terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Campanha educativa ou atestado de incompetência?

O ano começou mal para o trânsito brasileiro. Os acidentes fatais se sucedem sem dar trégua, as manchetes sobre o assunto dominam o noticiário em todo o país. As causas são sempre as mesmas: imprudência, imperícia, falta de manutenção dos veículos, dirigir sob os efeitos de álcool e/ou drogas, estradas mal projetadas e mal conservadas, falta de fiscalização. E pairando sobre isso tudo, a certeza da impunidade - ou pelo menos a possibilidade de tirar vantagem das brechas na lei e da leniência das autoridades constituídas.

Diante desse cenário, o que faz o Ministério das Cidades, responsável através do DENATRAN pela segurança no trânsito nas nossas ruas e estradas?  Lança uma nova ofensiva publicitária. Uma "campanha educativa" orçada em 10 milhões de Reais, com o objetivo de "conscientizar os motoristas" sobre os riscos de dirigir sob o efeito do álcool.


O grosso da campanha é formado por filmes publicitários e ações nas mídias sociais apelando para o sentimento de culpa que passaria a acompanhar os motoristas que bebem e causam acidentes fatais, como se isso fosse punição suficiente por sua conduta. Em nenhum momento se diz que beber e dirigir é delito passível de consequências penais. Essa suavidade no trato da questão tem o efeito de desmoralizar ainda mais a chamada Lei Seca, que já deu mostras de só funcionar se as pessoas temerem de fato as consequências de sua aplicação. 

Mas a chave para entender essa campanha é um anúncio de mídia impressa veiculado nas principais revistas semanais do país, que reproduzo a seguir.


Se os filmes da campanha são apenas inócuos, o mesmo não se pode dizer sobre esse anúncio. Em síntese, ele dá a entender que o número de acidentes com óbitos vem caindo em todo o Brasil. A suposta queda é atribuída ao PARADA (Pacto Nacional pela Redução de Acidentes - governo adora um acrônimo...), que teria feito que os brasileiros começassem a mudar sua atitude no trânsito. O anúncio chega ao ponto de dar parabéns por essa mudança, o que cheira a escárnio diante das barbaridades que saltam aos olhos em qualquer rua ou estrada do país.

Cabe a pergunta: se o objetivo da campanha é promover uma mudança de comportamento, não é contraproducente dizer que os acidentes estão diminuindo, e ainda por cima parabenizar os motoristas por isso? Se alguém defende essa abordagem por acreditar que isso é "reforço incondicional positivo", está muito enganado. Se o número de acidentes diminuiu e eu estou de parabéns, só me resta concluir que não preciso fazer nada diferente do que já faço.

Mas há outros problemas com esse anúncio. O gráfico utilizado para dar suporte à afirmação sobre a queda no número de óbitos tem como fonte a Polícia Rodoviária Federal. A qual, como diz o seu próprio nome, tem sua atuação restrita às rodovias federais. Ficam de fora, portanto, as rodovias estaduais e toda a malha viária dos municípios brasileiros. São omissões no mínimo curiosas - principalmente esta última, em se tratando de um anúncio do Ministério das Cidades.

Em última análise, esse anúncio e toda a campanha à qual ele pertence têm cara daquilo que no jargão dos políticos se chama de "agenda positiva". Estamos sob fogo cerrado na mídia, nossos procedimentos estão sendo questionados, o ministro está na corda bamba? Então vamos virar esse jogo com uma campanha publicitária para convencer a opinião pública de que estamos trabalhando duro e que tudo segue na mais santa paz. Mesmo que para isso seja necessário atropelar a verdade e atrasar a implantação de medidas que de fato poderiam ajudar a reduzir a violência no trânsito.

Imagens: divulgação

7 comentários:

Justino Silva Jr. disse...

Estranho... aliás, como tudo que vem do Governo. De fato, li que houve uma redução de 18% nos acidentes nas festas de fim de ano, se não me engano, nas estradas federais.
Mas é inegável a ineficácia das campanhas contra acidentes, tanto estatais quanto da mídia. Insistem em bater na mesma tecla, "álcool + direção + velocidade", como se a imprudência no trânsito se resumisse nisso...
Chega de novas leis, basta que se cumpram as já existentes! Começando pelas infrações mais 'banais', como celular ao volante, por exemplo.
Ótimo blog, acompanho quase que diariamente.
Abraço!

Ron Groo disse...

Eu como professor sou partidário de campanhas educativas sempre.
Mas sinceramente, aqui é questão de se pesar realmente nas punições.
Punições fortes, pesadas vão inibir muito mais do que apelos.

Infelizmente aqui, e acho que em vários lugares, só se sente dor de consciência, quando a mesma está no bolso.

Belair disse...

Ora,ora PL. O que interessa nessa historia toda sao os 10 milhoezinhos...
Resultados?Ora,ora...

Francisco J.Pellegrino disse...

Acompanho o voto do relator Belair, estão preocupados com os 10 milhões....não adianta a gente querer pensar o contrário que realmente o governo se preocupa com a população e coisa e tal...PQ NÃO SE FAZ UMA CAMPANHA FORTÍSSIMA COM O USO EXAGERADO DE SÓDIO NOS ALIMENTOS PROCESSADOS.....??????, ele é a maior causa de uma série de doenças ligadas à pressão arterial em que o Estado é obrigado a gastar no tratamento.Tem tanta coisa errada na nossa terra que ficaríamos aqui discutindo dias e noites sem parar...vou citar mais um exemplo: A Ecovias que toma conta das rodovias para a Baixada cobra um pedágio assustadoramente vil para vc trafegar um pouco mais de 50 km até Santos ou Cubatão.....mas depois de tantos anos não é capaz de construir uma ponte nova sobre a Billings após o pedágio de S.Bernardo...anos e anos amealhando o dinheiro de nós incautos e a Via Anchieta continua a mesma coisa...já dava para ser ILUMINADA até a Serra que NÓS PAGARÍAMOS A CONTA......

Paulo Levi disse...

Justino e Groo,

Concordo com vocês. Mesmo se essa campanha fosse boa - o que ela definitivamente não é - só daria resultado se viesse acompanhada daquilo que em inglês se chama "enforcement". Ou seja, fiscalização, advertência e multa. E também cadeia, se preciso for. Esse papo de peso na consciência só serve para dar a impressão de que o preço a pagar pela irresponasbilidade ao volante se resume a isso.

Paulo Levi disse...

Belair, o que são 10 milhõezinhos para um ministério que tem uma verba de comunicação de R$ 145 milhões? E por falar nisso, você conhece alguma outra campanha feita por esse mesmo ministério?

Paulo Levi disse...

Francisco, não sou especialista no assunto mas acho que o excesso de sódio está não só nos alimentos industrializados como também no velho hábito de ir pegando o saleiro antes mesmo de provar aquilo que se vai comer. Mas concordo que há um problema de saúde pública ligado ao crescente consumo de alimentos industrializados e à falta de informação sobre o assunto. Na minha opinião, já está mais do que na hora de se incluir o tema "nutrição" no currículo escolar.

E quanto à tarifa do pedágio, realmente é um absurdo, principalmente em vista do que essa concessionária oferece em contrapartida aos seus usuários. Se existisse uma agência reguladora séria, uma nova ponte já teria sido construída e entregue há muito tempo.