quarta-feira, 23 de novembro de 2011

E o consultor riu por último...

Há cerca de dez anos, a Fiat passava por uma das piores fases de sua história. Tudo ia mal, das vendas na Itália e no resto da Europa às relações com o governo e com os sindicatos italianos. A empresa ainda se sustentava graças aos capitais remetidos pela subsidiária brasileira e a um acordo de conveniências firmado com a General Motors. Mas se as coisas continuassem como estavam, seria impossível encontrar uma saída que não envolvesse medidas drásticas como a venda ou até mesmo a estatização.

Diante desse quadro de angústias e incertezas, um político italiano resolveu dar uns conselhos à Fiat. E o que disse foi o seguinte:
"...  já que a empresa é detentora de um nome como o da Ferrari, poderia deixar de usar o nome Fiat. E encomendar aos escritórios da Ferrari em Modena uma reestilização superficial de todos os seus modelos, que poderiam então ser lançados em todo o mundo como Ferraris. Graças ao prestígio dessa marca, seria possível vender de 50 a 100 mil automóveis da Fiat em países que gostariam de contar com uma unidade da empresa".
Parece um blefe ou uma piada de mau gosto, mas não é. É um conselho sincero, oferecido na crença de que o mundo é feito de aparências e os consumidores (ou os eleitores, tanto faz) são incapazes de diferenciar entre realidade e ilusão. E quem foi o autor de tal conselho? Só podia ter sido ele - o Cavaliere, o bunga-bunga, o terror das ninfetinhas. O mesmíssimo Silvio Berlusconi que até pouco tempo atrás usava o cargo de primeiro ministro como plataforma para o seu show de gafes, galhofas e galinhagem.


Naturalmente, a Fiat não apreciou a consultoria não solicitada. E com um seco "nada a ver", deixou claro que Berlusconi faria melhor se não se metesse onde não é chamado.

Mas isso são águas passadas. A Fiat se reergueu, saneou suas finanças, lançou produtos bem sucedidos como o Grande Punto e o 500, e aproveitou a crise de 2008 para arrematar a Chrysler a preço de banana. E agora, cheia de auto-estima, traça planos cada vez mais ambiciosos. Que não se limitam à marca Fiat, mas se estendem às demais marcas do grupo.

Um desses planos diz respeito ao lançamento de um novo modelo da Maserati para competir no lucrativo segmento dos SUVs de alto luxo e pretensões esportivas, hoje dominado pela Porsche e pela BMW. Apresentado no recente Salão do Automóvel de Frankfurt, o novo veículo ainda traz o nome provisório de Kubang, que segundo informações recentes poderá ser mudado para Cinqueporte. Mas é preciso qualificar o seu caráter de novidade, já que ele nada mais é do que a plataforma do Jeep Grand Cherokee com uma roupagem - ou top hat (cartola), no jargão da indústria automobilística - ao estilo  Maserati.


Os releases sobre o Kubang se esforçam para enfatizar a pureza do DNA da Maserati nesse modelo, mas o discurso não se sustenta na prática. Não se sabe ainda qual será a sua motorização (a empresa fala em um V8 "desenvolvido pela Ferrari"), mas é quase certo que ele também alojará algum motor de origem Chrysler sob o seu capô, nem que seja nas versões de base. Querendo ou não, seu chassis foi originalmente concebido para um automóvel sem pretensões esportivas, ao contrário dos concorrentes da BMW e da Porsche. E o local onde será produzido - a mesma fábrica da Chrysler em Detroit de onde atualmente saem o Dodge Durango e o próprio Jeep Grand Cherokee - não ajuda a preservar a aura da Maserati como uma marca italiana sofisticada e cara.  

É no mínimo irônico que nessa sua nova fase a Fiat tenha se convertido ao pensamento berlusconiano. Não a ponto de usar a marca Ferrari para rebatizar Fiats, mas o que está fazendo com a Maserati não é muito diferente. Se a empresa concluir que o novo modelo não deveria receber o nome de Kubang nem de Cinqueporte, pode chamar de Bunga-Bunga.


Imagens: Ricardo Stuckert/Agência Brasil, via Wikimedia Commons (foto Berlusconi); Divulgação (Maserati Kubang); http://nonciclopedia.wikia.com/wiki/File:Berlusconi_vignetta_corna.png (caricatura Berlusconi)

9 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

PL, eles vão ter que se esforçar muito para chegar ao nível dos concorrentes de alto luxo...não tem DNA Maserati !

Paulo Levi disse...

E tem outra, Francisco: a Porsche e a BMW já estabeleceram as suas credenciais off-road no Rally Dakar e em outras provas da categoria. Mas pensando bem, para os novos-ricos russos e chineses isso não deve fazer muita diferença.

