segunda-feira, 9 de abril de 2012

De olho no sapato alheio (Parte 2- Final)

Na história do esporte automobilístico, não poderia haver personalidades mais contrastantes que as de Enzo Ferrari e Bruce McLaren. Os dois eram antípodas em tudo, e não só na localização de seus respectivos países. Enquanto o italiano impunha sua autoridade pela pressão psicológica, ou mesmo no grito, o neozelandês liderava pelo exemplo. Pegava no breu junto com os mecânicos de sua equipe e valorizava as opiniões de todos os seus colaboradores. Poucos donos de equipe foram tão amados e respeitados quanto ele. 


Mas apesar das diferenças que o separavam do Commendatore, Bruce também olhava para o sapato alheio. E também tirava conclusões a respeito do usuário. Não com o intuito de juntar provas para desqualificar um desafeto, como fez Enzo em relação a Wifredo Ricart, mas por puro espírito de observação.

Isso aconteceu em 1960, quando Bruce foi convidado a participar de uma prova para carros esporte em Laguna Seca, na Califórnia. Pilotando um Jaguar de Briggs Cunningham, chegou em um inesperado quinto lugar, o que lhe valeu um convite para juntar-se à equipe do esportista e mecenas americano. Bruce era piloto oficial da Cooper na F1, mas mesmo assim aceitou. Como se vê, o automobilismo daquele tempo era bem mais ecumênico que o de hoje...

No aeroporto de Los Angeles, enquanto aguardava o vôo de volta para a Inglaterra, Bruce fez amizade com outro piloto que havia competido em Laguna Seca, um americano que não só era formado em engenharia como ele próprio mas também tinha a sua idade, 22 anos. Não bastassem essas coincidências, em questão de semanas o rapaz também passaria a fazer parte da equipe Cunningham. Roger Penske era o seu nome.


A experiência do convívio com Penske fez Bruce ficar fascinado com o seu profissionalismo em tudo o que se propunha a fazer. Sua obsessiva atenção aos detalhes não se limitava a questões como a preparação dos seus carros e a sua estratégia de corrida, mas se estendia aos cuidados com a aparência pessoal e o vestuário. "Você sabia que ele engraxa até os calcanhares dos seus sapatos?" perguntava Bruce entre incrédulo e admirado. Nem na F1 havia tamanho perfeccionismo.


Roger Penske podia até exagerar na dose, mas de uma coisa ninguém podia duvidar: os seus métodos davam resultado. E apesar da tendência a planejar tudo, também sabia improvisar quando necessário, claro que de forma calculada. A maior prova disso era o Zerex Special, um carro que não só o levaria às suas maiores conquistas como piloto mas também desempenharia um papel importante nos rumos da carreira do próprio Bruce McLaren.

A gênese do Zerex Special não poderia ser mais improvável, já que ele foi construído a partir do Cooper com o qual Walt Hansgen sofrera um acidente no GP dos EUA de 1961. Penske comprou esse carro no estado em que se encontrava e o transformou em um biposto, ainda que o segundo banco fosse só "para inglês ver". No lugar do motor Coventry Climax de 1.5 litros, instalou uma unidade de 2.7 litros igual à que Jack Brabham havia utilizado em indianapolis em 1959. A suspensão dianteira veio de um Triumph Herald, a caixa de direção de um Morris Minor. A confecção da carroceria em alumínio e a montagem final ficaram a cargo de dois mecânicos de confiança trabalhando em uma pequena oficina na Pensilvânia. Ao volante desse carro, Penske dominaria o campeonato americano para carros esporte de 1962, conquistando ainda uma memorável vitória em Brands Hatch no ano seguinte.


O sucesso do Zerex Special pegou muita gente de surpresa. Mas não Bruce McLaren, que sabia muito bem do que Roger Penske era capaz.

No começo de 1964, o carro já não era mais competitivo e juntava poeira numa garagem no Texas quando Bruce fez uma oferta por ele. Mandou transportá-lo até a sua oficina em Surbiton, na Inglaterra, onde o submeteu a uma reforma geral. Retirou o velho motor Climax e em seu lugar instalou o V8 de alumínio do Oldsmobile F-85. O trabalho foi feito a toque de caixa para que Bruce pudesse participar de uma corrida programada para junho do mesmo ano no circuito canadense de Mosport Park.

Diplomaticamente rebatizado de Cooper-Oldsmobile (Bruce ainda era piloto oficia da  Cooper e não queria melindrar seu empregador), o ex-Zerex Special venceu de forma convincente e, mais que isso, demonstrou que tinha um enorme potencial a ser explorado. A confirmação viria em agosto, quando Bruce venceu com facilidade o Guards Trophy em Brands Hatch - a mesma prova que Roger Penske havia vencido dois anos antes.


Com a equipe Cooper cada vez menos competitiva na Fórmula1, Bruce McLaren decidiu que havia chegado a hora de se tornar construtor. Já tinha nas mãos uma receita de sucesso na forma do ex-Zerex Special, e o mercado para bipostos de competição de grande cilindrada se mostrava promissor, principalmente na América do Norte. Assim, antes que o ano acabasse, nascia o primeiro carro a levar o seu nome, o McLaren M1 - essencialmente, o próximo passo na cadeia evolutiva que teve início com o Cooper reconstruído por Roger Penske. Bruce estava certo em sua intuição: um homem que engraxa até mesmo os calcanhares de seus sapatos não faria as coisas pela metade.

6 comentários:

Belair disse...

Muito legal PL!Seu texto flui mui agradavelmente(tava buscando um jeito de usar esse "mui").
Essa obsessao do Penske infelizmente nao se extende aos seus negocios no Brasil.Talvez porque o genro nao seja tao perfeccionista como o sogro.
Ja' esse motorzinho de aluminio da Olds deve ser o mesmo da Buick que equipou os Range Rover ate' a BMW assumir,nao?Merece certamente ter sua longa historia(40 anos?) de servicos prestados contada.

Francisco J.Pellegrino disse...

Mui agradável o texto como sempre...aprendí mais hj...Roger Penske é uma lenda...

Felipe Mortara disse...

Paulão, que história maneira. Curti muito.

Continue mandando bala!
Abraço,

Felipe

Ron Groo disse...

Pode-se dizer então que a Mclaren, enquanto construtora de carros, foi inspirada em Penske?

cada vez aprendemos algo diferente aqui.

Paulo Levi disse...

Amigos, obrigado pelas amáveis palavras. Aproveitando o advérbio aqui reabilitado pelo Belair e pelo Francisco, fico devera mui honrado.

Respondendo ao Groo, não há dúvida de que o Zerex Special que serviu de base para o Cooper-Oldsmobile de Bruce foi o marco zero da McLaren como construtora. Oficialmente, o McLaren M1 foi o primeirão, mas o Cooper-Oldsmobile merece esse título de fato. Vale notar que antes de comprar o Zerex Special Bruce tentou convencer a Cooper a produzir um carro com o mesmo conceito, mas Charles Cooper nem quis ouvir falar na idéia. Para ele, piloto tinha que pilotar, e não dar palpites sobre a construção de automóveis.

Outra coisa: sem os sucessos da McLaren na CanAm, o caminho da marca na F1 teria sido ainda mais difícil do que foi. A McLaren pastou muito nos dois primeiros dois anos em que participou da categoria (66/67). A reputação que construiu na CanAm nesse mesmo período foi fundamental para credenciá-la a usar os motores Cosworth na F1 a partir de 1968.

Paulo Levi disse...

Ops...onde se lê "devera" leia-se "deveras".