sábado, 22 de setembro de 2012

Cem anos de autorama

Faço parte de uma geração que pegou em cheio a primeira onda do autorama no Brasil, em meados da década de 1960. Ai de quem se atrevesse a chamar aquilo de brinquedo: para mim e para a maioria dos meus amigos, autorama era um esporte. Um dos melhores do mundo, acreditávamos nós com absoluta convicção, atrás apenas do kart e do automobilismo. Até poderíamos aceitar que se referissem a ele como um "hobby/esporte", mas como um brinquedo jamais.

O que não passava pela cabeça de nenhum de nós é que, àquela altura, o autorama (ou o automodelismo de fenda, para usar a nomenclatura tecnicamente correta) já existia há mais de meio século. Sabiamos que ele havia chegado ao Brasil com alguns anos de defasagem em relação à Inglaterra e aos Estados Unidos, mas se aparecesse alguém dizendo que as corridas de autorama já existiam na época dos nossos avós, seria imediatamente chamado de mentiroso. Ou de maluco.

De fato, os primeiros autoramas surgiram em 1912, nos Estados Unidos. O que existia antes disso eram carrinhos motorizados que podiam trafegar sobre os trilhos dos trens elétricos, não passando portanto de simples adaptações das locomotivas já existentes. Quem deu o passo decisivo para a emancipação dos carrinhos foi a Lionel Manufacturing Co., que introduziu o conhecido esquema de pista com fenda que caracteriza o autorama até hoje.




Da mesma forma que os primeiros automóveis eram caros demais para a maioria dos consumidores, o autorama se manteve como um hobby de elite até a década de 1950, quando fabricantes como a britânica Scalextric e as americanas Gilbert, Eldon e Strombecker, além da pioneira Lionel, criaram um mercado de massa pela primeira vez. No Brasil, o automodelismo de fenda chegou por iniciativa da Fábrica de Brinquedos Estrela, sob o nome fantasia de Autorama. O sucesso foi tanto que o nome acabou virando sinônimo de categoria.


Participei assiduamente das corridas de autorama em São Paulo entre 1964 e 1967, período que coincidiu com uma das fases mais memoráveis na história do automobilismo brasileiro e internacional. Nossos carros eram versões em escala 1:32 dos que competiam na vida real. Meu favorito sentimental era um Renault 4CV vermelho, inspirado no original pilotado em Interlagos por Emerson Fitipaldi, mas o que me trouxe melhores resultados foi um Lola T70 com o qual venci o campeonato paulista de 1967 na categoria Mecânica Nacional.

©Tom MacDonald
Pode até soar estranho, mas para mim o autorama foi uma verdadeira escola. Aprendi noções de mecânica, adquiri aptidão no uso de ferramentas, desenvolvi o apreço pelo trabalho bem feito e pela atenção aos detalhes, aprimorei meus reflexos e a capacidade de agir taticamente. E, principalmente, entendi que nada acontece por acaso, e que o resultado nas pistas é diretamente proporcional ao esforço investido na preparação. Por tudo isso é que, mesmo tendo pendurado o capacete (ou seria o reostato?) há muito tempo, presto aqui a minha homenagem a esse hobby/esporte (ok, então é esporte mesmo) no ano de seu centésimo aniversário. 

15 comentários:

Rui Amaral Jr disse...

Uma aula, não sabia de tudo isso.
Por acaso vc foi àquela pista do Conjunto Nacional?
Vou enviar um e-mail com link, mas fique sabendo desde já que a culpa não foi minha!rs

Um abraço

Anônimo disse...

Autorama....Ligier, Ferrari! Acelerar o motorzinho com o chassis suspenso na mão; primeira sensação táctil de promover um comando gerando reação mecânica...e frenética! Pura introdução ao mundo da velocidade e movimento. Saudades!


MFF

Belair disse...

Aula mesmo! Tambem nao sabia de muitas coisas mencionadas.
No meu caso, uma lojinha da R. Olavo Egidio,em Santana,ficou com boa parte(a maior,na verdade)do dinheiro que meu pai me dava diariamente, quando me deixava na escola,na quadra vizinha `a da loja.
Em vao...nunca pude me aproximar dos melhores do meu pedaco,eles sempre estavam na frente,com carrinhos e preparacoes incriveis,e eu era muito crianca ainda;mas tambem aprendi muito.
E PL,nao me lembro desse torneio da Estrela nao.Mas tambem,deve ter sido so' para os cobroes,coisa que eu nao era...

Francisco J.Pellegrino disse...

Estamos conhecendo passo a passo as habilidades do nosso nobre blogueiro PL, aqui na rua de casa tem um Campeão Brasileiro da modalidade, chama-se José Mario Pires Serra...o sujeito fabrica o próprio carro, os motores enfim todas as peças e "passeia" pelo mundo inteiro competindo.
Parabéns PL.





Irapuã disse...