Joel Gayeski disse...

Podem chamar de Kubang, Kabong (lembram do Pepe Legal?), Big Bang... pra mim a Maserati já foi estragada e ridicularizada quando começaram a usar componentes de sua outrora arqui-rival Ferrari.

Off topic só pra apimentar, sobre ninfetinhas o Berlusca só fez (e deve fazer) o que muito marmanjo quer e e tem vergonha de admitir. Mas aí são "altri cinquecento".

roberto zullino disse...

A Fiat só faz é merda, são arrogantes ao extremo, coisa de piemontês que é um italiano que quer ser francês.
Se é para mudar que usassem primeiro a marca Alfa-Romeo que tem muito mais apelo como fabricante de carros de maior volume. Poderiam reservar as marcas Maserati e Ferrari para coisas mais especiais.
A BMW não tem nem um décimo da história da Alfa Romeo, muito ao contrário, só fez coisas ridículas com raras exceções. No entanto, a BMW deu um "tour de force" na sua história e consegue vender seus sedans a "premium" price só baseada na marca.
É o que a Fiat tinha que fazer com a Alfa Romeo.
O impressionante é que a Fiat tem a maior coleção de marcas e não consegue aproveitar nenhuma delas de maneira decente.

roberto zullino disse...

E tem mais. Quem precisa de um carro para ir de A a B tem que comprar um Honda ou Toyota e ficar quieto. São as melhores opções no momento.
No futuro próximo serão os coreanos e chineses.
As montadoras tipo Mercedes, Audi e BMW já perceberam isso. Não teriam chance se não investissem em suas marcas para vender a mesma porcaria para iludidos. É a única chance delas e estão certíssimas.
O que a Fiat teria que fazer é reservar o nome Fiat para os populares tipo Milho e virar Alfa Romeo.

Paulo Levi disse...

Joel,
Acho que depois do período que a Maserati passou sendo chutada de um lado pro outro (Citroën, De Tomaso etc.), a Ferrari até que fez um trabalho decoroso de recuperação da marca. Só que uns anos para cá houve um remanejamento de marcas dentro do grupo Fiat, e a Maserati passou para a guarda direta da marca mãe. E sem um Montezemolo por perto, ninguém segura a pressão para compartilhar plataformas.

Quanto aos "altri cinquecento", o Berlusca pode fazer o que quiser, mas devia ter respeitado aquilo a que o Tio Ribamar se referia como "a liturgia do cargo". Como diz a sabedoria dos antigos, "Dove si guadagna il pane, non si mangia la carne".

Paulo Levi disse...

Zullino,
A Alfa já "fiatzou" faz tempo, e provavelmente não escapará de ver o seu nome colado em algum Neon da vida. Por falar nisso, a Fiat também já pensou em colocar um top hat de Lancia sobre uma plataforma da Chrysler. O Vicenzo Lancia deve estar se revirando na tumba.

Na minha opinião, tanto a Fiat como as concorrentes francesas se saem melhor quando fazem carros pequenos e baratos. Nos segmentos superiores, seus produtos deixam muito a desejar.

E acho que você foi um pouco severo demais na sua avaliação da BMW. É verdade que ela não tem tantos troféus na prateleira quanto a Alfa, mas os resultados dos BMW 328 no pré-guerra (ncluindo uma vitória em sua categoria na Mille Miglia) não são de se jogar no lixo. Isso sem falar no título mundial do Piquet em 1983, por mais controvérsias que existam a seu respeito.

roberto zullino disse...

Eu sou BMW até debaixo d´água, mas apenas nas motos, tenho BMWs desde meus 20 anos. Já hospedei jornalistas que estavam dando a volta ao mundo de BMW motos. A tribo das Motos não fala com a tribo dos carros, isso vem de dentro da BMW. Jamais andei em um carro BMW nem como passageiro e nunca vou andar para não quebrar o record.
No entanto, a vitória deles nas Mille Miglia em 1940 é uma enorme mentira. Primeiro, já era guerra, segundo, correram contra ninguém, terceiro, a corrida foi em um circuito e não no trajeto Brescia, Roma pelo Adriático e voltando de Roma a Brescia pelo Mediterrâneo e passando pelas montanhas. Quarto, o carro não foi feito na Alemanha e sim na Itália pela carroceria Touring. Se fosse no trajeto normal nas estradas italianas da época a josta não resistiria 100 milhas.

Joel Gayeski disse...

Pois é Paulo, ele abusou dos poderes que tinha, e pior, com o dinheiro do povo italiano.

Zuzu, como assim a BMW não tem história?
Tem os 3.2 CSL, motores Brabham de F1 , os M3 E30 de DTM, isso sem falár no série 6 original e os fantásticos M3 e M5.