Vale à pena viajar aos Estados Unidos para assistir a um evento como o Elkhart Lake Vintage Festival?
Vale sim, e muito. Admirar automóveis clássicos em um ambiente de museu ou de exposição é ótimo, mas vê-los em ação num autódromo é outra coisa. Principalmente quando há quantidade e variedade de participantes: foram mais de trezentos no Vintage Festival deste ano, de modestos Volvos e Datsuns aos monstros sagrados da CanAm, passando por preciosidades do pré-guerra como Bugattis e Lagondas. E tudo isso em um circuito dos mais velozes e seletivos, que guarda certa semelhança com o de Spa-Francorchamps.
Durante três dias, respira-se automobilismo histórico em Elkhart Lake. Você sai do hotel e dá de cara com um Ferrari 250 GT. Anda uma quadra, e passa por Porsches, Jaguars e Alfas de diferentes períodos. Janta onde Bruce McLaren e Denis Hulme comemoraram suas vitórias, toma o café da manhã ao som distante mas perfeitamente audível dos motores girando alto nos primeiros treinos do dia. Vai ao autódromo e assiste a dezesseis corridas, praticamente sem intervalo entre uma e outra. Circula à vontade pelo paddock, sem nenhuma barreira entre você e os carros. Enfim, um pedaço do paraíso.
O custo de uma viagem dessas não chega a ser nenhum absurdo. Conforme o caso - e desde que o dólar não dispare de vez - pode ser pouca coisa mais caro do que ir a Araxá para o Brazil Classics Fiat Show, ou à Argentina para a Autoclásica. E certamente é muito mais barato do que ir à Inglaterra assistir ao Goodwood Festival of Speed ou ao Goodwood Revival, principais referências mundiais em matéria de automobilismo histórico. Mesmo que você tenha apenas uma semana de férias, dá tranquilamente para ir a Elkhart Lake e ainda sobram dois dias para curtir em Chicago, uma cidade com muita coisa interessante para se ver e fazer.
Gostou da idéia e quer assistir à edição 2012 do Vintage Festival? Aqui está um guia prático para facilitar as coisas.
Quando ir
O Vintage Festival acontece na primeira quinzena de setembro e dura três dias, de sexta a domingo. Programe-se para pegar um vôo para Chicago na quarta à noite, o que permitirá que você chegue a Elkhart Lake na tarde de quinta feira.
Se quiser recuperar o fôlego na chegada a Chicago, há bons hotéis nas imediações de O'Hare, o aeroporto internacional da cidade. Um deles é o Country Inn and Suites de Mount Prospect, onde a diária sai por menos de 80 dólares se a reserva for feita com antecedência. E olhe que isso inclui o café da manhã, o transporte de ida e volta ao aeroporto e os impostos. Se precisar fazer alguma compra antes de seguir viagem para Elkhart Lake, esse hotel oferece um atrativo adicional: está a menos de 20 minutos de carro do Woodfield Mall, um dos maiores shopping centers da região metropolitana de Chicago.
Como chegar
Várias empresas aéreas voam de São Paulo para Chicago, mas a única a oferecer vôos diretos é a United Airlines.
De Chicago a Elkhart Lake, vá de carro alugado. O trajeto leva cerca de duas horas e meia por estradas ótimas e bem sinalizadas. Mas é bom evitar o horário de pico (entre quatro e seis da tarde).
Calcule uns 65 dólares por dia de locação, incluindo seguro e impostos. Foi o quanto eu paguei para alugar um big uncle's car igual a esse aí embaixo.
Onde se hospedar
Uma boa opção é o Siebkens Resort. Não é bem um resort no sentido brasileiro da expressão, mas sim um hotel familiar de porte médio, confortável e bem localizado. Além disso, sua história se confunde com a própria história do automobilismo em Elkhart Lake. A diária sai na faixa de 150 dólares mais impostos. Não serve café da manhã, mas em compensação não cobra pela conexão wi-fi.
