sexta-feira, 31 de agosto de 2012

As miragens de Zwickau

Tempo é um conceito relativo. Mais ainda na Alemanha que em qualquer outro lugar.

Me convenci disso no dia em que fui visitar o August Horch Museum, em Zwickau. Menos conhecido que os museus da Porsche e da Mercedes-Benz em Stuttgart, é um destino obrigatório para quem deseja se aprofundar na história da Horch e das outras marcas que formavam a antiga Auto Union, antecessora da Audi. Mas ir a Zwickau não é tão simples assim: a cidade fica longe das principais rotas turísticas do país, e a única opção prática para ir até lá é de carro.

        (Imagem: Google Maps)

Pensando em unir o útil ao agradável, fui a uma agência da Avis em Berlim e reservei um Fiat 500. Eu ainda não havia dirigido um carro desses, e resolvi aproveitar a oportunidade. Havia duas opções de cor: cinza e azul. Optei pelo azul e saí de lá animado com o passeio que faria no dia seguinte.

Só que... só que, ao retirar o carro, vi que não era bem o que eu imaginava. Em vez do azul noturno que eu tinha em mente, uma das cores mais emblemáticas dos Cinquecento das décadas de 1950 e 1960, esse Fiat era de um azul, digamos, esquisito. E aquela capotinha de lona preta também não estava no programa. Pensei em pedir a troca pelo 500 cinza. Mas como à essa altura eu já estava bastante atrasado, engoli em seco e tomei o rumo da Autobahn que me levaria a Zwickau.

         (Imagem ilustrativa - autoria desconhecida)

Foi então que começou o meu aprendizado sobre a relatividade do tempo. Na véspera, quando perguntei na locadora quanto tempo levaria para ir de Berlim até Zwickau, a atendente havia me dito que seriam cerca de três horas. Agora, rodando a 130 km/h, entendi que jamais seria capaz de cobrir o trajeto nesse tempo. O motor do 500 era um pacato 1.2, e de qualquer forma o carro não inspirava muita confiança acima dessa velocidade. Enquanto isso, Porsches, Mercedes e BMWs passavam por mim a 160, 170 por hora. Os motoristas desses carros certamente chegariam a Zwickau dentro das três horas previstas, mas não eu. Quatro horas eram o mínimo. De onde se conclui que o tempo é relativo, mas a velocidade não.

         (Imagem ilustrativa - Fonte: germanexotics.com)

Comecei a ficar preocupado. Pelo andar da carruagem (ou do Fiat 500, no caso) eu só conseguiria chegaria a Zwickau às 4 da tarde, sendo que o museu fechava às 5. Uma hora é pouco, mas é melhor do que nada, certo? Só que eu não contava com o temível Stau, que é como se chamam os enormes congestionamentos que às vezes acontecem nas estradas da Alemanha.

        (Imagem ilustrativa - Fonte: latinoszenetv.com)

De Leipzig em diante, o trânsito ficou tão carregado quanto o da Marginal do Tietê em horário de pico. E o tempo passando... para encurtar a história, só consegui chegar ao museu quando faltavam vinte minutos para o fechamento.

Temi que todo o meu esforço tivesse ido por água abaixo. Vinte minutos para visitar um museu não é nada, que dirá então para fotografar os automóveis ali expostos. Mas felizmente pude contar com a compreensão do Dr. Eberhardt Fenkl, um dos funcionários mais graduados do museu, que com uma boa vontade fora do comum me ciceroneou numa espécie de tour relâmpago priorizando os automóveis de maior importância histórica. Os poucos segundos que pude dedicar a cada um deles ficaram alojados na memória como os fragmentos de um caleidoscópio, como se tudo não tivesse passado de uma miragem. Só me convenço de que não foi quando revejo essas fotos, que agora tenho o prazer de compartilhar com o leitor. E que me fazem até acreditar que, apesar da rapidez dessa visita, as longas horas na estrada não foram totalmente em vão.

