segunda-feira, 2 de julho de 2012

Fiat Balilla, popular por decreto

Governos autoritários de perfil populista sempre reconheceram no automóvel um eficaz instrumento para conquistar e manter a adesão de seus governados. O exemplo mais notório é o da Alemanha na década de 1930, quando Adolf Hitler instituiu um programa destinado a motorizar a população de seu país. Desse programa nasceu o projeto KdF (iniciais de Kraft durch Freude, ou "a força que vem da alegria"), cujo resultado prático foi o Volkswagen Sedan - ou Fusca, como se tornaria mais conhecido entre nós.

Mas Hitler não foi o primeiro a fazer isso: seu aliado, Benito Mussolini, chegou na frente. Não que o italiano tivesse planejado algo nesse sentido, mas graças ao seu oportunismo político e a altas doses de interferência estatal estabeleceu as bases para que a Fiat lançasse seu primeiro automóvel acessível ao chamado grande público.

Isso aconteceu em 1932, há exatos 80 anos portanto. Os efeitos do crash da bolsa de 1929 ainda se faziam sentir na Itália e no resto da Europa, mas isso não impediu que o novo lançamento se transformasse em um grande sucesso. Os italianos faziam fila para comprá-lo, e muitos não hesitavam em se endividar para realizar o sonho de ter seu próprio automóvel.


Por trás do Fiat Balilla há uma história quase arquetípica sobre as relações entre um governo autoritário (ainda que contasse com o apoio da maioria da população) e um grupo industrial com uma acentuada vocação para o monopólio. O pano de fundo é a crise financeira que fez com que as vendas de automóveis despencassem na Itália e em todo o mundo, deixando muitos fabricantes - entre eles a Fiat - em situação complicada. Mas para a empresa de Turim, essa não era a única preocupação: com ou sem crise, sua rival americana Ford vinha mexendo os pauzinhos para se instalar no país, onde já montava veículos a partir de kits CKD na cidade de Trieste, que naquela época desfrutava do status de zona franca.


O presidente e principal acionista da Fiat, Giovanni Agnelli, não tinha muita simpatia pelo fascismo, até por acreditar que o poder de mobilização desse movimento e a truculência de seus métodos poderiam lhe trazer sérios dissabores na área trabalhista. Além disso, o discurso oficial do partido (e do governo italiano, por extensão) pintava os grandes industriais como maus cidadãos e inimigos da economia popular. Mas na hora do aperto, Agnelli optou pelo pragmatismo e foi pedir ajuda a Mussolini. Era exatamente o que o Duce queria: a oportunidade de trazer Agnelli para o seu lado sem fazer força.

Apesar de suas diferenças, Agnelli e Mussolini tinham algo em comum: a certeza de que era preciso fazer algo para cortar as asinhas da Ford. Dois decretos em rápida sucessão, o primeiro determinando um forte aumento nos impostos de importação de componentes, o segundo proibindo a venda de automóveis importados "por motivos de superior interesse nacional", se encarregaram de resolver a questão.

Em contrapartida, a Fiat se comprometia a lançar um novo modelo para ser comercializado a preços populares, algo que a empresa nunca havia feito antes. Um automóvel ao qual todos pudessem ter acesso, e não apenas o público elitizado ao qual os seus produtos eram dirigidos até então.

Do ponto de vista do governo, isso ajudaria a manter os níveis de ocupação na indústria e demonstraria que a economia ia bem, graças sobretudo à sagacidade de Mussolini como grande mentor dos destinos da nação. E tão importante quanto isso, o novo automóvel ajudaria a fortalecer a auto-estima dos italianos. Não só os que efetivamente o adquirissem, mas a população como um todo.

Oficialmente, como era de praxe na Fiat, o novo automóvel recebeu a designação numérica de 508. Mas desde o início, o apelido Balilla fora escolhido para fazer parte de sua identidade. Essa era mais uma contrapartida de Agnelli ao apoio recebido de Mussolini.

Mas por que Balilla? O nome se referia a um personagem a meio caminho entre a história e a lenda, um menino de identidade incerta que em 1746, na cidade de Gênova, arremessou uma pedra contra as tropas de ocupação austríacas, desencadeando a revolta popular que as faria bater em retirada.


