sábado, 12 de maio de 2012

Salve, Roy!


Hoje, dia 12 de maio de 2012, Roy Salvadori faz 90 anos. É uma boa ocasião para revisitar a carreira desse piloto nascido em Dovercourt, na Inglaterra, um dos mais atuantes no automobilismo internacional dos anos 1950 e 1960. 

Salvadori estreou nas pistas em 1946, quando o lendário Tazio Nuvolari ainda estava na ativa, e só parou de correr em 1965, quando Jackie Stewart começava a despontar para o estrelato. Apesar da evidente ascendência italiana - seu nome completo é Roy Francesco Salvadori - dificilmente poderia haver um piloto mais representativo do automobilismo britânico de sua época do que ele.

Mesmo depois de se tornar conhecido internacionalmente, Roy Salvadori continuou a prestigiar as provas do calendário inglês em circuitos como Oulton Park, Aintree e Crystal Palace. Estreou na Fórmula 1 em 1952 com um Ferrari particular, pilotou alguns carros da Maserati até 1956, mas depois disso competiu quase que exclusivamente com carros produzidos na Inglaterra.

Sua relação mais duradoura foi com a Aston Martin, marca pela qual venceu as 24 Horas de Le Mans de 1959 em dupla com Carroll Shelby (por uma triste coincidência, Shelby faleceu poucas horas antes da publicacão deste post). Como piloto oficial da Cooper, chegou em quarto lugar no mundial de Fórmula 1 de 1958, seu melhor resultado na categoria. Em parceria com Briggs Cunningham, levou um Jaguar E-type ao quarto lugar nas 24 Horas de Le Mans de 1962, atrás apenas do Ferrari 330 TRI vencedor e de duas berlinetas GTO - um feito extraordinário para um modelo de produção em série. E para completar o seu currículo de defensor das cores do Reino Unido, também pilotou para a Connaught, a Vanwall, a BRM e a Lola.


Se Le Mans foi palco de algumas das mais brilhantes atuações de Roy Salvadori, foi também onde sofreu o mais grave acidente de sua carreira. O ano era 1963, e a sequência de eventos teve início quando o Aston Martin de Bruce McLaren quebrou uma biela na reta de Mulsanne, despejando todo o seu óleo bem na entrada da curva do mesmo nome. Sem conseguir evitar a poça, Salvadori, que vinha logo atrás em seu Jaguar, rodopiou e bateu violentamente em um barranco. Foi ejetado pelo vidro traseiro, ficando estirado no asfalto enquanto o fogo tomava conta de seu carro. Enquanto isso, outros concorrentes também batiam no mesmo local, entre os quais o francês Jean-Pierre Manzon. Consciente apesar do impacto, Salvadori presenciou horrorizado a parte mais trágica desse acidente: a morte do piloto brasileiro Christian 'Bino' Heins, preso às ferragens enquanto seu Alpine-Renault era consumido pelas chamas sem que os fiscais de pista tomassem qualquer providência para socorrê-lo.

Salvadori nunca teve dúvida em atribuir aos organizadores das 24 Horas a responsabilidade pela tragédia, a começar pelo fato de não terem acionado os painéis luminosos de advertência que haviam sido inaugurados justamente naquele ano. E mesmo depois de recuperado, nunca mais quis saber de participar de outra prova em Le Mans.

Outro acidente que sofreu, felizmente sem outras consequências além de um grande susto, aconteceu em Oulton Park quando um dos pneus dianteiros de seu Jaguar MkII 3.8 estourou em plena curva a 140 km/h. Depois de capotar várias vezes, o carro foi parar dentro de um brejo. Salvadori conseguiu sair por uma das portas traseiras do Jaguar semi-submerso, para o alívio (e os aplausos) dos presentes.


De todas as vitórias que obteve em sua carreira, a que lhe deu mais satisfação aconteceu em 1963, menos de três meses depois do acidente em Le Mans. De volta ao volante de um Aston Martin, o oriundo Salvadori venceu a Coppa Inter-Europa em Monza, derrotando Mike Parkes e sua Ferrari semi-oficial depois de um duelo que se estendeu por toda a duração da corrida. Foi bom vencer em Le Mans, mas ganhar da Ferrari em sua própria casa teve um sabor todo especial.


Fora das pistas, Salvadori era um personagem e tanto. Com sua pinta de crooner ítalo-americano, fazia muito sucesso entre as mulheres. Um de seus apelidos era "smoothadori", um trocadilho que tinha menos a ver com seu estilo de pilotagem (que estava mais para o pé-de-chumbo) do que com os seus dotes de conquistador.

Roy Salvadori é hoje um dos mais idosos ex-pilotos da Fórmula 1. Por poucos meses, ganha em senioridade do argentino José Froilán González. Mas também não é o decano da categoria: esse título pertence ao francês Robert Manzon, que já passou dos 95. Por uma curiosa coincidência, o filho de Manzon é o mesmo Jean-Pierre Manzon que também se acidentou em Le Mans 49 anos atrás.

A Roy Salvadori, os parabéns do Adverdriving pelos 90 anos de uma vida muito bem vivida.

Imagens: Motorsport.com, via YouTube (Salvadori no cockpit sendo entrevistado,  Jaguar MkII acidentado em Oulton Park, Aston Martin 214 em Monza); www.offroadexperience.com/wcb/aminfo1959.htm (Aston Martin DBR1 em Le Mans, 1959)

6 comentários:

Belair disse...

Parabens a voce tambem PL.Pelo post.

Francisco J.Pellegrino disse...

Acompanho os votos do Belair, excelente post, atualíssimo...

Joel Gayeski disse...

Mais uma pequena aula de História.
O automobilismo desa época me fascina.

F250GTO disse...

Bela história, de uma belíssima época do automobilismo, que não volta mais.
O romantismo daquela epoca é imortal.
Parabens Levi, pelo ótimo post e ao Salvatori pelos 90 anos bem vividos.
Romeu

Ron Groo disse...

Sem ser didático, me ensinou um monte de coisas que eu nem fazia ideia.

Leitura prazerosa e instrutiva.

Paulo Levi disse...

Amigos, obrigado pelos comentários!