quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Renault presidencial de Jean Charles de Castelbajac

Em qualquer lugar do mundo, automóvel presidencial é coisa séria. Principalmente na França, onde a imprensa e a opinião pública acompanham com olhos de lince as escolhas automotivas de seus governantes.

Há uma certa ambivalência na maneira pela qual os franceses se relacionam com os automóveis presidenciais de seu país. Por um lado, querem que eles sejam uma expressão da tradicional grandeur francesa; por outro, queixam-se dos gastos envolvidos na sua aquisição e nas adaptações necessárias ao uso a que se destinam.

O auge da grandeur: Citroën DS "vestido" por Chapron para o presidente de Gaulle
Nicolas Sarkozy que o diga. Em 2007, recém-empossado na presidência, encomendou à Renault um automóvel equipado com os mais avançados recursos tecnológicos, que pretendia usar como uma espécie de gabinete presidencial sobre rodas. O público reagiu mal à idéia, não só em razão do custo (cerca de 150 mil euros) mas também por se tratar de um Vel Satis, àquela altura praticamente um modelo fora de linha e considerado feio por muita gente. Além disso, o projeto previa um aumento de 25 centímetros na distância entre eixos, o que inevitavelmente deu margem a piadas e comentários maldosos sobre a baixa estatura do novo mandatário. O Vel Satis presidencial ficou pelo caminho e hoje Sarkozy se desloca em um Citroën C6, mesmo modelo utilizado por seu antecessor Jacques Chirac.


É provável que o potencial do assunto para gerar polêmica tenha motivado o estilista de moda Jean Charles de Castelbajac a formular sua proposta para um automóvel presidencial, apresentada em dezembro passado como parte das ações de lançamento de um novo modelo da Renault. Mas o que Castelbajac idealizou não é bem o Renault que Sarkozy tinha em mente: o estilista usou como base o recém-lançado Twingo 2012, recheando-o de mobiliário e adereços que poderiam ter vindo diretamente do boudoir de Maria Antonieta - ou do Grand Salon do palácio do Eliseu (que efetivamente foi usado como referência de estilo). O banco do motorista é uma cadeira Luís XV, o banco do passageiro cede seu lugar a uma mesinha oval com detalhes ricamente trabalhados em marchetaria, o assoalho é revestido de tacos de madeira em vez de carpete, e o volante é banhado a ouro - assim como o freio de mão e vários detalhes no painel e nas laterais das portas. Completando essa mise-en scène feérica, o interior é iluminado por lâmpadas em formato de tocha, enquanto a trilha sonora fica por conta de um tocador que emite continuamente os acordes da Marselhesa na interpretação do Coro do Exército Vermelho.




Mas o melhor de tudo são os vídeos em que o próprio Castelbajac discorre sobre os aspectos conceituais do projeto, intelectualizando o nonsense como só um intelectual francês seria capaz de fazer. Segundo o estilista, a presidência de seu país ainda cultiva o fausto e o aparato dos tempos da monarquia, o que não faz muito sentido num regime que se pretende democrático. Seu projeto seria um meio de incentivar a discussão sobre esse aparente contra-senso.



O Twingo presidencial de Castelbajac pode até ser uma provocação ou uma blague. Mas tem o mérito de mostrar ao mundo que, apesar do baixo astral que hoje paira sobre o continente europeu, o senso de humor continua vivo na França. Aplausos para o estilista - e principalmente para a Renault, por bancar um projeto que não só tem o dom de fazer sorrir como é também um belo exercício de liberdade de expressão.

Imagens: http://www.citroenet.org.uk (DS presidencial); http://www.charentelibre.fr  (C6 presidencial); http://www.renault.com (exterior Twingo Castelbajac); Nicolas Brulez/ http://www.inandout-blog.com/?s=castelbajac (interior Twingo Castelbajac)

Imagem do thumbnail: Shutterstock.com

4 comentários:

Belair disse...

Eu acho que e' um jeito NADA sutil de tirar um grande sarro da cara do President,cuja presuncao se "encaixa" perfeitamente no "projeto".
Dei boas risadas.

Joel Gayeski disse...

Putz, roubaram a idéia do Top Gear que fez uma cagada similar num W124 há alguns anos.

Francisco J.Pellegrino disse...

Veste direitinho o Sarkô...manda pro Louvre !

Paulo Levi disse...

É, amigos... como dizia De Gaulle, não é fácil governar um país que produz 243 diferentes tipos de queijo!