sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Meu Fusca, primeiro e único

Hoje é o Dia Nacional do Fusca - e eu de mãos abanando, sem nenhuma historinha de Fusca pra contar. Tento justificar a mancada pensando que todas as histórias de Fusca no universo já foram contadas, de uma maneira ou de outra. E além do mais, eu só tive um mísero Fusca na vida. Nem posso dizer de boca cheia que ele era meu, já que eu o comprei em sociedade com um colega nos tempos em que estudava na Suíça. 

Mas pensando bem, até que dá pra espremer uma historinha de Fusca dessa minha experiência. Então, aqui está ela.

O Fusca que eu tive provavelmente nem se reconheceria por esse nome, já que era um legítimo Volkswagen Sedan fabricado em Wolfsburg - um Käfer, portanto. Mas antes que alguém imagine que ele era uma preciosidade tratada a Apfelstrudel, é bom esclarecer que esse carro era um alquebrado modelo 1957 (ou 1958, não tenho certeza). Seu odômetro já devia ter virado no mínimo umas duas vezes. Quase não restava biscoito nos seus pneus, só uma das bananinhas ainda encontrava forças para se levantar, e a pintura cor de café-com leite parecia ter sido aplicada com uma brocha. Que aquilo ainda se movesse era um tributo à genialidade de Ferdinand Porsche, criador do carro que mais aguenta desaforo em todo o mundo.

(Shutterstock.com/imagem meramente ilustrativa)

Apesar de suas mazelas, era um carrinho brioso e cumpridor. A faculdade ficava num vilarejo afastado, e para ir à cidade mais próxima era preciso pegar um ônibus que só passava de 45 em 45 minutos, e geralmente ia lotado. O velho Fusca me libertou desse incômodo, e eu lhe era grato por isso. Principalmente no inverno, quando eu podia curtir o calorzinho que emanava do seu rudimentar sistema de calefação em vez de amargar uma longa e tremebunda espera no ponto de ônibus.

Mas havia (sempre há...) um senão: as rígidas normas da faculdade, que proibiam os alunos de terem automóveis. O que quer dizer que eu e o meu sócio Steve poderiamos ter problemas caso fossemos apanhados in flagrante delicto. Por isso, o Fusca era mantido a uma distância segura da faculdade, num terreno pouco visível graças à topografia acidentada da região. Como uma precaução adicional, eu sempre levava comigo um narigão postiço acoplado a um óculos de mentirinha para ser usado nas áreas mais próximas ao campus.


A sociedade com Steve funcionava às mil maravilhas. Cada um de nós tinha uma chave do carro, e para usá-lo bastava que um avisasse o outro com um mínimo de antecedência.

Certo dia, fui de Fusca até a cidade. Na hora de voltar, uma surpresa: o carro não estava mais onde eu o havia estacionado. Fiquei transtornado e também perplexo. Quem é que roubaria um "pois é" daqueles, ainda por cima na Suíça?

Passada a reação inicial de pânico, deduzi que aquilo só podia ser obra do Steve. Como poderia ter feito uma coisa dessas, rasgando o nosso acordo de cavalheiros e deixando um amigo na mão, ou pior, a pé? Bufando de raiva, peguei o ônibus (lotado, é claro) de volta para a faculdade. E assim que cheguei, fui tirar satisfações.

Encontrei o Steve muito tranquilo e sorridente, como se nada tivesse acontecido. Achou graça da minha mal-disfarçada fúria. "Sim", admitiu candidamente, "fui eu que peguei o Fusca. Vinha andando pela rua quando vi o carro ali estacionado, e como a Susan estava comigo, resolvemos dar uma volta com ele. Não vai me dizer que você levou a mal, né?"

Contei até dez, voltei a respirar normalmente e entendi que os meus dias como co-proprietário do Fusca estavam contados. O namoro entre Steve e Susan estava em fase ascendente, e todo mundo sabe que quem namora quer carro. Para não passar por outro susto daqueles, e também para não perder o amigo, disse a Steve que concordava em vender minha parte na sociedade desde que recebesse o valor correspondente ao que havia desembolsado, menos um deságio razoável por conta do uso que já havia feito do carro.

