sábado, 21 de abril de 2012

Noturno paulistano

 Que tal um passeio noturno por uma São Paulo bem diferente da atual, com direito a uma vinheta de áudio ao estilo vintage como saideira? Gostou da idéia? Então, vamos lá.

Estamos em 1965 e São Paulo já é a maior cidade do país, embora ainda guarde um pouco do acanhamento provinciano dos tempos em que era apenas um vilarejo como tantos outros. Nos restaurantes, a carne é dura e o macarrão é mole. Nas ruas, velhos taxis Ford e Chevrolet ainda disputam passageiros com Fuscas cor de laranja e com DKWs dos mais diversos matizes. A poluição já faz parte do cenário, mas não com esse nome - a palavra é smog. Da mesma forma, "balada" se refere a um gênero musical, "minhocão" é sinônimo de ceroula, e "marginais" são os que vivem fora da lei.

Seria fácil imaginar que na São Paulo de 1965 o trânsito corre livre e desimpedido. Ledo engano: congestionamento é o que não falta, e a engenharia viária é uma ciência praticamente desconhecida. Mas pelo menos à noite, dirigir um automóvel pode ser um prazer. Por avenidas como a Brasil, a Rebouças e a 9 de Julho, o trânsito flui em velocidade de cruzeiro. E como a gasolina ainda é relativamente barata, rodar por aí sem destino certo (ou ir tomar café no aeroporto, que dá no mesmo) é o programa favorito de muita gente - mesmo que o carro seja um notório beberrão, como o Simca Jangada que vemos aí embaixo.


Quem passeia à noite pela São Paulo de 1965 dificilmente se perderá, pois conta com um ponto de referência que pode ser avistado de longe e de várias partes da cidade: o relógio da Willys instalado em um enorme painel no topo do Conjunto Nacional, onde a Avenida Paulista se encontra com a Rua Augusta. Além de dar as horas e ajudar as pessoas a se orientarem, é um marco da cidade tão identificado com ela quanto o Viaduto do Chá e o Monumento às Bandeiras.


E se já estiver perto das onze horas, a dica é sintonizar a Rádio Eldorado para ouvir o Noite de Jazz, programa imperdível para os apreciadores do gênero. Com a música de Oscar Peterson ou Chet Baker como trilha sonora, São Paulo parece deixar entrever a cara da cidade cosmopolita em que viria a se transformar algumas décadas depois.

Nosso passeio está chegando ao fim. Para completar, só falta ouvir a vinheta do programa Noite de Jazz. Clique no player aí embaixo, reveja as imagens que ilustram este post, e por alguns segundos você estará de volta a uma São Paulo que deixou saudade em muita gente. Eu inclusive.



Imagens: revista Quatro Rodas (Simca Jangada); propaganda Willys Overland do Brasil (relógio Willys)
Imagem do thumbnail: reprodução do livro Aero-Willys, O Carro que Marcou Época (Ed. Alaúde), de Rogério de Simone e José Antonio Penteado Vignoli

12 comentários:

Joel Gayeski disse...

E eu me enrolando há anos pra ir pra SP...

Sobre o trânsito, aqui mesmo em Caxias do Sul - RS com 400 mil habitantes já é um caos, imagino aí.
Será que é tão difícil assim pros governos municipais incentivarem o uso de ônibus e obrigar as empresas a colocar mais linhas?
E essas empresas, é difícil pressionar os governos pra que se reduzam impostos pra compra dos mesmos?

Belair disse...

Congestionamentos realmente nao faltavam,o que transformou o diretor do Detran de entao em celebridade(Fontenelle?nao tenho certeza,ja' estou velho...),e o prefeito Faria Lima seria o executor de varias obras viarias projetadas anteriormente por Prestes Maia.
Eu ja' nem lembrava que o relogio do Itau era da Willys.

Francisco J.Pellegrino disse...

PL, bons tempos de 1965, eu trabalhava no Lgo.São Francisco, pegava o bonde aberto ou o camarão para ir até a Estação do Brás, da Estrada de Ferro Santos à Jundiaí, a cidade já era um caos durante o dia ainda com os velhos taxis americanos e os novos fuscas e DKWs,..cidade cosmopolita, a gente de paletó e gravata aos 16 anos de idade...o Penha-Lapa, o Bola Branca prá Santo Amaro, o Joquéi, a Augusta...as lojas da Rua São Bento, a Florencio e aquele monte de ferramentas que moviam os nossos sonhos, as revistas americanas.....o contra-filé com fritas...deixa prá lá vai...

Anônimo disse...

... e M.C., escreve: Podium Renault no Bahrein. Red Bull, Lotus e Lotus. A Mercedoca, a ajudada da hora, sumiu e o Roscaberg deveria ter 2 stop-and -go mas ficou só no go ! Go, Roscaaberg, go ! São Paulo, 1965. Meu pai dizia ser uma cidade bacana ! Comida sempre foi o forte da grande metrópole. Saber onde ir jantar, almoçar... Terra da Garoa, chuvinha que dava um charme danado, europeu, à hoje terra da enxurrada , terra da enchente, da violência. Nada incomum para um carioca. Lá como cá, decadência sem elegância alguma. Eu vivi mais os 1970 e 1980 de Sampa. Realmente, não é uma cidade que me seduz e, acredito, nem aos próprios paulistanos. Em feriados, vemos pela TV verdadeiras fugas para o litoral ou para serra. Nas férias de verão, a cidade fica "vazia" ! Se eles próprios não suportam a própria cidade porque forasteiros suportariam ?

Paulo Levi disse...

