Mesmo sendo muito diferentes entre si, os automóveis que integram essa seleção têm alguns pontos em comum: os três são importados, os três começaram a ser vendidos no Brasil mais ou menos na mesma época, e os três foram trazidos em volume razoável pelos representantes oficiais dos fabricantes, sendo portanto relativamente fáceis de encontrar. Mas a principal razão para incluí-los em nosso short list é que todos eles são modelos historicamente significativos, como veremos mais adiante.
Da mesma forma que no mercado acionário, investir em um clássico do futuro requer faro apurado, olho clínico e muita paciência, além de um pouquinho de sorte. Os poucos exemplares desses automóveis que só tiveram um dono desde zero km dificilmente estão à venda, enquanto os demais já mudaram de dono uma, duas ou mais vezes. E como se sabe, quanto mais donos ao longo do tempo, maior o risco de gambiarras. Algumas ainda podem ser revertidas, mas em muitos casos os danos são irreparáveis - e quando isso acontece, o carro deixa de ser um investimento para se transformar em um ativo tóxico (popularmente conhecido como "mico"). Ou seja: o risco pode variar, mas ele nunca deixará de existir. A melhor maneira de se precaver é procurando conhecer tanto quanto possível o histórico do carro que você pensa em acrescentar ao seu portfólio de investimentos.
Feitas essas ressalvas, vamos às nossas recomendações:
1.PARA INVESTIDORES DE PERFIL CONSERVADOR: RENAULT TWINGO
O que faz do Twingo um automóvel significativo?
O Twingo foi o primeiro monovolume moderno de pequeno porte, abrindo o caminho para projetos como os do Mercedes-Benz Classe A e do Honda Fit. Com ele, a Renault voltou a exibir um lado inovador que andava meio adormecido havia muito tempo. O projeto, de autoria de Jean Pierre Ploué sob a direção de Patrick Le Quément, é brilhante não só como exercício de packaging mas como objeto de design puro e simples, tornando inteiramente crível o slogan "Créateur d'Automobiles". E apesar de seu tamanho diminuto e da cara de brinquedo, o Twingo é de uma robustez e confiabilidade surpreendentes. Não é a toa que tem proprietários apaixonados e até fã-clubes em várias partes do mundo.
O Twingo é o investimento certo para você se:
- Você não quer ter um desembolso inicial muito alto
- Você é fascinado por objetos de design, independentemente da utilidade que possam efetivamente ter para você
- Você quer um clássico do futuro que também possa ser usado tranquilamente no dia-a-dia, principalmente em ambientes urbanos
- Você não quer correr o risco de estourar sua conta bancária para cobrir os custos de manutenção
- Você gosta de andar rápido, principalmente em estrada
- Você imagina que em sua parte mecânica o Twingo seja tão inovador quanto em seu exterior (até 1999, o motor usado no Twingo era praticamente o mesmo do primeiro Corcel)
- Você pretende viajar com mais que dois passageiros a bordo (mesmo com o recurso do banco traseiro deslizante, dificilmente haverá espaço para a bagagem de todos)
- Você não suporta o calor, e o Twingo que você está pensando em comprar não tem ar condicionado (o enorme parabrisa inclinado age como uma lente de aumento para os raios solares)
- Você espera um rodar macio e confortável como na maioria dos carros franceses
- Você quer um Twingo branco (só mandando pintar, já que essa cor nunca constou do catálogo da Renault)
2. PARA INVESTIDORES DE PERFIL MODERADO: VOLVO 850
O que faz do Volvo 850 um automóvel significativo?
O 850, que passou por algumas alterações cosméticas e teve o seu nome mudado para S70 já perto do final de sua produção, é o último Volvo de verdade. Desenvolvido antes que a marca sueca passasse para as mãos dos americanos da Ford (e destas, para as dos chineses da Geely), o carro também não tem nenhum dos componentes Mitsubishi e Renault que a Volvo costumava usar em seus modelos de entrada. Apesar da tração dianteira, inédita até então num Volvo de porte médio-grande, o 850 preserva a linguagem visual severamente retilínea inaugurada em 1966 com os modelos da série 140.
Nesse carro, o também inédito motor de cinco cilindros e 170 CV devolvia à Volvo boa parte do apelo esportivo perdido no final da década de 1960, quando o modelo Amazon saiu de linha. Essa renovada esportividade ganharia um reforço de peso com a chegada de uma versão turbo, que chegava a 240 CV nos modelos mais recentes.