Para a ideologia fascista, que exaltava valores como o nacionalismo e o destemor juvenil, a figura de Balilla parecia feita sob encomenda. Antes mesmo da chegada do novo Fiat, seu nome fora apropriado pelo regime para batizar uma organização paramilitar destinada à doutrinação do público infanto - juvenil. Portanto, um automóvel com esse nome teria a dupla virtude de remeter tanto ao herói mirim do imaginário político nacional quanto a uma iniciativa especialmente cara a Mussolini, com forte penetração nos lares de toda a Itália.


O lançamento do Fiat Balilla foi feito em grande estilo, a começar pela apresentação oficial ao Duce em Roma, nos jardins da residência oficial. Seguiram-se a apresentação ao público na ala dedicada aos automóveis da Feira de Milão, o giro promocional pelos quatro cantos do país, as imagens do carro junto às principais celebridades do momento. Tudo documentado em fotos e filmes para divulgação através da imprensa e dos cinemas, na época um importante canal de comunicação noticiosa e publicitária.



A Fiat também caprichou na propaganda propriamente dita. Uma das peças mais emblemáticas da campanha era o poster em que um garoto reproduzia o gesto de Balilla com o novo automóvel ao fundo.

 
Mas talvez a mais curiosa de todas fosse o filme que se pode ver abaixo, em que a Fiat posiciona o Balilla contra o ônibus, o bonde e até mesmo o hábito de andar a pé. Se algum arauto do politicamente correto assistir esse engraçadíssimo desenho animado nos dias de hoje, seria bem capaz de mover uma ação contra a Fiat, em caráter retroativo, por incentivar comportamentos social e ambientalmente reprováveis.



Mas e o automóvel Fiat Balilla, como é que fica nesse enredo à base de trocas de favores políticos, manipulação da opinião pública e oba-oba publicitário? A resposta é: muito bem, obrigado. Felizmente, a Fiat contava em seu corpo técnico com engenheiros de grande competência, que projetaram um automóvel robusto, confiável e de fácil condução. Uma espécie de Ford Modelo A à italiana, mais convencional em sua concepção do que os seus contemporâneos franceses, e menos rústico e temperamental que os ingleses na mesma faixa de preço.

O carro chegou ao mercado custando pouco mais que dez mil liras, praticamente a metade do preço do Fiat mais barato até então. Ainda estava longe das cinco mil liras preconizadas por Mussolini, mas milagre não se faz por decreto.  

Graças a essa conjunção de fatores, o Balilla estabeleceu a fama da Fiat como fabricante de carros pequenos de boa relação custo-benefício. Foi o pioneiro de uma longa e bem sucedida linhagem de modelos que perdurou até o final dos anos 1960, quando o último Millecento deixou a linha de montagem. E apesar de ter nascido para ser apenas um honesto carro de passeio, serviu de base para inúmeras versões esportivas. Talvez o maior tributo a esse automóvel seja o fato de que hoje o nome Balilla é associado prioritariamente a ele, e não aos outros Balillas que seu fabricante pretendia homenagear.

13 comentários:

Belair disse...

Adverdraivi tumbein e' curtura!
Gostei da historia PL.Muito bom post.

Paulo Levi disse...

Obrigado, Belair. As nóis cresce nas arvi, e a curtura anda de artomóvi!

Luís Augusto disse...

Realmente, mais uma bela história muito bem contada, PL! O Balilla foi mesmo um marco para os italianos e ficou bem documentado nos filmes de propaganda fascistas. Não ficou tão icônico como o Volkswagen ou o 2CV talvez por ter sido concebido um pouquinho antes desses, em bases bem mais ortodoxas. Mas abriu o caminho para o Topolino, esse sim, um ícone.

Anônimo disse...

Oi Paulo, Muito bom! Adorei o desenho animado! O tiro na crise resolveu tudo! E dizer que aqui quase voltamos ao tempo da mulher que carrega um monte de pacotinhos!
Um beijo,
Marilia

Anônimo disse...

Ola,Paulo Levi.Adorei o texto o filminho e o novo conhecimento,já que nada sabia sobre isso!
Agradecida,
Germaine.

Anônimo disse...

" Governos autoritários de perfil populista sempre reconheceram no automóvel um eficaz instrumento para conquistar e manter a adesão de seus governados. O exemplo mais notório é o..." pensei " ... o Brasil de 2012 de Dilmandona "! mas aí o senhor continuou com hitler... mussolini, fascismo... fascismo... fascismo... populismo... populismo... fascismo... Mas gostei. Não sabia da história e gostei de lê-la. Pena que, aqui, não ajudaram o Gurgel com o BR-800. Seria hoje a GURGEL S.A., com ações em Bolsa, competindo com a Hyundai e JAC Motors ! A Volks de hitler, taí. A FIAT, do fascismo, taí também ! Caqui... nos ptelhamos, peeseedebundamos, peemedebundamos, pefeélenosfufemos e mililicamos todos !