Joel, estive em Caxias em 2003 e deu pra perceber que o trânsito era bem complicadinho, principalmente nas áreas mais próximas ao centro. Não sei se a esta altura a cidade já tem um anel viário, mas se não tiver precisará ter logo, logo.

Um dos grandes problemas do trânsito de SP é que a rede do metrô ainda é muito pequena em relação à área urbana e ao número de habitantes. Santiago do Chile, que deve ter um terço da população de SP, tem uma rede de metrô muito mais abrangente.

Quanto à questão dos ônibus urbanos, esse é um verdadeiro ninho de marimbondos. Há muitos interesses em jogo, nem sempre legítimos. Mais que isso, prefiro não comentar - o assunto foge ao escopo deste blog, e eu prezo minha integridade física.

Paulo Levi disse...

Belair, o Cel. Fontenelle era mesmo uma celebridade nacional naquela época, e "causou" muito na sua passagem por São Paulo. Lembro que era adepto de ações drásticas e que tivessem grande repercussão na mídia, como esvaziar pessoalmente os pneus dos automóveis estacionados em lugar proibido. Apesar da aparência atlética, morreu jovem - devia ter uns 50 anos quando muito.

Paulo Levi disse...

Poxa, Francisco... se eu já fiquei meio nostálgico na hora de escrever esse post, o seu comentário me fez mergulhar ainda mais nesse sentimento. Mas é como você falou: deixa pra lá, e vamos em frente que atrás vem gente!

Paulo Levi disse...

MC,

Vou responder seus comentários sobre a Renault e o GP do Bahrein no espaço apropriado para isso, que é a caixa de comentários do post anterior.

Quanto às suas considerações sobre a cidade de São Paulo, respeito os seus pontos de vista. Mas de uma coisa eu tenho certeza: se você visitar esta cidade com o espírito desarmado e sem idéias preconcebidas, será muito bem recebido. Exatamente como é recebido neste blog.

Anônimo disse...

"...se você visitar esta cidade com o espírito desarmado e sem idéias preconcebidas, será muito bem recebido...". Deixa eu ler de novo o que escrevi... Voce disse que " Nos restaurantes, a carne é dura e o macarrão é mole " . eu escrevi o que meu pai me passou desta mesma época... Comida sempre foi o forte da GRANDE METRÓPOLE ! Êpa ! Falo da chuva fina que dá(va)um charme danado à cidade e comparei-a a uma cidade européia... 2º Êpa ! Não é uma cidade que me seduz e isto está escrito até em revistas. Uma delas disse que São Paulo é a cidade que todos os brasileiros amam odiar ! Nem cheguei a isto ! Inveja ? não... Ela não seduz como Paris, Nova York, Buenos Aires, Londres, Roma, Tóquio... Faço comparação com o Rio de Janeiro. Já escutei muitos dizerem ser duca isto aqui e outros uma mer...cadoria ! Extremos ! Ou seja, a cidade ex-maravilhosa ainda mexe com as pessoas. São Paulo fica o pessoal meio assim, assim... E ainda chamei as duas de decadentes e deselegantes ! Pô, o Tietê ainda fede e transborba ! A baía de Guanabara ninguém dá jeito. Violentíssimas as duas ! Fazer o quê ? Voce deve ter ficado chateado porque joguei vocês, paulistanos, contra a própria cidade. Feriado todo mundo se manda ! Férias, a cidade fica vazia, sim ! muita mais que outras cidades da mesma força e magnitude de São Paulo. Quem tem dindin se manda ! Não tem teatro, restaurante, cinema... e pontos turísticos que segure ! E é cara ! Vale a pena pegar o avião e ir prá Buenos Aires ou Santiago... vou à São Paulo desde os meus 4 anos e continuo com o mesmo sentimento... assim, assim...

Ron Groo disse...

Nossa, mas me deu uma saudade de andar em SP noite a fora...
Mas sabe, amo o jazz, só que quando ando em SP eu prefiro ouvir Adoniran Barbosa.
Não há pra mim fotografo mais preciso da capital dos paulistas que o velho João Rubinato.

Joel Gayeski disse...

Paulo

De lá pra cá a coisa só piorou
O Centro é apertado, cheio de rodas-presas atravancando o trânsito.
E mais, qualquer chuvinha e o povo se arraaaasta.

Sobre o transporte coletivo, aqui impera a Visate, monopolista e cheia de si que tem um dos melhores serviços do País. E os piores, o que são?

Francisco J.Pellegrino disse...

Eu já cansei de entrar em embates tentando defender a cidade de S.Paulo, só quem vive aqui sabe das coisas boas e ruins, enchente por aqui não é novidade nenhuma, meu avô não conseguia levar as cargas de pedra britada da pedreira de Mauá pois alí no Ipiranga,perto da Parada Vemag (coisa prá quem conhece aqui),perto da antiga PUMA, estava sempre alagado e o trem não passava, tb não passavamos pelas cercanias do Mercado Municipal (nosso templo das gostosuras,aí minha vesícula)...o que realmente não se tem mais por aqui é a famosa garoa paulistana, aquele fog paulistano, isto dizem é por conta do aquecimento global, nos feriados prolongados em qualquer grande cidade do mundo as pessoas viajam..me parece normal, aí é que a cidade fica melhor ainda, a gente pode escolher o restaurante,é uma cidade cara, com certeza como toda grande cidade do mundo aqui tb as coisas são caras..não vou comentar do Masp nem da Pinacoteca pois a maioria não tem interêsse no assunto,tb não vou me prolongar nesta ladainha..moro na periferia que praticamente é um bairro de S.Paulo, minha querida St.Andrès sur Mér !