domingo, 18 de março de 2012

Lições da Acrópole

Em maio de 1962, Kurt Gumpert mal conseguia conter seu entusiasmo: aos 64 anos, iria finalmente participar de uma grande prova automobilistica internacional. Um sonho que o acompanhava desde a juventude em sua Alemanha natal, mas que sempre tivera de ser adiado. Primeiro, pela crise monetária que se abateu sobre o país logo após a Primeira Guerra Mundial; depois, pela ascensão dos nazistas ao poder. Gumpert, que era de religião judaica, precisou fugir para salvar a própria vida. Foi parar em Xangai, onde passou a Segunda Guerra trabalhando como motorista para um oficial do exército americano. De lá foi para Israel, onde adotou a cidadania do país e se empregou como técnico em planejamento e construção de rodovias. 

Mas agora, todas as dificuldades haviam ficado para trás e Gumpert poderia finalmente realizar o seu sonho. A oportunidade surgiu na forma de uma feliz coincidência: o lançamento, havia menos de um ano, do Sabra, primeiro automóvel esportivo fabricado em Israel.


Projetado pela britânica Reliant Cars Ltd., o Sabra era um conversível de dois lugares com carroceria em fibra de vidro. A mecânica era a do Ford Consul, sem maiores modificações. Portanto, apesar da aparência esportiva, o desempenho era pouca coisa melhor que o de um humilde carro de passeio. Mas isso era o de menos para Gumpert, que foi bater à porta de seu fabricante, o empresário Yitzhak Shubinsky, para convencê-lo de que poderia alavancar a imagem do novo modelo, dentro e fora do país, se o inscrevesse em uma prova do campeonato europeu de ralis. Providencialmente, haveria um evento desses por perto: o Rali da Acrópole, na Grécia. Os argumentos de Gumpert devem ter sido bastante convincentes, pois Shubinsky aprovou a idéia na hora.

Para seu co-piloto, Gumpert convidou o jovem Amos Zuravsky, que conhecia desde o tempo em que prestava serviços para o exército israelense. Zuravsky era tão fanático por automobilismo quanto ele, e além disso possuia bons conhecimentos de mecânica, já que seu pai era do ramo e ele mesmo exercera a função de supervisor de frota no exército.

Assim, Gumpert e Zuravsky embarcaram para a Grécia em companhia do Sabra, meticulosamente revisado na própria fábrica e pronto para o que desse e viesse. Do porto de Pireu foram rodando até a vizinha Atenas, onde se deliciaram com as atenções do público e da mídia. Havia até equipes de televisão, algo inexistente em Israel na época. Por alguns instantes, chegaram a acreditar que poderiam fazer bonito no rali.


Mas aí as equipes européias foram chegando, e os dois começaram a desconfiar que talvez sua missão não seria tão simples quanto imaginavam. Todas contavam com caminhões de apoio, batalhões de mecânicos e um farto estoque de pneus e peças de reposição. Anos depois, relembrando a experiência em uma entrevista ao jornal israelense Haaretz, Zuravsky diria: "tudo o que tinhamos era uma chave inglesa - e olhe lá".


A largada aconteceu à sombra do Partenon, em meio aos flashes dos fotógrafos e ao entusiasmo do público. Com o dia claro e rodando por caminhos asfaltados, tudo correu sem problemas. Só à noite, nos trechos cronometrados, é que o Rali da Acrópole começou a mostrar o que realmente era: uma perseguição alucinada por estradinhas de montanha sem pavimentação nem guard rails, com um precipício de um lado e um paredão rochoso do outro. Os Mercedes, Volvos e Saabs das equipes de ponta passavam pelo Sabra como rojões, contornavam as curvas no limite da aderência e sumiam na escuridão da noite em meio a grandes nuvens de poeira, deixando Gumpert e Zuravsky de cabelo em pé com o arrojo de seus pilotos.

Já cansado, e provavelmente desmoralizado pela esmagadora superioridade dos adversários, Gumpert perdeu o controle do Sabra em um hairpin e bateu de frente numa rocha. Por sorte o impacto não atingiu o radiador, mas entortou a  suspensão dianteira, deixando o carro praticamente indirigível.

Zuravsky assumiu o volante e seguiu em frente do jeito que dava. Queria levar o Sabra até o final, nem que fosse para dar uma satisfação ao dono da empresa que havia confiado neles. E teria que fazê-lo sozinho, já que Gumpert se encontrava em um estado semi-catatônico devido ao acidente e ao choque de realidade. 

