sábado, 18 de agosto de 2012

Agora é cinza

Fila de supermercado é tudo igual, em qualquer parte do mundo. Há poucas opções para afugentar o tédio: ou você observa as pessoas e as coisas ao seu redor, ou faz um cafuné na tela do seu celular, ou simplesmente fica imerso nos seus pensamentos. Se a fila for muito grande, há ainda a possibilidade de variar entre essas alternativas.

Pois era nessa situação que eu me encontrava, na fila de um supermercado em Berlim, quando tive minha atenção desviada por um pacote de cigarros Lancia. Cigarros Lancia, como é que pode? Teria a Fiat feito um acordo de co-branding com alguma multinacional do setor? Ou seria apenas uma coincidência, o produto de uma empresa local pertencente a algum Herr Lancia da vida?


O próprio desenho da embalagem logo se encarregou de desfazer qualquer dúvida a respeito. O grafismo ao redor do nome Lancia, imitando a moldura da placa de um automóvel, mostrava que a intenção era mesmo a de pegar carona na notoriedade da Lancia que eu e você conhecemos. Onde estão os advogados do Grupo Fiat nessas horas?  Por muito menos do que isso, cairam de pau num escritor americano praticamente desconhecido por um suposto plágio ao logotipo da Ferrari. E as leis da União Européia, não podem nada contra esse tipo de pirataria?

Passada essa onda inicial de indignação, fiquei ali matutando sobre a triste sina da Lancia. Foi uma das fabricantes de automóveis mais inovadoras do século 20, responsável por avanços como a estrutura monobloco, a suspensão dianteira independente, os motores V4 e V6 e o câmbio de cinco marchas, mas teve a trajetória marcada por dificuldades de toda espécie. Ficou à deriva depois da morte de seu fundador, Vincenzo Lancia, foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial, meteu-se numa desastrada aventura na Fórmula 1 que quase a levou à falência. Foi resgatada in extremis pelo magnata italiano do cimento Carlo Pesenti,  o que lhe deu fôlego para lançar dois modelos que marcaram época, o Lancia Flavia e principalmente o Lancia Fulvia. Mas isso não foi o suficiente para colocá-la a caminho da lucratividade - e assim, em 1969, a empresa teve o seu controle acionário assumido pela Fiat.

Craig Howell/Wikipedia


No começo, o novo ambiente pareceu fazer bem à Lancia. Um de seus primeiros frutos foi o Lancia Stratos, um fabuloso coupé com motor Ferrari em posição central-posterior que arrasou nos ralis da década de 1970 e entrou para a mitologia dessa modalidade.

Menos nobre na origem de seus componentes mas igualmente competitivo em ralis, o Lancia Delta Integrale parecia confirmar que era possível fazer automóveis dignos da tradição esportiva da marca sob o guarda chuva corporativo da Fiat. 

Só comecei a desconfiar que poderia haver algo de errado nessa história em 1985, quando desembarquei no aeroporto de Genebra e decidi alugar um carro. O funcionário da locadora me ofereceu um Lancia, que aceitei de bom grado por acreditar que seria um meio ideal para viajar com conforto e rapidez pelas sinuosas estradas da Suíça.  Só que de Lancia esse carro não tinha nada, além do nome e de alguns emblemas mal e porcamente aplicados. Na verdade, tratava-se de um Autobianchi A112, um carrinho lançado havia mais de 10 anos e cuja mecânica posteriormente seria retomada no Uno Mille brasileiro. Uma voltinha no estacionamento foi suficiente para me convencer a devolvê-lo. Saí do aeroporto ao volante de um Ford Escort, aliviado por não ter caído no "conto do Lancia".


Essa foi apenas uma pequena amostra do que estava por vir. Com o passar do tempo, o compartilhamento de plataformas foi minando a identidade da Lancia. A mescla de elegância e esportividade que sempre caracterizara os seus automóveis foi sumindo. Ao mesmo tempo, os estudos de novos modelos que supostamente devolveriam à marca o brilho perdido eram expostos com certa frequência nos grandes salões internacionais, para depois sumirem sem deixar rastro. A Lancia estava definhando a olhos vistos. 

E assim, chegamos ao último desdobramento dessa triste história, que é a decisão da Fiat de vender Chryslers rebatizados como Lancias. Não tenho nada contra os automóveis da Chrysler, mas Chryslers são Chryslers e Lancias são Lancias. Um exercício de badge engineering como esse não permite entrever um bom futuro para nenhuma das duas marcas, pelo menos em um mercado sofisticado como o europeu. Se o problema era a má imagem da Chrysler no velho continente, como afirmam alguns analistas, a Fiat poderia ter tirado bons aprendizados dos cases da Kia e da Hyundai, que aos poucos foram vencendo as resistências dos consumidores e da mídia especializada. Em vez de encarar o problema de frente como as concorrentes coreanas, lançando carros que os consumidores querem comprar, preferiu usar o nome da Lancia como maquiagem.

www.caranddriver.com
www.quattroruote.it

E qual é o grande diferencial (se é que existe um) da marca Lancia nessa sua mais recente encarnação? Basicamente, o luxo e o acabamento internos. Esqueça a inovação tecnológica, a integridade da engenharia, as vitórias no automobilismo - tudo isso é passado. A  Lancia de hoje vai pelo mesmo caminho do extinto estúdio Ghia, que de referência em design automotivo se viu reduzido ao emblema que até poucos anos atrás identificava alguns dos modelos mais rebuscados, para não dizer cafonas, da linha Ford. Pobre Lancia, melhor seria se a tivessem deixado morrer em paz.

