sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A roda da fortuna de um Studebaker

O piloto Tony Gulotta nunca figurou na clássica série de anúncios em que a Firestone apresentava, a cada ano, uma galeria fotográfica com todos os vencedores da 500 Milhas de Indianápolis. Ficou de fora por pouco: liderava folgadamente a edição de 1928 quando um entupimento numa tubulação de combustível acabou com suas chances de vitória.

Reprodução de anúncio da Firestone em ingresso para a 500 Milhas
Gulotta não esmoreceu. Voltou a Indianapolis nos anos seguintes, mas o máximo que conseguiu foi um sétimo lugar em 1933. Nem ao menos acertaram seu nome na foto oficial do circuito, onde aparece grafado como "Tony Gulatto". Restou a satisfação de ser o mais bem colocado dos cinco pilotos da equipe de fábrica da Studebaker naquela que foi a derradeira participação da marca nas 500 Milhas.


A partir daí, a história do Studebaker de Gulotta ganha tons de romance picaresco. O carro foi vendido à Firestone, que o exibiu em seu estande na Feira Mundial de Chicago antes de o revender a um cidadão que desejava iransformá-lo em um esportivo de dois lugares. Para tanto, retirou a carroceria original e a descartou como entulho. Mas logo em seu primeiro passeio pelas ruas do bairro, ao tentar cruzar uma passagem de nível, o Studebaker entalou nos trilhos em razão de sua reduzida altura do solo. Por sorte não vinha nenhum trem, mas a experiência fez com que o assustado proprietário o trancafiasse na garagem, de onde só sairia muitos anos depois para ser dado como entrada na compra de um Hudson zero quilômetro.

Mesmo desfigurado, o Studebaker voltou às pistas no início dos anos 1950, só que em provas sem grande expressão. Em 1955, estava numa revenda de usados de uma sonolenta cidadezinha onde ninguém sabia, nem queria saber, de seus antecedentes. Já havia entrado naquela fase da vida de um carro que é quase sempre a última antes do ferro-velho. Mas por uma feliz coincidência, o designer Brooks Stevens soube de seu paradeiro e ao vê-lo o reconheceu como um dos Studebakers que haviam corrido em Indianapolis.

Stevens comprou o carro e o restaurou à configuração original, incluindo uma nova carroceria feita à imagem e semelhança da original. E durante os próximos quarenta anos, o Studebaker ocupou um lugar de destaque em seu museu particular situado nos arredores de Milwaukee.

Após a morte de Stevens, os herdeiros do designer decidiram desativar o museu e se desfazer de seu acervo. Uma vez mais, o Studebaker teve sorte: quem o arrematou foi o empresário August Grasis,  grande aficionado da marca e do automobilismo de competição.  

Se Brooks Stevens já devolvera a esse automóvel a dignidade de seu aspecto original, Grasis deu o passo que faltava: recuperou toda a parte mecânica, não medindo esforços para deixá-lo em condições de se apresentar nas pistas como manda o figurino.




E é exatamente isso que o quase octogenário Studebaker faz atualmente nas provas para automóveis clássicos dos Estados Unidos, onde o seu motor de oito cilindros em linha de 5500 cc, alimentado por quatro carburadores Stromberg, ruge em alto e bom som. Como nos tempos de Tony Gulotta.

Imagens: http://blog.indycar.com (ingresso 500 milhas de Indianapolis, edição 2011); Indianapolis Motor Speedway (foto comemorativa de 1933); arquivo pessoal do autor (outras imagens exceto thumbnail)

2 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

PL, ótima lembrança...80 anos e rugindo nas pistas...sensacional.

Ron Groo disse...

Então os Studes já disputaram corridas?
Como é bom sempre aprender algo.