quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Oito apelidos para a posteridade (Parte 3 - Final)

Encerrando esta série sobre apelidos, vamos focalizar dois países que apesar de serem vizinhos e de terem grande tradição no automobilismo, apresentam profundas diferenças entre si. Se você pensou em Brasil e Argentina, acertou.

Não conheço nenhum povo mais prolífico em matéria de apelidos do que o argentino. Ninguém escapa a essa especialidade dos hermanos, desde políticos como Carlos Menem ("El Turco") e o falecido Néstor Kirchner ("El Pinguino") até personalidades do meio artístico como a cantora Mercedes Sosa ("La Negra") e o bandoneonista e compositor Anibal Troilo ("Pichuco"). Até mesmo Juan Domingo Perón, cuja influência sobre a vida nacional ainda se faz sentir a quase quarenta anos de sua morte, também tinha o seu apelido - no caso, "El Pocho".

Da mesma forma, é quase impossível achar um piloto argentino que não tenha um apelido. Tudo serve de matéria prima, da aparência pessoal (incluindo deficiências físicas) à etnia dos antepassados. Foi assim que surgiram apelidos como os de Juan Manuel Fangio ("El Chueco", ou o manco), Froilán González ("El Cabezón"), Oscar Gálvez ("El Aguilucho") e Oscar Cabalén ("El Califa"). A variedade é tamanha que fica difícil escolher apenas um - um limite que se impõe para evitar que este post se transforme em um compêndio.

No Brasil também temos bons apelidos, mas não dá para competir em quantidade e qualidade com os vizinhos do Prata. Os nossos apelidos tendem a ser lacônicos, compostos de quatro letrinhas como a maioria dos palavrões em inglês. Pense, por exemplo, em Rato, Moco e Beco. Podemos até gostar desses apelidos por razões sentimentais, mas a verdade é que eles oscilam entre o óbvio e o hermético, além de não aderirem por muito tempo aos apelidados (nos exemplos acima, Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace e Ayrton Senna).

Já Bird Clemente tem tudo o que se espera de um apelido, ainda mais para um piloto que parecia voar baixo nas curvas de Interlagos. O problema é que Bird é nome de batismo, e não apelido. Assim, iremos recorrer a um outro piloto brasileiro que pode até não ser tão conhecido nacionalmente, mas é uma lenda viva em sua região de origem. E dono de um apelido que não deve nada aos melhores do mundo.

E agora, vamos aos nossos finalistas sul-americanos. Começaremos pelo representante da Argentina, em nome da cortesia que deve pautar as relações entre bons vizinhos. ¡Adelante, por favor!

EL LANGOSTÓN PARMIGIANI (Osvaldo Parmigiani)


Aí está um apelido de dar água na boca, pronto para despertar o gourmet e (principalmente) o gourmand que existe em cada um de nós. Seu dono é Osvaldo Parmigiani, um piloto natural da província de Córdoba que competia com relativo sucesso no automobilismo argentino da década de 1930. Alto e desengonçado, Parmigiani fazia lembrar uma lagosta gigante, o que explica o seu apelido.

Hoje, Parmigiani é lembrado principalmente por uma corrida que deveria ter sido o ponto alto de sua carreira, mas que acabou se transformando em uma enorme frustração. Estamos falando das 500 Milhas de Indianápolis de 1940, na qual formava dupla com o também argentino Raúl Riganti. Nos treinos classificatórios, Parmigiani marcou tempos melhores que os de Riganti. Mas como este era o mais experiente dos dois, tendo inclusive participado de duas edições anteriores da grande corrida americana, ficou acertado que largaria ao volante do flamante Maserati 8C da dupla. Assim foi feito - e na vigésima quarta volta, Riganti perdeu o controle do carro, que se espatifou contra o muro da curva dois. Por sorte teve apenas ferimentos dos quais se recuperaria, mas os sonhos de glória do Langostón viraram sucata.

Talvez a parceria entre Riganti e Parmigiani estivesse fadada ao fracasso por uma incompatibilidade, digamos, gastronômica entre os seus respectivos apelidos. Sim, porque Raul Riganti também tinha um apelido - no caso, "Polenta". Lagosta com parmesão, ainda vá lá, mas a mistura com polenta não podia mesmo dar certo.   

LULU GELADEIRA (Luiz Pereira dos Santos)


Lulu Geladeira não é um apelido, é poesia pura. É o non sense da mistura de chiclete com banana somado ao virtuosismo nonchalant da música de João Gilberto. Só mesmo a Bahia para produzir maravilhas assim.

Mas o non sense do nome é só impressão: Lulu é o diminutivo carinhoso de Luíz, enquanto que o Geladeira deriva da atividade profissional desse piloto como técnico em refrigeração. Tudo muito racional, portanto.

Lulu Geladeira tinha fama de invencível nos circuitos de rua da Salvador dos anos 1960. Foi o primeiro piloto da Bahia a ganhar notoriedade fora de seu estado natal, colecionando vitórias em toda a região Nordeste. A prova inaugural do Autódromo de Fortaleza, primeiro circuito permanente da região, teve Lulu como vencedor.

Como piloto, as principais qualidades de Lulu eram uma noção exata dos limites da máquina, fruto de seus conhecimentos de mecânica, e principalmente um temperamento imperturbável. Lulu nunca esquentava a cabeça, dando uma dimensão adicional ao próprio apelido.

Em 1969, Lulu Geladeira venceu o campeonato baiano de automobilismo, o qual muito apropriadamente contava com o patrocínio da KIbon. E ao final da última prova daquele ano, recebeu da tradicional fabricante de sorvetes um prêmio mais apropriado ainda: uma enorme taça repleta de picolés, que fizeram a festa da garotada que rodeava o campeão no pódio. Terá havido, em toda a história do automobilismo, um caso mais perfeito de alinhamento entre piloto, público, patrocinador e prêmiação?


(Clique nos links para ler a Parte 1 e a Parte 2 desta série) 

Imagens: http://www.cahr-rosario.com.ar/indepen.php (El Langostón Parmigiani); freeze frame de documentário dirigido por  Kátia Monteiro em http://www.youtube.com/watch?v=VwSRya6eMlI (Lulu Geladeira)

3 comentários:

Belair disse...

Muito legal Paulo,parabens.

Joel Gayeski disse...

Nunca tinha ouvido falar de ambos!
Show!

Paulo Levi disse...

Obrigado, Belair e Joel!
Grande abraço,
Paulo