Steve topou na hora e o Fusca passou a ser só dele. O namoro com Susan engrenou de vez. E eu voltei a andar de ônibus.

A história podia ter acabado por aí, mas algumas semanas depois aconteceu um fato inesperado: um colega nosso se envolveu em um acidente de trânsito, também ao volante de um carro não autorizado, e isso levou a administração da faculdade a lançar uma grande blitz para identificar e punir os infratores. Todos os estudantes que estavam nessa situação, incluindo Steve, tiveram que vender os seus carros às pressas. Juro que não ziquei meu amigo, mas confesso que me senti bastante aliviado por não ser mais seu sócio àquela altura do campeonato.

Nunca mais vi aquele Fusca cor de café com leite, e nem mesmo tenho uma foto dele para postar aqui. É pena, já que foi o meu primeiro Fusca e também o último. Pelo menos sobraram essas recordações tiradas lá do fundo do baú para impedir que essa data comemorativa passe em brancas nuvens. Feliz aniversário, velho Käfer, onde quer que você esteja.

15 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Ótima história...tive vários deles, várias cores, o ultimo foi um daqueles fuscões azul-escuro,motor 1500, dupla carburação Pumakit, console com os respectivos contagiros, pressão de óleo, voltímetro..e mais um monte de acessórios...carro bom e de muitas boas histórias. Parabéns ao fusca.

Mauricio Morais disse...

Que história saborosa.

Ron Groo disse...

Sensacional...
Também foi meu primeiro carro...
vou deixar um link com a história dele.
Eu mudei os nomes pra poder inscrever o conto em um concurso.
Mas o motorista sou eu...

http://blogdogroo.blogspot.com/2009/04/cidade-depois-do-viaduto-mais-um.html

Belair disse...

Mas afinal, e a Susan? rsrsrsrs

Marcelo Betioli disse...

Acredito que tenha sido o primeiro carro de muitos.

Dá uma passada no meu blog.

Abraços.

Paulo Levi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Levi disse...

Francisco, Maurício e Groo,
Obrigado pelos seus comentários, fico contente que vocês tenham gostado do "causo".

PS - Francisco, um obrigado especial a você por comentar sobre este post e colocar um link no Blog do Camaro!

Paulo Levi disse...

Belair,
A Susan e o Steve casaram - mas não entre si...

Paulo Levi disse...

Marcelo,
Obrigado pelos seus comentários e pelo convite para conhecer o seu blog.

Um abraço,
Paulo

Migdonio disse...

Hahahahaha a resposta sobre o Steve e a Susan foi otima.

Luís Augusto disse...

Hehehehe, bela história. Cresci em meio a uma selva de Fuscas e acho que não tenho uma tão boa!

F250GTO disse...

Que linda história.
Não tem jeito, toda uma geração tem pelo menos uma história com um Fusca.
O carro que nos ensinou muita coisa.
Não foi meu primeiro carro, mas tive o prazer de ter muitos Fuscas.
E até hoje tenho um carro, com "coração boxer de Fusca".
Romeu

A Paris... disse...

Caro Paulo Levi,
Que delícia de história.
Agradeço a meu grande amigo Romeu [Lafer MP] Nardini pela excelente dica. Esta história ficaria ótima num segundo livro com "Uma coletânea de causos de felizes proprietários de Fusca". Vou deixar registrado e quando (?) o projeto for adiante eu volto a falar com você.
Saudações refrigeradas a ar
Alexander Gromow

Paulo Levi disse...

Migdônio, Luís e Romeu, obrigado pela visita e pelos comentários!
Abraços,
Paulo

Paulo Levi disse...

Alexander, é uma honra receber aqui ninguém menos que o pai do Dia Nacional do Fusca, que antecedeu e motivou a criação do Dia Mundial do Fusca. Obrigado pela visita, e obrigado ao nosso amigo Romeu por ter dado a dica.

Faço votos que o projeto do segundo livro siga adiante. Se quiser incluir esse meu texto, será um prazer. E caso queira entrar em contato comigo diretamente, o e-mail é adverdriving@gmail.com

Um abraço,
Paulo