terça-feira, 8 de novembro de 2011

Oito apelidos para a posteridade (Parte 2)

No primeiro post desta série, focalizamos três personalidades do automobilismo britânico e seus respectivos apelidos. Hoje, vamos falar de três americanos que fizeram história no automobilismo de seu país, e que ainda por cima nos brindaram com apelidos da melhor qualidade.

Todos eles fizeram carreira em uma mesma categoria, a NASCAR, na qual foram contemporâneos de 1955 a 1964. Foi uma fase de grande evolução nessa modalidade tipicamente americana, que teve início nas pistas de terra batida do sudeste dos Estados Unidos e que de lá se expandiu para as superspeedways pavimentadas de todas as regiões do país.

Apesar das mudanças, a NASCAR dessa nova fase ainda guardava algo de suas origens. Para conhecê-las, é preciso retroceder ao final da década de 1940, quando as destilarias clandestinas ainda operavam a pleno vapor na região dos Montes Apalaches, e seus proprietários recrutavam jovens das redondezas para transportarem a versão local da "marvada" em seus carros particulares.


Para aumentar a capacidade de carga e o desempenho - este último, um item fundamental para despistar a polícia e os fiscais de rendas - as suspensões eram endurecidas e os motores trocados por outros bem mais potentes. Uma das receitas favoritas consistia em pegar a carroceria e o chassis do Ford 1940 coupé e adaptar um motorzão de ambulância Cadillac - sobrealimentado por um  compressor de caminhão, só para garantir.

Mas não bastava ter um carro rápido, também era preciso ter braço. Quem não tivesse estava fadado a cair nas malhas da lei - ou, literalmente, em algum precipício. Isso para não falar na coragem e nos nervos de aço necessários para andar com o pé embaixo naquelas condições.

As histórias sobre os pilotos-muambeiros e seus incríveis carros logo viraram lenda entre os habitantes da região, normalmente respeitadores da lei e da ordem, mas sempre prontos a tomar o lado de Davi num eventual confronto com Golias. Os primeiros ídolos começaram a surgir, e junto com eles o desejo de vê-los em ação. As primeiras provas realizadas em circuitos de terra batida foram consequência desse desejo, ganhando participantes e espectadores à medida em que as destilarias clandestinas iam fechando suas portas.


Transposto para o ambiente mais estruturado da NASCAR, esse passado de malandragens se manifestava numa incessante busca por brechas no regulamento. Ou mesmo por maneiras de transgredi-lo sem ser pego no pulo. Todas as equipes faziam isso, e todo mundo sabia que isso acontecia. Quem não fizesse não ganhava corridas, e ainda passava por bobo.

Paradoxalmente, o comportamento dos pilotos primava pela lealdade dentro das pistas e principalmente fora delas, onde predominava um espírito de grande camaradagem. Talvez isso estivesse relacionado às regras não-escritas do código de conduta do sul dos Estados Unidos, onde um dos valores mais cultuados é o chivalrousness - comportamento que tem algo em comum com o nosso cavalheirismo (inclusive na origem da palavra) mas com um sentido moral muito mais abrangente, quiçá derivado das tradições da Távola Redonda.

Estabelecido o pano de fundo, vamos aos nossos próximos três personagens e seus apelidos.

FIREBALL ROBERTS (Edward Glenn Roberts)


Fireball Roberts, sete vezes vencedor em Daytona, foi provavelmente o primeiro piloto da NASCAR a atingir o status de ídolo de massas. Seu apelido - numa tradução literal, bola de fogo - vinha de sua fama como arremessador no beisebol. Mas também combinava perfeitamente com a personalidade extrovertida desse piloto, que gostava dos holofotes da mídia e levava a torcida ao delírio com seu estilo atirado e sem concessões. Para Fireball Roberts, a estratégia era vencer ou vencer.

Infelizmente, o apelido de Roberts se revelaria tristemente premonitório: no começo da etapa de Charlotte do campeonato de 1964, seu Ford não conseguiu esquivar-se de um acidente entre dois carros que iam à sua frente, sendo arremessado contra um muro e incendiando-se logo e seguida. Roberts sofreu ferimentos de extrema gravidade, vindo a falecer algumas semanas depois. 

SMOKEY YUNICK (Henry Yunick)


Na história do automobilismo em qualquer pais, mecânicos dificilmente aparecem como personagens de primeira grandeza. O que definitivamente não se aplica a Henry "Smokey" Yunick, uma das maiores celebridades do automobilismo americano na segunda metade do Século 20.

Nascido num sítio do interior da Pensilvânia, Smokey tinha dezesseis anos quando ganhou esse apelido. Foi numa corrida de motos em que seu motor soltava muita fumaça, e o locutor - que não conseguia lembrar seu nome - resolveu sapecar um "smokey" ao microfone. Yunick deve ter gostado, pois adotou o apelido de imediato. E a partir daí foi construindo para si um personagem, que cultivava usando um chapéu de caubói e pitando um cachimbo de sabugo de milho

Apesar de autodidata em mecânica, Smokey Yunick possuia conhecimentos técnicos e até mesmo teóricos que o colocavam em pé de igualdade com os maiores engenheiros especializados da época. Pilotos e fabricantes disputavam os serviços de sua oficina de preparação em Daytona Beach, batizada nada modestamente de "The Best Damn Garage in Town". Apenas para citar um exemplo, quando a GM quis fazer o desenvolvimento esportivo de seu motor V8 small block, em 1955, decidiu confiar a tarefa a Smokey.

