sexta-feira, 30 de março de 2012

De olho no sapato alheio (Parte 1)

Tenho uma amiga pesquisadora, profissional experiente em entrevistas do tipo consumer intercept (aquelas feitas na rua e em outros lugares públicos), que costuma deduzir a classe social dos potenciais entrevistados a partir dos sapatos que usam. Pode parecer preconceituoso, mas geralmente funciona. Ela não perde o seu tempo abordando pessoas fora do target, nem faz que essas pessoas percam o tempo delas dando entrevistas inutilmente.

Enzo Ferrari nunca foi pesquisador, mas também bisbilhotava os sapatos alheios e tirava conclusões sobre os seus portadores. Ao ver o modelito habitualmente usado pelo engenheiro Wifredo Ricart, que por um breve período foi seu chefe na Alfa Romeo, Ferrari não conseguia desgrudar os olhos de suas grossas solas de borracha crepe. Já não ia com a cara daquele espanhol natural da Catalunha, a quem se referia depreciativamente como lo spagnolo, mas aqueles sapatos lhe davam especialmente nos nervos.


Certo dia, com uma curiosidade que mal disfarçava a intenção maldosa, Ferrari questionou Ricart sobre o que o levava a usar sapatos assim. "É que o cérebro de um grande engenheiro necessita de amortecimento para protegê-lo das irregularidades do terreno", teria respondido o catalão.

Wifredo Ricart
Era tudo o que Enzo precisava para provar que Ricart era um sujeito insuportavelmente pretensioso e bacharelesco, como relata em seu livro de memórias Le Mie Gioie Terribili. Vários autores consideram essa avaliação injusta, afirmando que Ricart possuia um apurado senso de humor e que a frase a ele atribuída continha uma ironia que Ferrari não soube (ou mais provavelmente não quis) entender. Mas como Ferrari era Ferrari, a sua versão acabou adquirindo foros de verdade.

Na verdade, a resposta de Ricart foi apenas a gota d'água que fez transbordar o poço de ressentimentos de Ferrari em relação à Alfa Romeo. A nova diretoria da empresa havia decidido acabar com a autonomia da Scuderia Ferrari como braço de competições da marca, e a obrigação de se reportar a um superior hierárquico constituia uma afronta ao seu temperamento autoritário e centralizador. Com aqueles sapatos, então, nem pensar. Antes que Ricart os usasse para dar um chute em seu traseiro, Enzo chutou a Alfa Romeo e foi abrir seu próprio negócio. E resto, como se diz, é história. 

9 comentários:

Luís Augusto disse...

Sua amiga pode até ser preconceituosa, mas é a pura verdade. Quer saber com quem está falando? Não olhe a camisa comprada em outlet de Orlando, nem o relógio falsificado. Olhe para o sapato!

Joel Gayeski disse...

Interessante esta analogia.
Tinha dias que eu chegava a ir trabalhar de tênis e agora entendo como faz diferença.

Belair disse...

Verdade! Sapatos dizem muito....

Francisco J.Pellegrino disse...

O Malfeitor usa DOCKSIDES tem que ser aquela marca cara, comprado na Florida ! pois eles diz que os da marca SAMELLO são lixo....eu uso o tenis Olimpikus ! eventualmente em dias de prova de fórmula Um uso meu tenis Ferrari vermelho, marca Puma, (não falsificado), mas feito por vietnamitas escravizados...

Anônimo disse...

... e M.C., escreve: tenho que discordar. Um supermalandro sabe disso. Se for só pelos sapatos tú vai dançar, meu. Certa vez, anos atrás, escutei uma historinha de um vendedor da FIAT. Um sujeito mal vestido apareceu na concessionária e queria comprar um carrinho. Todos, óbvio, olharam pros sapatos dele. "Vulcabrás", bons mas... ninguém foi lá ter com o sujeito que ficou zanzando pelo salão... um dos vendedores, ele próprio( e com pena), meu amigo, foi até o cara. Constatou ser um sujeito humilde que estava em Belo horizonte porque tinha acabado de vender uns boizinhos e queria comprar uns carrinho prá leva prás terras dele... "Qual ?" " Um desse aqui e 5 daqueles ali, cê peraí que eu vô chama o meu capataz que tá ali fora e tá com o dinhero e a gente acerta esse trem... ". Não deu nem tempo pro tal vendedor dizer que não aceita dinheiro vivo ! Voltou com o cara e duas malas cheias de dinheiro, com revólver na cintura, assustando todo mundo, e aí, o gerente foi ter com ele e com vendedor ! Foram conversa na sala, reservadamente... Bom, final da história. Uma semana depois, tirou da concessionária um tempra turbo( 4 portas) e cinco fiats unos caçambinhas... mais um Tipo ! "Prá muié...". Mentira minha ? Vá a uma concessionária FIAT e perguntem aos mais antigos... E usava os fortes vulcabrás... temem cuidado...

Ron Groo disse...

A resposta foi realmente arrogante, mas será que não foi dita com espirituosidade?

De qualquer forma é uma delicia de história.

Anônimo disse...

... senhor Groo ! Mais a minha história é pravdíssima ! E vemos isso aí ao milhões ! Música do Chico Buarque, lembra-se ? Todos bem calçados ! Por isso uso Ermenegildo Zegna e mocassins Gucci ! E assim estou rico passando a perna em muito mané que só olham pro meus belos sapatinhos...


M.C.

Anônimo disse...

"... Agora já não é normal, o que dá de malandro
regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal..." Troquem a gravata por sapato que dá no mesmo. A rima continua. Ô du volante ? Vacilô...

Paulo Levi disse...

O Ricart até que teve sorte... já pensou as maldades que o Enzo espalharia se ele usasse tamancos holandeses ou sapatos de plástico marca Crocs?