quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Pérolas da publicidade: Chrysler Cordoba

Se a Internet existisse em 1975, o comercial focalizado neste post seria um recordista em todas as mídias sociais. Bem sucedido desde o início, garantiu seu lugar na cultura popular americana e hoje contabiliza mais de meio milhão de views no YouTube. É difícil pensar em outro comercial dos anos 1970, em qualquer categoria de produtos, que tenha se mantido vivo na lembrança do público por tanto tempo.

Mas antes de falarmos sobre ele, vamos apresentar o carro para o qual ele foi feito: o Chrysler Cordoba, aposta de seu fabricante no segmento dos personal cars. Na peculiar nomenclatura do mercado americano, os personal cars eram automóveis de duas portas, grandes por fora e apertados por dentro, com linhas rebuscadas e uma abundância de detalhes meramente decorativos. Seus interiores eram descritos pelos fabricantes como exemplos do mais refinado bom gosto, mas não estariam fora de lugar nos cassinos e bordéis dos tempos de Al Capone.

A Chrysler demorou a lançar um produto nesse segmento, que era liderado pela GM com o Chevrolet Monte Carlo, mas quando o fez acertou na mosca: escalou o veterano ator mexicano Ricardo Montalbán. Radicado há muitos anos nos Estados Unidos, Montalbán era reconhecido por seu talento e versatilidade, tanto no cinema como na TV, tendo interpretado desde galãs romanticos até o maléfico Khan de Guerra nas Estrelas. Entretanto, foi sua atuação nesse comercial da Chrysler, e mais o seu papel como o Mr. Roarke do seriado Ilha da Fantasía, que haveriam de consagrá-lo para a posteridade.


No comercial do Cordoba, Montalbán encarna com maestria o estereótipo do gran señor ibérico, dizendo suas falas com uma pronúncia castelhana para americano nenhum botar defeito (por exemplo, Córdoba vira Cordôba) e com a entonação normalmente reservada às mais profundas verdades existenciais. O texto contribui para o efeito desejado, já que é escrito num inglês cuja estrutura sintática está mais para Calderón de la Barca do que para Shakespeare.

Aí está o comercial - e logo abaixo dele, uma adaptação do texto para o português.



Eu conheço minhas próprias necessidades. E o que eu preciso em um automóvel, sei que tenho neste novo... Cordoba.
Nada existe que eu possa exigir além da qualidade de construção de Córdoba... do bom gosto de sua aparência.
Nada existe que eu possa pedir além do luxo de seus assentos, disponíveis até mesmo em macio couro de Corinto.
Mas é na estrada que o Cordoba responde melhor às minhas exigências.
Neste pequeno Chrysler, tenho muito mais do que um grande conforto a um preço dos mais agradáveis: tenho uma grande confiança - e para isso, não há preço.
Em Córdoba, eu tenho o que preciso.
O ponto alto do comercial é a parte em que Montalbán se refere ao revestimento dos bancos como o "macio couro de Corinto". Ninguém nunca tinha ouvido falar nesse tipo de couro, mas pela canastrice que transparece nas entrelinhas, ninguém levou a informação muito a sério. Quando, tempos depois, se soube tratar-se de um nome inventado, a revelação serviu para reavivar a lembrança da propaganda. E o tal Corinthian leather, que já fazia a festa dos humoristas americanos, entrou definitivamente para a cultura pop do país.

Mas a graça desse comercial não está apenas no texto e na atuação de Montalbán: a ambientação, o figurino, os objetos de cena, tudo contribui para compor um irresistível clima de anos setenta. Até o tema do Concierto de Aranjuez, do serissimo compositor Joaquín Rodrigo, se encaixa à perfeição.

E lá, no centro de tudo, está o Cordoba. Aliás, tem coisa mais seventies do que chamar uma barca dessas de carro pequeno?

11 comentários:

Luís Augusto disse...

Cafona de meter medo, mas merece seu lugar na história. E a direção do comercial é mesmo perfeita.

Ron Groo disse...

Pode ser cafona, mas é lindo o carro.
Ao menos eu achei.

http://dioramanet.blogspot.com/ disse...

Beautiful and interesting site you have here ..

http://dioramanet.blogspot.com/

Paulo Levi disse...

Luís e Groo,
A década de 1970 foi um festival de poliéster, costeletas e saltos plataforma. Ninguém passou incólume por ela, seja automóvel, propaganda ou ser humano. É por isso mesmo que eu deixo as minhas fotos dessa época bem guardadinhas...rs.

Também acho que o Cordoba não é feio, principalmente em comparação com os personal cars da concorrência. Se não tivesse aquele meio teto de vinil nem as calotas imitando rodas raiadas, até que seria bem apresentável. Já o interior em macio couro de Corinto com acabamento capitonê não tem conserto.

Paulo Levi disse...

Dioramanet,
Dank u voor uw bezoek en uw vriendelijke opmerkingen!

Francisco J.Pellegrino disse...

É PL..os anos 70 como vc disse é melhor deixá-lo por lá mesmo...é exagerado para os padrões atuais, mas a mesmice automobilistica de hoje até incomoda.

Joel Gayeski disse...

Genial!
Mesmo detestando os seventies, não há como negar que esse comercial é uma pérola!
O que é mais notável é a ênfase na fala. Esse vai pros favoritos.

Leonardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leonardo disse...

Quando a propaganda se infiltra na cultura popular, é por que ela é boa de verdade. Capaz até de criar a raça canina "cofap".

Luís Augusto disse...

Boa lembrança!

Paulo Levi disse...

Verdade, Leonardo, a W/Brasil mereceu todos os prêmios que ganhou com essa campanha. E olha que a Cofap foi minha cliente na agência anterior...