Mas apesar das mudanças o 850 manteve intactas as virtudes que fizeram a fama de seu fabricante, como os cuidados com a segurança ativa e passiva, a qualidade dos materiais e da montagem, e o interior confortável e de excelente ergonomia. Para quem quiser um legítimo Volvo, não há outra opção. Ou melhor, há sim: a versão perua do próprio 850. Se bem que, pelo tipo de uso a que as peruas geralmente são submetidas, você precisará ter muita sorte para encontrar uma em bom estado.
O Volvo 850 é o investimento certo para você se:
- Você quer ter um Volvo que não é Volvo apenas no nome
- Você acha divertida a idéia de dirigir um "Q-car" - um autêntico lobo em pele de cordeiro
- Você pretende usar o carro principalmente em viagens
- Você quer que seus passageiros viajem muito bem acomodados enquanto você se diverte ao volante
- Você acredita que o prazer de ter um carro como esse compensa um ou outro gasto imprevisto com manutenção
- Você quer um carro de suspensão macia e confortável (principalmente nas versões mais esportivas, o Volvo 850 é duro como uma tábua)
- Você não costuma viajar para a Europa nem para os EUA, nem tem amigos que possam trazer peças desses lugares
- Você não tem a disciplina de abastecer sempre em postos conhecidos e confiáveis. Gasolina de procedência duvidosa pode ser fatal para o motor desse carro, principalmente nas versões turbo
- Você não gosta da idéia de gastar seu tempo e dinheiro em lojas de pneus. O 850 é um notório devorador de pneus dianteiros. Discos e pastilhas também não costumam durar muito
- Você ficará incomodado quando chamarem o seu Volvo de tijolo ou caixotão
3. PARA INVESTIDORES DE PERFIL AGRESSIVO: ALFA-ROMEO 164
O que faz do Alfa-Romeo 164 um automóvel significativo?
Mesmo tendo sido lançado na gestão Fiat, e mesmo usando a mesma plataforma desenvolvida para o Fiat Croma, o Lancia Thema e o Saab 9000, o Alfa 164 é reconhecido até pelos alfistas mais ortodoxos como um Alfa-Romeo de verdade. A principal razão dessa indulgência é o carismático motor de seis cilindros em "V" projetado por Giuseppe Busso, um engenheiro que só não passou a vida inteira trabalhando na Alfa-Romeo porque também teve uma passagem pela Ferrari.
Escultural e melodioso como poucos, esse motor nasceu com 185 CV, chegando aos 210 CV na versão de 4 válvulas por cilindro. Como ele equipa a totalidade dos 164 que vieram para o Brasil, é fácil perder de vista que as versões com motores de 4 cilindros (a gasolina e a diesel) responderam pela maior parte das vendas desse modelo na Europa. Isso faz que os "nossos" 164 tenham um maior potencial de valorização, já que essa é a motorização mais desejada e mais rara.
O outro trunfo desse carro é o design de Pininfarina, impregnado do DNA da marca mesmo sem fazer lembrar nenhum Alfa que tenha vindo antes ou depois. É um automóvel imponente, mas essa imponência vem temperada de uma esportividade que tornaria incongruente o seu uso com motorista. Ao contrário do que acontece com a maioria dos sedãs desse porte, o 164 passa a imagem de que foi criado para pessoas que dirigem por prazer e não por obrigação.
O Alfa-Romeo 164 é o investimento certo para você se:
- Você acredita que os automóveis estão ficando cada vez mais assépticos e sem alma
- Você quer ter o prazer de acelerar um V6 de sangue quente e temperamento latino, mas sem pagar preços de supercarro
- Você é capaz de ter uma experiência mística só de ver e ouvir o motor do 164
- Você acha que não basta um automóvel ser veloz - ele deve ser como um cavalo selvagem que exige talento para ser domado
- Você é um apaixonado pela marca Alfa Romeo, e como todo apaixonado não está nem aí para as possíveis consequências de sua paixão
- Você não costuma viajar para a Europa, nem tem amigos que possam trazer peças de lá (não adianta nem tentar nos EUA, já que não existem concessionárias Alfa-Romeo naquele país)
- Você espera algum apoio das concessionárias Fiat, incluindo aquela onde o seu 164 foi originalmente vendido
- Você não está disposto a virar um habitué de oficinas de alinhamento e balanceamento, nem de especialistas em ar condicionado
- Você não está preparado para uma rotina de gastos não-rotineiros com a manutenção do carro
(Nota: as opções de investimento apresentadas acima não contam com as salvaguardas do Fundo Garantidor de Crédito, muito menos as do administrador deste blog. E não se esqueça: rentabilidade passada não é garantia de ganhos futuros.)
Imagens: Rudolf Stricker/Wikimedia (Renault Twingo); Sigma/Czech Wikipedia Project (Alfa-Romeo 164); divulgação (outras imagens)

