Você partiu,
Saudades me deixou,
Eu chorei.

O nosso amor foi uma chama
Que o sopro do passado desfaz.

Agora é cinza,
Tudo acabado - e nada mais.

11 comentários:

Joel Gayeski disse...

Sinceramente, se é pra continuar assim, melhor que fechem a Lancia.
Estaria eu sendo radical ou troll?
Vejamos:
- há anos não há um Lancia arrebentando nos rallies;
- não fabricam mais belos carros;
-por último e não menos importante, sua engenharia não é nem arremedo da criatividade de outrora.

Luís Augusto disse...

Concordo e acrescento que isso vai acabar com a Chrysler também, afinal ninguém dá muita bola para marcas genéricas. Chryelser e Lancia sempre tiveram uma identidade muito forte a a Fiat está dando um tiro pela culatra.

Belair disse...

O Marcchione ta' marcando...
PL,esse cigarro apagado diz tudo,hehehe...

Anônimo disse...

... não vejo mal algum. Aliás, os Lancias que vi em Roma, agorinha mesmo, em julho, são em sua maioria carros pequenos-médios( New Ypsilon e Delta ). E como vendem ! Entendo o que a FIAT está fazendo. Salvando a marca. Estudem história do automobilismo e entenderão o que está grandes marcas de hoje estão fazendo. "Ahhhh, como eram bom os Mercurys antes da Ford comprar a fábrica..." Prefiro os Cadillacs de 1907 ! GM estragou o carro "!" O Lancia de 195 ciquenta e k k k ..."" E o Volvo, meu Deus, que carro ! Ma já era ruim até 2005 quando a Ford vendeu pros chineses ! Geely... Agora é uma bosta "! Não foi o que vi ontem. Um cara acelerou tudo, um Volvo, sem cantar pneus... Controle de tração ? HA ! Mas, os Lancias. O Tema e o Voyager são Chrysler mesmo. Tá na cara. Mas, engraçado, vi C300 andando por lá. Acho que é o mesmo que fizeram aqui com Journey e Freemont. Freemont é mais barato. Motorizão 2.4 ao invés do V6 americano. Assim deve ser lá, na Itália. Erro, se é que pode se chamar de "erro" - negócio é negócio. Nacionalismo e patriotismo é coisa de otário - , foi os americanos deixarem a FIAT comprar a Chrysler mas de comércio, transações, americanos e italianos entendem muito mais do que nós. HA !

OBS: E para alguém que vier dizendo que estamos melhores que eles, devido a crise, sugiro um passeio noturno nas duas grandes cidades do nosso querido país. Usem colete e capacete. Não confiem em jornalistas e PT.


M.C.

Anônimo disse...

... AH. Comprei um guarda chuva Ferrari para dar de presente pro Marcelonso mas ele tá de mal comigo. Merece uma guardachuvada ! Não achei uma loja da Maserati pois queria uma camisa maneira com o Tridente... Lamborghini fechou na Veneto... Lá, compraria uma carteira... HA ! HA !

http://www.lamborghinistore.com/


M.C.

Francisco J.Pellegrino disse...

As fabricantes perderam as identidades..no meu caso quero distância de Fiat, não pq não prestam, devem ser bons carros eu é que não simpatizo com a marca, tive vários desde o primeiro 147 em 1978..teremos que nos acostumar com esta situação, vamos engolindo estas fusões automobilísticas e suas "criações", coloque seu antigo nas ruas e pronto...seja feliz.

Rui Amaral Jr disse...

Paulo, vc esqueceu a mítica Lancia D50 que após a morte de Ciccio Ascari foi rebatizada de Ferrari D50 e deu o titulo de 1965 ao também fabuloso Fangio.

Paulo Levi disse...

Agradeço a todos pelos comentários, e aproveito para esclarecer que a minha crítica à Fiat se prende principalmente à sua incapacidade de construir um posicionamento para a Lancia. A marca hoje é usada principalmente para atender a interesses de curto prazo, conforme demonstrado pelo badge engineering envolvendo os modelos da Chrysler. A Fiat faria bem em estudar os cases da extinta British Leyland e também o da GM americana, useiras e vezeiras nesse tipo de coisa.

PS - Rui, pensei sim no D50 enquanto escrevia esse post. Só não o mencionei porque no contexto dessa história ele acabou sendo mais um problema (pelas perdas financeiras que acarretou) que uma solução. Azar da Lancia, sorte da Ferrari...

PS2 - MC, dizer que a Fiat está salvando a Lancia só pode ser uma ironia de sua parte. Salvando de quem, se a marca sofreu todo esse depauperamento por obra e graça da própria Fiat?

Ron Groo disse...

será que foi por conta de uma ação judicial que os cigarros Mustang acabaram?

Conheço um colecionador que adoraria uma carteira de cigarros Lancia.
Nunca fumou, mas tem delas de todo o mundo.

Paulo Levi disse...

Groo, se o seu amigo colecionador quiser ir atrás, o nome do fabricante é Landewyck Group. A sede fica em Luxemburgo, que deve ser uma espécie de Paraguai europeu. Não vi nenhuma menção aos cigarros Lancia no site da empresa (vai ver que já está rolando algum processo), mas em compensação tem cigarros das marcas Austin e Bentley.

Anônimo disse...

.... http://www.lancia.com/ ...Pena a Volkswagen não ter salvado a Gurgel e a Puma... Bastardos Inglórios ! Depau... Depauperamento...



M.C.