A história do moleque revolucoinário se repete em vários lugares.. não é incrível ? Tem um quadro, com um garoto de cara braba, liderando o povão( ha !) na Revolução Francesa. É o novo... que sempre vem. Mas também uma bela jogada do malandros fazedores de cabeça através dos tempos. Já viu algum moleque liderar alguma coisa hoje em dia ? Aliás, os primeiros a correr são estes moleques com uma única exceção que vem da ilha de Cuba ! Os castristas, fascistas de lá,da ilha esquerdista, cujo um dos chefes era um tal de Tche Nasvaras, dizem que o chefe desta quadrilha pegou um moleque que se recusou a se ajoelhar para o meliante fascista barbudo e chefete de mierda e este deuum teco na nuca do menino. O pai tinha sido morto pelo FASCínora. Dizem que Tche se levantou e, sorrindo, foi falando palavras amistosas até o menino mas foi chegar atrás do garoto... Teco na nuca ! foi numa tal fortaleza de lá... Este menino ainda não teve nenhum quadro, desenho... será que terá um, no futuro ? Bom, menino revolucionário é como achar disco-voador hoje em dia. Só facção criminosa aqui tem uns porque a lei protege os moleques... Estatuto da Criança e do Adolescente. O mundo todo tá prendendo garoto de 12, 13 anos, algemando as feras e, aqui, a gente, dando uma de humanistas- progressistas de meia tigela, passando a mão na cabeça deformada de alguns boçais adolescentes... Os regimes fascistas ( comunistas, socialistas... ) também usavam a garotada para dedodurar os amigos, os pais dos amigos, os próprios pais e os parentes... um horror ! me lembrei ! Aqui não temos uma Volks ou FIAT mas temos o Ministério do Trabalho ! Criado pelo fascista Getúlio Vargas. Desfile de Escola de Samba, se voces não sabem, é coisa fascista também... A organização, "desfile", foi criada naqueles tempos getulistas... HA ! E a Olga foi parar com os nazo-fascistas ! E o cavaleiro da esperança se tornou aliado do Getúlio ! Quanta mendacidade ! Carnaval e desfile... Bunda de fora mas tudo organizadozinho... Povão, este eterno iludido, ama ! Curuntia ou meia Boca ? O neo fascismo argentino merece uma festa hoje...



M.C.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Paulo Levi disse...

M.C., você resumiu tudo com a seguinte frase: "É o novo... que sempre vem". Como observou o filósofo Giovanbattista Vico, a história é cíclica. O que aconteceu na Itália de Mussolini deve ter acontecido antes em outros lugares e em outras épocas, e certamente está se repetindo agora em diversas partes do mundo.

Quanto ao seu outro comentário, eu o removi porque o Adverdriving tem por norma não aceitar comentários ou links de caráter ostensivamente político. Obrigado pela sua compreensão.

Paulo Levi disse...

Luís,
Você tem razão, do ponto de vista automotivo o verdadeiro ícone da Fiat desse período é o Topolino. A importância do Balilla está muito mais no fato de ter aberto os olhos do fabricante para o potencial do mercado para automóveis pequenos e de preço baixo.

Paulo Levi disse...

Marília e Germaine, obrigado pela visita e pelos comentários!

Anônimo disse...

...compreensão... Não, não compreendi, não. Li o que escreveu ee está cheio de política. Mas compreendo o senhor ser dono do blog. Por ser autoritário( mas educado), compreendo retirar o que bem entender mesmo não ter ido contra o senhor( será ?) ou alguém que tenha feito algum comentário. O artigo que colei é de importância histórica e me parece , de alguma maneira, complementar o que escreveu. Compreendo o senhor não ser um democrata. Mas compreendo o senhor ser dono do blog.

"Libertas virorum fortium pectora acuit "
Tito Lívio



abs.



M.C.

marcia disse...

oi senhor paulo achei melhor da feliz aniversario por aqui muita saude e paz marciapiza

Paulo Levi disse...

Obrigado, Márcia! Muita paz e saúde é o que eu desejo também pra você e sua família.