que ja' vi,o Renault Caravelle,quando o aviao do mesmo nome me fascinava,achava bonito com as turbinas la' atras e as janelinhas ovais.
Muito bom post PL.
Adverdriving e' SEMPRE cultura.

Anônimo disse...

... boa tarde, senhor Paulo Levi.

adorei tudo que escreveu e ajudou bastante a enriquecer meus parcos conhecimentos. Só conhecia o Flipper. O golfinho. Mas, nesta história de naming, quem realmente surpreendeu foi o Brasil. Nós ! A Vouquis com o seu GOL ! Molinho, simples, fácil de guardar... e o mundo todo gosta de futebol ! Pior era o Crásler Doge Xarjer RT que meu tio tinha. Nem sei o que significava RT. Deve ser : Ruim de Traduzir. Por isso sempre digo: Sou brasileiro e não desisto nunca ! UNO é um nome bacana também ! Só não sei por que razão a fiat não colocou "UM"...
Um abraço e muito bom o seu blog.


C.M.

Dan Palatnik disse...

Paulo, fazia tempo que não conferuia seu blog. Hoje passei mais de meia hora (!) me deliciando com suas postagens. A das placas é impagável. Parabéns e continue ativo.

Paulo Levi disse...

Chico, esse seu comentário foi um verdadeiro "3 em 1" porque me deu a oportunidade de pesquisar três assuntos sobre os quais eu sabia pouco ou nada, ou seja, o Highlander da Chrysler, a classe Highlander do iatismo, e o Packard do Ronald Golias.

Nos primeiros dois casoa, o que pude apurar é que o automóvel nasceu primeiro, sendo praticamente contemporâneo do Packard Clipper. Seu nome derivava do estofamento em tecido xadrês semelhante ao dos clãs dos highlands escoceses. Já a classe Higlander no iatismo só surgiu em 1950, quase dez anos depois.

Sobre o Packard do Golias encontrei pouquíssimas referências, tirando o fato de que o seu personagem mencionava esse carro para botar banca. Se algum outro leitor souber se Golias de fato teve um Packard, suas informações serão muito bem-vindas.

Paulo Levi disse...

Belair, o Renault Caravelle não poderia ficar de fora dessa série - como diriam os franceses, "c'est un must". Aguarde! E muito obrigado pelos elogios ao Adverdriving.

Paulo Levi disse...

CM, obrigado pela sua simpática e bem-humorada participação!

Paulo Levi disse...

Dan, contar com a sua leitura é sempre motivo de grande satisfação. A propósito, essa sua visita coincide com o post número 200 do Adverdriving. Obrigado pelas palavras de incentivo, e vamos em frente!

Rui Amaral Jr disse...

Ótimo texto Paulo, o Packard Clipper era lindo.

Um abraço

Rui

Francisco J.Pellegrino disse...

PL, o Golias na Familia Trapo era aquele CUnhado que vivia as custas do italiano Otelo Zeloni que quando mencionava que ele era um vagabundo o Golias ameaçava ir embora e que tinha o Packard 1949 e a "fazenda" em Mato Grosso de 4 x 7 ......metros ! Bons tempos...

Kleber Barroso disse...

Esse Renault Caravelle com a traseira do Alpine/Interlagos merece uma pesquisa...

Paulo Levi disse...

Kleber,
Pesquisa feita, post no ar!
Abraços,
Paulo