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| O antigo circuito de rua passava bem em frente ao Siebkens Resort |
Os ingressos podem ser comprados antecipadamente pelo site do circuito de Road America. O passe de três dias sai por 80 dólares; se for comprado com pelo menos dez dias de antecedência, o preço cai pela metade. Mas há um senão: o envio de ingressos para fora dos EUA é obrigatoriamente feito por uma empresa de courier, e o custo desse serviço praticamente anula o desconto. De qualquer forma, pode-se comprar ingressos no local sem filas nem qualquer tipo de complicação.
Como chegar ao circuito (e se locomover dentro dele)
Road America fica a poucos quilometros do centro de Elkhart Lake, mas fora do perímetro urbano. É um pouco longe para ir a pé, a não ser que você tenha fibra de triatleta e não se incomode em correr sobre o cascalho do acostamento. Portanto, vá de carro - você poderá entrar com ele no autódromo como parte do preço do ingresso, e poderá estacionar pertinho da pista.
| Definitivamente, não é carro de tiozão |
O que comer (e onde)
O must da gastronomia local é o bratwurst, uma versão mais rústica e condimentada da salsicha alemã do mesmo nome. Pode não ser um paradigma da alimentação saudável, mas é uma delícia - ir a Elkhart Lake e não comer bratwurst é o mesmo que ir à Bahia e não comer acarajé. E o melhor lugar para fazê-lo é no próprio autódromo, num dos vários quiosques de lanches ali instalados. Com uma nota de dez dólares, você almoça um belo sanduíche de bratwurst acompanhado de chucrute e salada de batatas, e ainda sobra troco para um sorvete.
À noite, a pedida é ir ao Lake Street Café, um restaurante bem no centrinho de Elkhart Lake. Por trás de uma fachada despretensiosa está uma cozinha que faria bonito em qualquer metrópole. Pedi as costelinhas de cordeiro com polenta cremosa, e não me arrependi. A conta ficou em cerca de 35 dólares, incluindo uma taça de shiraz australiano. Em São Paulo, uma refeição dessas não sairia por menos de 100 reais.
Um banquete imperdível onde a comida é apenas um detalhe
A cada ano, uma personalidade do automobilismo esportivo é homenageada em um jantar (chamado, algo pomposamente, de "banquete") que é realizado no sábado à noite no Osthoff Resort, o maior hotel da cidade. O homenageado deste ano foi John Morton, ex-piloto da equipe de Carroll Shelby e ponta de lança da ofensiva da Nissan no automobilismo ocidental. Seu relato sobre a evolução de sua carreira e sua relação com a equipes para as quais correu, feito com riqueza de detalhes e pontuado por muito humor, foi uma rara oportunidade de conhecer os bastidores do automobilismo americano nos anos 1960 e 1970 a partir da vivência de um de seus principais protagonistas.
Não sei quem será o homenageado do banquete do ano que vem, mas se a fala de John Morton servir de parâmetro o evento será imperdível. O custo do convite este ano foi de 40 dólares - mas conhecer a história na voz de quem ajudou a fazê-la não tem preço.
Imagens: arquivo pessoal do autor - reprodução permitida mediante atribuição a este blog
Imagens de terceiros: Nissan Sentra (www.nissanusa.com), Siebkens Resort (www.siebkens.com), bratwurst (www.johnsonville.com) mapa de Wisconsin (Google Maps) e John Morton (autoria desconhecida)
Agradecimento especial a Pam Shatraw, assessora de comunicação do Elkhart Lake Vintage Festival, e a Henry Adamson, diretor do Vintage Sports Car Drivers Association, pelo apoio na realização desta cobertura
Nota: Todas as menções a estabelecimentos comerciais e prestadores de serviço neste post (bem como no resto deste blog) são feitas de forma espontânea e sem nenhuma finalidade de ganho, e não constituem endosso às empresas citadas