Os quatro anéis da marca Auto Union: Audi, DKW, Horch e Wanderer
Horch 830 BL Pullman-Cabriolet, 1936
Horch 18/20 Phaeton, 1911
Audi C 14 "Alpensieger", 1913
Horch 375 Pullman-Limousine, 1930
Audi Typ SS "Zwickau", 1930
DKW F 7 Front-Luxus, 1937
Audi 930 Cabriolet, 1938
DKW Front F 1
DKW F 2, 1933
DKW Front F 7 Lieferwagen, 1937
IFA F 9, 1953
Trabant P 601, 1973
Protótipo Trabant P 100, 1961
À direita, o Dr. Eberhard Fenkl, a quem agradeço por viabilizar esta série de fotos
Imagens: arquivo pessoal do autor, exceto onde indicado. Reprodução permitida mediante atribuição a este blog.

12 comentários:

MMozart disse...

Pô! A viagem deve ser fantastica, o museu mais ainda. Impressionante como todos os paises preocupam com a preservação, já o Brasil, pensa numa forma de expulsar o pobre museu de Brasilia. Pode?
PS: Um 500 Abarth viria a calhar nessas horas.

Rui Amaral Jr disse...

Merecia ter ficado mais tempo Paulo.
Agora naquela cor o quinhentinho ficou de doer!
Belas fotos e um texto delicioso!


Um abraço

Joel Gayeski disse...

Só eu que acho esse azul caRcinha interessante?
Paulo, até um TwinAir já ajudava muito.
Incrível como as fotos ficaram boas, do jeito que tu estavas na correria.

Anônimo disse...

... tititi. Avis... Berlim... Na promoção ! Pro moção ! Porsche ! Ida e volta ! Bateu lá, voltou ? Pegou de manhã, entregou de noite ? Porsche ! Até um AUDI ! Brasileiros... tititi. O cara era teu amigo mesmo. Muito amigo ! Irmão ! Se sou eu, vendo um carinha chegano num FIAT 500 faltando 20 minutos para fechar o meu Museu.... Azulzinho... azulzinho... de capotinha de lona... Soltava os dobermans e, para garantir, depois, os rottweilers em cima de você, Ô Du Volante ! Visitar o August Horch Museum de FIAT 500 ! Nem chique, muito menos educado ! Não me venha dizer que estava duro. Final de viagem... Blá blá blá ! E, autoban de FIAT 500 ! Que queimação de filme ! Por isso, o alemão da Avis te deu um azulzinho cor disenteria extraterrena. Melhor fosse de Trabant ! Mas, não fez cursinho para entrar nas Autobans ? Ninguém entra nelas assim, assim... como se entra nas CCR AutoBAn do Grande Estado ! Aquele, com o Brasilzinho na bandeira.


M.C.

Francisco J.Pellegrino disse...

PL, ótimo trabalho...trânsito é ruim em todo lugar do mundo...Autobahn lembra Lambo,Porsche, Mercedes,Bmw, Audi...lembra até aquelas coisas vermelhas italianas fabricadas pela FIAT...menos o Quinhentinho...

Anônimo disse...

05/09/2012 | 11:15
Canal de Notícias

Fiat 500 Cabriolet chega ao Brasil em 2013

Coincidência...


M.C.

Luís Augusto disse...

Muito bom o Museu ter incorporado os IFA e Trabant. Apesar (ou talvez por causa dela) de uma história mais do que turbulenta no século XX, os alemães sabem preservá-la como ninguém.

Anônimo disse...

Ué ? apagou o que eu escrevi ? Corajoso és, ô Du Volante ! Tem que ir mesmo de Fiat 500 pelas CCR autobans ! Mas vai pela direita para não atralhar o trânsito ! Ontem, em Sampa, uma Kombi pegou fogo num posto e foi noticiado em tudo que é lugar. Jornalismo pobre é isso ! Noticia estas porcarias...

Paulo Levi disse...

MMozart, com um 500 Abarth a viagem teria sido outra coisa... mas aí, eu não teria essa história pra contar!

Paulo Levi disse...

Rui e Joel, obrigado pelos elogios às fotos. Pelo menos essa parte da viagem correu sem problemas...

Paulo Levi disse...

Francisco, sabe de uma coisa? Não vi um só Ferrari nas estradas da Alemanha. Se você trafegar pela Rodovia dos Bandeirantes numa manhã de sábado, é capaz de acreditar que existem mais Ferraris por aqui do que na Europa.

Paulo Levi disse...

Luís,
Também achei elogiável essa preocupação por parte do museu (e da Volkswagen, sua controladora) em se manter fiel à realidade histórica. E você tem razão, esse parece ser um traço em comum entre os museus de automóveis mantidos pelas fabricantes alemãs.