O PL tem a capacidade de me fazer sentir velho e ao mesmo tempo voltar à infância, rs.
Nunca cheguei ao nível profissionalizado da coisa, mas em casa a coisa pegava com meu irmão e amigos. Começou com os Corvettes da Estrela, licenciado da Scaletrix com acionamento por rosca sem fim e contatos rotativos (faz tempo hein), evoluiu para as Berlinetta Willys já com coroa e pinhão e contatos trançados e passou pelos GT40 e Cucaracha.
As pistas multi-slot eram coisa para os profissionais da modalidade e indisponíveis em cidades do interior. Vejo hoje categorias de modelos réplica em escala maravilhosos, com comandos digitais e que às vezes dão vontade neste senhor maduro de voltar à "brincadeira".
Paulo, grato pelas informações históricas!

Paulo Levi disse...

Rui, não lembro dessa pista do Conjunto Nacional, mas na mesma Av.Paulista havia uma (que não era lá essas coisas) no prédio da Gazeta. A melhor de todas era a da Scorpius, na R. Maria Antonia. E pertinho de onde eu morava também havia uma: a Adami, na Brigadeiro Luiz Antonio.

Paulo Levi disse...

MFF, a sensação era exatamente essa. Ora eramos pilotos, ora mecânicos, de vez em quando até engenheiros. E em qualquer um desses papéis tinhamos a impressão de estar muito próximos ao universo do automobilismo, com suas alegrias e frustracões.

Paulo Levi disse...

Belair, se você não lembra do torneio da Estrela é porque é bem mais jovem do que eu, rs! O evento era bem democrático, qualquer um que tivesse um carrinho (da Estrela, é claro) podia participar. Apareceu tanta gente que os organizadores tiveram que fazer um esquema de eliminatória, oitavas de final, etc.etc., começando no sábado e terminando no domingo. Um dos finalistas foi o Emerson Fittipaldi, que chegou em segundo ou terceiro. E eu? Bom, venci a primeira bateria por pura sorte, e na segunda só dei vexame. Foi aí que eu entendi que ainda tinha que comer muito feijão...

Paulo Levi disse...

Obrigado, Chico! Pelo que eu tenho visto, os carrinhos de autorama evoluiram de forma impressionante desde o meu tempo. Ficaram tão rápidos que o olhar (o meu, pelo menos) nem consegue acompanhar. Proporcionalmente, acho que o aumento de performance foi até maior que nos carros de competição em escala 1:1. Haja reflexo!

Paulo Levi disse...

Irapuã, o seu comentário me fez lembrar que eu também tive uma Berlineta da Estrela. Foi um lançamento bombástico, feito na forma de pré-estréia no Salão do Automóvel (ou da Criança, não lembro agora) de 1964. A garotada foi à loucura: os protótipos andavam muito, e ainda por cima eram lindos! Só que o carro não estava disponível para pronta entrega, era preciso se inscrever numa lista de espera. Que foi o que fiz. Meses depois, chegou a minha tão sonhada Berlineta - só que o modelo de produção não tinha nada a ver com os protótipos do Salão. Se existisse Procon naquele tempo, acho que a fila teria dado a volta no quarteirão...

Anônimo disse...

...depois da "oração" pro diabo aí embaixo, não tenho tesão de escreve nada sobre autorama. Aliás, crianças cubanas tem o brinquedo ?


M.C.

Paulo Levi disse...

MC, me surpreende que você não tenha captado a ironia no meu post anterior, a começar pela escolha do "santo". Sugiro que voçê o releia de forma mais atenta.

Ron Groo disse...

Não tinha nem ideia da idade da invenção Autorama.
Nunca tive um, nem xing ling... Mas confesso que achava que era igual o Ferrorama, tipo: liga e ele fica lá dando voltinha sozinho.
Hoje sei que não é, mas com o advento dos vídeo games de ultima geração, a molecada deixou o velho autorama de lado.
Agora, dos carrinhos deles eu sempre gostei.

Unknown disse...

Paulo, como vai.
Li seu relato e considero tudo nessa fase que passamos.Fui um louco desde criança por velocidade influenciado pelo autorama Estrela pista fina para 2 carrinhos na década de 60 e guardo até hoje os carrinhos (2 Fuscas e um Gordini)todos originais e em bom estado e de lá pra cá não desgrudei da velocidade, seja fosse em miniaturas como a ignição.Cheguei a ser piloto de provas na época e meu pai me deu um ultimato: a Faculdade ou sem carro e na época eu não trabalhava ainda, me vi então obrigado a correr atráz do meu sonho: a velocidade.
Fiz minha faculdade de arquitetura e não deixei pra trás a velocidade. Fiz muitos pegas com V-8 ,4.100 cc, 2.000 cc, enfim, fui o cão chupando manga das pistas e até hoje eu gosto muito dos brinquedinhos que tenho e aprendi com disciplina me manter vivo. Fiz curso de direção ofensiva e defensiva e hoje não me arrependo de nada.Sou apaixonado por carros.Agradeço a ti pela oportunidade de extravasar um pouco sobre minha infância e o meu Autorama Estrela.
Abração.

Ricardo Rocha.

Paulo Levi disse...

Ricardo, obrigado por sua visita e também pelo depoimento que enriquece e complementa este post. Que bom que você conseguiu preservar ao menos alguns dos seus carrinhos - eu não guardei quase nada daquela época, e hoje me arrependo.

Grande abraço, e volte sempre!

Paulo