domingo, 2 de outubro de 2011

Honda F1, a primeira página da história

O ano é 1962 e o local é uma fábrica em Saitama, no Japão. Yoshihito Kudo, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Honda, delega ao gerente de qualidade, Hideo Sugiura, uma nova atribuição: "Sugiura-San, vamos participar da Fórmula 1. Quero que você supervisione o projeto".

"Fórmula 1? Acho que já vi fotos disso, mas não sei bem o que é. Me explique, por favor".

"Também eu não sei," admite Kudo. "Mas tanto faz, no começo todo mundo é um principiante".

A história parece inventada, mas não é. O Japão de 1962 ainda não era a potência tecnológica e industrial que viria a ser poucos anos depois. A Fórmula 1, então quase que exclusivamente restrita ao continente europeu, era um feudo repartido entre os construtores ingleses e os italianos da Ferrari, com os alemães da Porsche no papel de figurantes. A Honda já começava a se tornar conhecida no ocidente como fabricante de motos (principalmente graças aos bons resultados obtidos em competições), mas daí para a Fórmula 1 havia um salto gigantesco. Exceto para Soichiro Honda, o visionário presidente e fundador da empresa, que identificou na categoria o caminho mais rápido para estabelecer suas credenciais também como fabricante de automóveis.


A aposta de Soichiro era ousada, para dizer o mínimo. Seus engenheiros sabiam tudo sobre motos de competição, mas praticamente nada sobre automóveis. O unico material didático de que dispunham, por assim dizer, era um Cooper-Climax da antiga Fórmula 1 de 2,5 litros, extinta havia mais de dois anos. O jeito foi recorrer ao seu know how motociclístico para a criar o primeiro automóvel japonês da categoria. 

Pouco mais de dois anos depois, o Honda RA271 fazia sua estréia em um GP. A reação dos concorrentes e observadores europeus variava entre o temor ao que chamavam de "perigo amarelo" e o ceticismo frente às soluções técnicas apresentadas. O motor do carro - um inédito V12 em posição transversal - era muito potente, mas o seu torque só se manifestava em regimes de rotacão elevadíssimos, exatamente como em um motor de moto. E o peso do conjunto era bem maior que o dos concorrentes, entre outras limitações.

Também causava estranheza o fato da Honda ter confiado a um ilustre desconhecido, o americano Ronnie Bucknum, a missão de pilotar seu carro na Fórmula 1. Bucknum, que era conhecido na sua Califórnia natal como um bom piloto de carros esporte, não tinha nenhuma experiência em monopostos, muito menos em carros de Fórmula 1. E para um piloto e um carro sem histórico na categoria, não poderia haver prova de estréia mais desafiadora do que o GP da Alemanha em Nürburgring.


Previsivelmente, o RA271 não completou seu primeiro GP. Ficou pelo caminho - ou mais precisamente ao lado dele, já que Bucknum sofreu uma saída de pista a três voltas do final, felizmente sem maiores consequências. E assim, os engenheiros e mecânicos da Honda deram início ao árduo trabalho de diagnosticar e sanar as deficiências do projeto à medida em que os treinos e as competições iam se sucedendo.

No ano seguinte, a Honda apresentou uma versão aperfeiçoada de seu carro e contratou o experiente Richie Ginther, ex-piloto da Ferrari e da BRM, para fazer dupla com Bucknum. Os primeiros pontinhos começaram a aparecer, mas uma vitória ainda parecia distante. Até que no GP do México, última prova da temporada, as portas se abriram e Ginther conquistou de maneira convincente aquela que seria a sua primeira e única vitória na Fórmula 1. Bucknum chegou em quinto lugar, marcando seus primeiros pontos e completando a festa da equipe japonesa.


Da estréia em Nurburgring até o triunfo no México, haviam se passado menos de 15 meses. Mesmo com todos os percalços que geralmente afligem uma nova equipe na F1, a Honda levou muito menos tempo para chegar à vitória do que marcas tradicionais como a Cooper, a Lotus e a BRM. O resultado também teve um grande significado histórico para a marca japonesa por outros motivos: o GP do México de 1965 foi a derradeira prova da Fórmula 1 de 1,5L, e apesar da longa e gloriosa história que a Honda ainda haveria de escrever na categoria, principalmente como fornecedora de motores para várias equipes, essa foi a única vez em que venceu um GP com um carro inteiramente de sua fabricação.

Imagens:  http://world.honda.com/history/

5 comentários:

Alejandro disse...

Foi tambem a primeira vitoria dos pneus Goodyear na F1 !!!

Ron Groo disse...

O filme Grand Prix pegou parte da história verdadeira e montou a aparição dos japoneses na F1.
Maravilha ler por aqui a verdade.

Paulo Levi disse...

Verdade, Alejandro. Outro fato digno de figurar no Guinness é que a metade dos pilotos que marcaram pontos eram americanos - além do vencedor Ginther e do quinto colocado Bucknum, tivemos Dan Gurney em segundo lugar.

Paulo Levi disse...

Groo, lembro da figura do Toshiro Mifune no papel de mandachuva da equipe japonesa. Se não me engano o filme foi rodado em 1966 (depois dessa vitória no México, portanto) quando os europeus levavam muito mais a sério o tal "perigo amarelo". Só que na vida real, esse ano passou em brancas nuvens para a Honda, que só voltaria a vencer em 1967 com John Surtees ganhando o GP da Itália nos métros finais, num desfecho que nem mesmo o diretor John Frankenheimer seria capaz de imaginar.

Francisco J.Pellegrino disse...

O homem criou uma empresa sensacional, excelentes produtos, naquela época do lançamento do filme a gente não entendia muito bem o que faziam os japoneses na fórmula Um...a influência européia era muito grande por aqui.