sábado, 25 de agosto de 2012

O primeiro carro japonês a gente nunca esquece

Meu primeiro carro japonês foi um Dodge. Mas isso só no nome, já que se tratava de um legítimo Mitsubishi produzido no Japão. Lá, o modelo era conhecido como Mitsubishi Mirage, mas nos Estados Unidos, onde eu morava na época, ganhou o nome de Dodge Colt. E também o de Plymouth Champ, para atender aos consumidores que tivessem mais simpatia por essa marca.

Badge engineering? Sem dúvida. Só que havia uma razão: o nome Mitsubishi ainda despertava no público americano associações com a Segunda Guerra Mundial e com os aviões do ataque japonês a Pearl Harbor. O acordo de distribuição com a Chrysler ajudava a contornar o problema, ao mesmo tempo em que dava à menor das Big Three a possibilidade de competir com a Ford e a GM no segmento de carros pequenos. 

Eu nunca havia me interessado pelo Colt, até porque as suas linhas me faziam lembrar um Maverick sedã em escala reduzida. Só comecei a relevar essa falta de originalidade ao notar que esse carro quase sempre obtinha ótimos resultados nas provas do campeonato americano de rali.

             http://rallymemory.blogspot.com.br

Se o estilo (ou a falta de estilo) do Colt ainda me incomodavam, a chegada da nova geração do modelo, no final de 1979, veio resolver a questão. A mudança foi radical: o sedã sem personalidade se transformou em um hatch de design limpo e original, muito avançado para a época. Do modelo antigo restaram apenas o nome e o ótimo motor, agora instalado em posição transversal. E tração passou a ser dianteira, uma característica mais do que desejável numa região onde os invernos são longos e rigorosos.

O novo e o velho, convivendo no mesmo folheto
Bastou um rápido test drive para que eu me apaixonasse pelo novo Colt. O preço, pouco mais que quatro mil dólares, era um tanto salgado para um redator em início de carreira, mas nada que um financiamento em suaves prestações não pudesse resolver.

Parada para reabastecimento a caminho de Chicago.
Na primavera era assim... imagine no inverno.
Foi o primeiro automóvel que comprei com o resultado do meu próprio trabalho. Durante os pouco mais de dois anos em que fiquei com ele, só tive alegrias. O carro era de uma confiabilidade a toda prova: dava a partida mesmo em temperaturas sub-árticas, passava tranquilamente por trechos nevados onde a maioria não ousava se aventurar, nunca queimou um fusível - uma ocorrência mais comum do que se poderia imaginar nos automóveis daquele tempo. E era muito gostoso de dirigir, graças principalmente ao câmbio de quatro velocidades com uma relação suplementar para cada uma delas. Essa espécie de "marcha extra", que podia ser uma reduzida ou um overdrive conforme o ponto de vista de cada um, era acionada por uma alavanca específica situada ao lado do câmbio. Manipulando coordenadamente as duas alavancas, obtinha-se o efeito de uma transmissão com oito velocidades à frente e duas a ré. Pura curtição.


Se eu pudesse, teria ficado com o Colt por muitos e muitos anos. Mas isso não foi possível, pois tive que antecipar a data do meu retorno ao Brasil. Queria trazê-lo comigo, mas não havia a menor possibilidade. O Brasil de 1982 era um país hermeticamente fechado às importações, e portanto só me restava aceitar essa separação tão indesejada quanto prematura. E me consolar pensando no velho e bom Chevette que me aguardava em São Paulo.

Indo entregar o Colt ao novo dono. That's all, folks!
Já de volta ao Brasil, passei anos sonhando com esse Colt que a vida afastou de mim. Alguns desses sonhos eram de um realismo quase fotográfico. Ora eu estava no porto de Santos retirando o carro da alfândega, ora eu abria a porta da garagem e lá estava ele. Desnecessário dizer que depois de um sonho desses a sensação de perda voltava com força total.

Mas essa história tem um final feliz: em 1995, a importadora brasileira da Mitsubishi trouxe para cá um lote de Colts. Eram menos de trezentas unidades, uma oportunidade de ouro para reescrever a minha história com esse carro. Comprei um deles e fui fazer as pazes com o passado. Desta vez, sem pressões de tempo nem obrigações de qualquer natureza.



Esse segundo Colt se revelou um sucessor à altura do que tive nos EUA, com a mesma confiabilidade e o mesmo prazer ao dirigir. Podia não ter o câmbio twin stick do antepassado, mas em compensação tinha ar condicionado e direção hidráulica, luxos inacessíveis a um redator em início de carreira. Cuidei dele como se tivesse recuperado o meu Colt perdido.

Fiquei com esse carro até o ano passado, quando o vendi a um mecânico que se apaixonou por ele à primeira vista, exatamente como eu havia me apaixonado pelo meu primeiro Colt. Há pouco, soube através de um conhecido comum que o rapaz continua feliz da vida com ele - por sinal, seu primeiro carro japonês. Ao saber disso, fiquei feliz como no tempo em que ele ainda era meu. E com isso, a minha história com o Colt fechou como deveria, com cada parte em seu devido lugar.

15 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Ótimo texto, belas lembranças, ainda se encontra os Colts andando pelo nosso trânsito, excelente automóvel.

Anônimo disse...

http://www.newcolt.com/


Ué, diminuíram o bibi ? Ficou mais "alto" ? Tá mais prá "Cold"... A verdade é que não fez muito sucesso por aqui. Bom carro, muito bom de curva, mas caro. O azulzinho, se não me engano, era 1.8, não ? Ou 1.6 ? Bom carro. Aliás, os japoneses constroem carros muito bons. Mas os coreanos tão dando show. O mundo tá de olho na nova invasão do Oriente... dos "chineses". Não é que o tal do J3 é um carrinho interessante ? E preço, pros nossos padrões estratosféricos....., bacana.