Apesar da determinação de Zuravsky, o Sabra acabou ficando pelo caminho: no terceiro e último dia do rali, a ventoinha elétrica do radiador entrou em curto quando faltavam menos de 300 km para a chegada. Exaustos, cabisbaixos e cobertos de poeira da cabeça aos pés, Gumpert e Zuravsky não sabiam o que dizer a Yitzhak Shubinsky. Mas o fabricante do Sabra, que era um tipo bonachão, se mostrou compreensivo e ainda insistiu para que os dois tirassem alguns dias de férias num resort grego, com todas as despesas por sua conta.

De volta a Israel, Kurt Gumpert conseguiu exorcisar os fantasmas da Acrópole e recuperar seu velho entusiasmo, voltando a competir no automobilismo semi-improvisado do país. Só pendurou o capacete devido à idade, que não o impediria de casar com uma atriz da TV alemã e recomeçar a vida em seu país de origem. Morreu em Hamburgo em 1981, aos 84 anos.

Já Amos Zuravsky nunca mais participou de outra prova automobilística. Foi trabalhar na oficina de seu pai, e hoje é dono de um centro de inspeção veicular em Tel Aviv. Apesar dos pesares, a experiência no Rali da Acrópole lhe deixou boas recordações - e, principalmente, bons aprendizados: "Entendi que com aquele carro era impossível competir em um rali. Mas, o que é mais importante, entendi que eu não sabia pilotar. Pelo menos não naquele nível. Aqueles pilotos eram indescritivelmente profissionais e talentosos. O que eles faziam era coisa de cinema".


Texto baseado em matéria publicada na versão online do jornal israelense Haaretz em 4/02/2011

Imagens: http://www.cartype.com/pages/2595/sabra_brochures (ilustração folheto Sabra);  http://www.haaretz.com/weekend/magazine/one-for-the-road-1.341248 (imagem de Gumpert e Zuravsky com o Sabra); http://archive.historic.acropolisrally.gr/2004/common/pdf/ENTHETO_RALLY_HISTORIC_03.PDF (imagem carros do rali ao pé da Acrópole)

8 comentários:

Anônimo disse...

Oi Paulo,
Você já ouviu falar dos carros elétricos deles? Havia um projeto, mas nao sei se já estão funcionando...
Um beijo, Marilia

Francisco J.Pellegrino disse...

Mais um mistério desvendado...parabéns.

Anônimo disse...

... e M.C., escreve: ô do volante, gostei da história. Fui procurar a Sabra( planta que só dá lá... e os judeus nascidos em Israel, são apelidados "sabra". Estou certo ?) na internê e pouquíssima coisa escrita maaaassss... Autocars Co LTD ! E prá lá fui ! Deve valer uma baba um "novinho", prá colecionador. Ou até restaurado. Mas os camelos devem ter comido tudo... HA ! Folclore israelense... por causa da fibra... Achei lindo o carro !

Luís Augusto disse...

Gostei de saber da existência do Sabra. Estilo meio heterodoxo, mas é bom pensar que Israel teve seu próprio carro-esporte. Quanto à história dos pilotos, parece que foi em outra era....

Belair disse...

E o cara acabou dono da Control-ar,hahaha.
O Dr. gentilmente chamou de heterodoxo.Eu sou mais...cruel:e' FEIO mesmo!
Legal a historia,heroica.

Paulo Levi disse...

Marilia, já ouvi falar sim. Vou pesquisar esse assunto pra saber em que pé anda.

Um abraço - e obrigado pela visita!
Paulo

Paulo Levi disse...

Obrigado, Francisco e MC!

Abraços,
Paulo

PS - MC, essa história dos camelos comerem fibra de vidro é muito engraçada mesmo. Mas como você bem disse, é só folclore.

Paulo Levi disse...

Luís e Belair, fico feliz que vocês tenham gostado de ler sobre
essa aventura a la Brancaleone.

Quanto ao estilo do Sabra, acho que o carro é até mais feio do que precisava ser, principalmente por causa daqueles bizarros "garra-choques" e do recorte retangular dos paralamas traseiros. De qualquer forma, eu diria que está na média dos outros kit cars ingleses da mesma época.

Abraços,
Paulo

PS - Belair, dei muita risada com a menção ao CONTROLAR. E lembrei do Maurice Gatsonides, vencedor do Rali de Monte Carlo de 1953, que anos depois inventaria as câmeras de fiscalização de velocidade. Pimenta no dos outros...