Mas o know how desse preparador ia muito além dos motores: Smokey era um autêntico vulcão de idéias, o que o levava a explorar (e não raro a ultrapassar) os limites estabelecidos pelos regulamentos. São inúmeros os relatos sobre isso, alguns falsos, a maioria verdadeiros. O melhor de todos (desmentido pelo piloto David Pearson, mas corroborado pelo também piloto Marvin Panch), teria acontecido numa corrida em Daytona, quando um dos carros de Smokey foi eliminado ainda antes da largada por uma série de infrações ao regulamento. Irritadíssimo com os inspetores, Smokey catou o tanque de combustível que fora retirado de seu Chevrolet sem que qualquer irregularidade tivesse sido constatada, jogou-o para dentro do carro, deu a partida e saiu rodando como se nada fosse. A explicação para o "milagre"? É que Smokey havia desenhado uma tubulação de combustível cheia de meandros e reviravoltas, que lhe permitia acomodar alguns litros a mais de gasolina e assim funcionar como uma espécie de reservatório auxiliar. E como o regulamento especificava a capacidade do tanque mas não a da tubulação...

BANJO MATTHEWS (Edwin Keith Matthews)


Assim como Smokey Yunick, Banjo Matthews também era mecânico. Mas sua formação no automobilismo era diferente, já que havia começado como piloto. Mesmo tendo obtido bons resultados na NASCAR, decidiu abandonar as pistas para dedicar-se exclusivamente à preparação de carros de corrida.

O apelido "Banjo" não tinha nada a ver com música nem com instrumentos musicais, mas sim com os óculos que Matthews era obrigado a usar desde pequeno em razão de uma acentuada miopia. As grossas lentes convexas faziam lembrar o formato de um banjo, levando os coleguinhas de primário a apelidarem-no de "Banjo Eyes" - olhos de banjo. Com o tempo, ficou só o Banjo. 

Diferentemente de Smokey Yunick, de quem foi amigo, Banjo Matthews tinha uma personalidade bastante reservada. Não tinha o gosto pela autopromoção, nem as frases de efeito de Smokey. De igual maneira, enxergava o seu trabalho muito mais como o de um artesão que o de um engenheiro ou inventor. O que não impediu que construísse mais de setecentos carros de competição ao longo de sua carreira, muitos deles sob encomenda da Ford através da Holman & Moody, sua empresa de preparação semi-oficial.

A comparação estatística entre os resultados de Banjo Matthews e Smokey Yunick na NASCAR é amplamente favorável ao primeiro: em 362 largadas somente nas provas da série Winston Cup, seus carros venceram em 262 ocasiões. Mas quando se pensa nos grandes preparadores americanos da segunda metade do século 20, o primeiro nome que vem à mente é o de Smokey, enquanto o de Banjo anda meio esquecido. Não basta ser bom, tem que caprichar no fumacê.

(CONTINUA E CONCLUI NO PRÓXIMO POST) 

Imagens: http://liquordigest.blogspot.com (destilaria clandestina); http://www.youtube.com/watch?v=G6rhSUF_Cjo (freeze frame largada em pista de terra); fotógrafo desconhecido, do livro Real Nascar por Daniel S. Pierce (Fireball Roberts); http://www.circletrack.com (Smokey Yunick); fotógrafo desconhecido, do livro Imagine That! Over 45 Years of Auto Racing Experiences, por Don e Nikki Finke (Banjo Matthews)

5 comentários:

Anônimo disse...

Chivalrousness?! Wow! Is just "chivalry" any different?Really now,I dunno.
Smokey was The Man !
Great text.What next? Brazilians?
Is Moco included?Curious 'bout that one.

Paulo Levi disse...

Anonymous,
Thanks for stopping by again, glad you liked the post!

On the matter of chivalrousness versus chivalry, I'll admit to sweating over that one. In the end, I decided to go with chivalrousness in honor of a former classmate of mine, a good ol'boy from Mississippi, who'd use the word when enlightening me about this concept and its cultural significance south of the Mason-Dixon line.

And if you're curious about the next and final post in this series, I really wouldn't want to spoil your curiosity... but I will say that you're headed in the right direction.

Ron Groo disse...

Desta leva gostei do Banjo Mathews... Tem força e musicalidade.

Joel Gayeski disse...

Não sei porque, mas histórias sobre ícones estadunidenses tem um ar mais folclórico que os europeus. Talvez seja pelo ambiente.
De qualquer forma, histórias deliciosas, principalmente a introdução.

Paulo Levi disse...

Groo e Joel,
Obrigado pela visita e pelos comentários!

Abraços,
Paulo