M.C.

Belair disse...

Nao me lembrava da coluna C ser tao reta assim,e a traseira tao"em pe'"...Acho que arredondou(arco) um pouquinho depois,nao?
A confiabilidade dos japas nessa epoca ja' era lendaria.
E curiosidade: voce esta' com winter tires(ou pneus maiores) so' na traseira ou eu estou enxergando errado?

MMozart disse...

Realmente o carrinho devia ser muito bom. Japonês, num precisa nem falar. Mas como americano é bobo deviam falar horrores do carrinho.

Paulo Levi disse...

Francisco, agradeço pelas suas palavras sobre esse meu relato. Realmente, foram 16 anos muito bem vividos com esse segundo Colt. Só me desfiz dele porque o seguro ficou caro demais.

Paulo Levi disse...

MC, concordo com você sobre o novo Colt. A Mitsubishi não tem sido muito criteriosa no uso desse nome, aplicando-o indistintamente a modelos de diferentes segmentos. O meu azulzinho (que era um 1.6) era a versão hatch do Lancer, enquanto o Colt atual é construído sobre uma plataforma completamente diferente.

Quanto ao desempenho do Colt em curvas, eu diria que não era o seu ponto forte. O motor 1.6 já estava no limite para o seu chassi. O 1.8 era um canhão, mas a suspensão não estava à altura, tanto é que muitas das unidades com essa motorizacão foram destruídas em acidentes.

Paulo Levi disse...

Belair, não é você que não está enxergando direito, é essa foto que é muito velha. Os pneus são todos da mesma medida, 155/80-13.

Originalmente o carro veio com pneus diagonais BF Goodrich da mesma medida. Minha primeira providência foi trocá-los por radiais Michelin. Se não me engano, estes tinham a designação M+S(mud and snow), mas o desenho da banda era o mesmo de um pneu para uso geral.

Paulo Levi disse...

MMozart, o engraçado é que em sua maioria os compradores do Colt provavelmente não tinham muita noção de que estavam comprando um carro japonês. Mas nessa mesma época, marcas japonesas como Honda, Toyota e Datsun (a atual Nissan) já vendiam grandes volumes no mercado americano.

Anônimo disse...

... Pensei que fosse bom de curva, aliás, me disseram que era. Mas foi o vendedor da Mitsubishi... Olhei pro entre eixos dele e fui convencido... Me pareceu " no chão ". Centro de gravidade baixo... Aticei o cara a dar esta resposta pois, anos antes, tive um carro reconhecidamente bom de curva, o Voyage e olha que parecia oum caixote. O Candreva deve ter fotos das corridas cheias de voyages nos anos 1980. Os caras adoravam o bichinho. E, até pouco tempo, tive um Sandero que, como bom francês, honra a tradição de entrar bem( e sair bem, se Deus quiser ) nas curvas. Nada de pilotagens doidas em estrada ou mesmo na cidade mas, às vezes, quem acelera um pouquinho, exagera... o Voyage dos anos 1980 e o Sandero dos anos 2000 e tal me ajudaram não entrar em encrencas e passar voado por São Pedro dizendo " ... que pariu !". Tô vivo e sem um arranhão. E os carros foram vendidos só com algumas mossas( Sandero, cruzes credo !). Mas se voce está dizendo que o Colt não era grandes coisas em curva, e teve um, aceito. Mas o seu estava muito novinho... motorista de fim de semana, né ? HA ! Cuidadoso...


M.C.

Ron Groo disse...

Eu não sabia que o Colt era originalmente japonês...

Mas, Paulo, este cara cabeludo é você mesmo?

Anônimo disse...

... agora ele é produzido na Holanda ! NedCar. Senhor Groo, Veja que bacana. Vou com o meu mauzi até a bolinha do anônimo. Apertarei, dentro da bolinha, a setinha que movo com o meu dedinho indicador no botão esquerdo( êpa!) do rato preto( o meu é ) e aparecerá uma bolinha preta ! Depois vou em "publicar comentário"( retangulo laranja) e ... voalá ! Meu comentário para todos verem em décimos de segundo( meu computador é flórida). Fiz o meu comentário genial no seu bloguinho, mais de uma hora atrás, e nada ! Este é mau da "moderação"...

Informação rápida
mesmo que seja descartada !
Um direito de todos...
os tolos !



M.C.

Anônimo disse...

...e o Ô Du Volante está mais simpático careca. Charmoso... as lobas de Sampa devem cair em cima ! E tá vendendo um clássico ! como poe ? Vai perder 20% do poder de sedução... Agora eu me lembro ! O Colt veio para brigar com o Civic duas portas ! O EX ! E com um Mazda... MX3 ! Naqueles anos, do século passado, vendiam, as japas, carros 2 portas ! Os coupés ! Adorava eles. Agora vem a Hyundai, me chamando de otário, querendo que eu compre um caro de 3 portas... um carro caro ! Qualélêlé !

M.C.

Anônimo disse...

poe = pode

M.C.

Anônimo disse...

... Civic ED ! DX... Sei lá a diferença de civic EX para o ED. E para o DX ! coisa de japa.
Alô Ô ! Tem alguém em casa ?


M.C.

Joel Gayeski disse...

Gosto de carros japoneses, sempre eficientes e quase indestrutíveis.
Uma pena que não tu não pôde trazer o teu pro Brasil.
Essa geração que foi vendida aqui era muito legal, há um dourado por aqui, firme e forte.