quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Brasil, Bulgária e Berlinetas

Com a chegada de Dilma Rousseff à Bulgária, a dilmamania toma conta da terra ancestral (por parte de pai) da presidente brasileira. As autoridades e a mídia locais dão à visita um tom de "a boa filha à casa torna" e se esforçam para encontrar pontos em comum entre Brasil e Bulgária. O prefeito da pequena Gabrovo, cidade natal do pai de Dilma, propõe um intercâmbio entre o carnaval de seu município e o do Rio de Janeiro. Faz sentido, já que Gabrovo se auto-intitula a capital internacional do humor.

Cartoon de Ivailo Tsvetkov no diário búlgaro 24 Horas
Brincadeiras à parte, Brasil e Bulgária têm algo em comum além da "conexão Dilma": o Renault Alpine, um automóvel que foi fabricado sob licença tanto aqui como lá. O nosso Alpine é o Willys Interlagos, um dos grandes ícones do automobilismo nacional nos anos 1960. O dos búlgaros é o Bulgaralpine, construído na localidade de Plovdiv entre 1967 e 1969.

No contexto brasileiro da época, o Interlagos era um carro de produção limitada, um modelo aspiracional que transferia prestígio ao seu fabricante. Era caro demais para a maioria dos consumidores, mas ajudava a vender os Dauphines e Gordinis que eram o ganha-pão da Willys. A existência de um modelo desses fazia (e continua fazendo) todo o sentido dentro da lógica da indústria automobilística, no Brasil e em qualquer outra economia de mercado.

Mais dificil seria justificar a produção do Alpine na Bulgária daqueles tempos, um país comunista pertencente ao chamado bloco soviético, fechado aos intercâmbios com o ocidente e avesso a qualquer iniciativa que não priorizasse (ao menos nominalmente) o coletivo sobre o individual. E poucos produtos no mundo são tão individuais quanto um carro esporte.

Mas havia uma brecha: a prática, comum em regimes autoritários, de usar o esporte para promover políticas de estado. É provável que os governantes búlgaros tenham pensado no ganho de auto-estima que as vitórias de um carro de concepção moderna, construido e pilotado por búlgaros, poderiam trazer ao país. Visto por este prisma, o Bulgaralpine não era um simples produto de consumo mas sim um material esportivo comparável a uma raquete de tênis ou a uma bola de futebol. Sua produção se justificava desde que o carro fosse utilizado somente pelos melhores pilotos da Bulgária, aptos a defenderem suas cores no exterior.

Iliya Chubrikov e o Bulgaralpine no Rally de Monte Carlo, 1971
Naturalmente, havia brechas dentro da brecha. Por exemplo, o cineasta búlgaro Vasil Mirchev comprou um Bulgaralpine para uso próprio, e ao seu volante foi de Sofia a Cannes para participar do Festival Internacional de Cinema de 1969. De onde se conclui que, independentemente de sua filiação ideológica, as elites sempre se dão bem.

Para a Alpine, um acordo com os búlgaros também parecia vantajoso. Além de receber royalties pela produção do modelo, a empresa de Jean Rédelé poderia contar com um novo fornecedor de componentes a baixo custo, graças à mão de obra barata do leste europeu.

O negócio também interessava à Renault, fornecedora de conjuntos mecânicos para a Alpine, pelo prestígio que o novo carro poderia transferir para os modelos 8 e 10 que já eram montados na Bulgária. Esse era um ponto estratégico para a Renault, que precisava tirar seu atraso em relação à Fiat no leste europeu.

Desde o começo, ficou definido que o piloto principal da recém-formada equipe Bulgaralpine seria Iliya Chubrikov, campeão nacional de ralis. O mesmo Chubrikov foi incumbido de dirigir a operação industrial na Alpine no país.

Iliya Chubrikov
Pouco se sabe sobre os resultados do Bulgaralpine em competições, mas parecem não ter correspondido às expectativas. Chubrikov chegou a participar de várias edições do Rali de Monte Carlo, mas não passou do 27º lugar. Deixando claro que o problema não era o piloto, venceu o Rali da Bulgária de 1971, prova que contava pontos para o campeonato mundial daquele ano. Só que nessa ocasião usou um legítimo Alpine francês, e não o similar búlgaro cuja produção havia se encerrado no ano anterior.

Ao todo, foram produzidos entre 60 e 120 Bulgaralpines - números irrisórios diante dos mais de 1500 Interlagos fabricados no Brasil. Segundo o colecionador Milcho Gospodinov, apenas quatro ainda estão em condições de uso. Considerando a magnanimidade que a presidente brasileira tem demonstrado em vários fóruns internacionais, talvez pudesse oferecer aos entusiastas búlgaros uma linha de crédito e apoio logístico para recuperar os Bulgaralpines em situação de risco. Se quiser dar um nome ao programa, pode chamar de Bolsa Berlineta.


Imagens: http://www.24chasa.bg/Article.asp?ArticleId=1064668 (cartoon Dilma); http://forum.rally-club.bg/viewtopic.php?p=44260 (Bulgaralpine A110); http://www.toyotabg.net/viewtopic.php?t=11342&sid=eeb143ce8a3f96dbc4bd420ee4210056 (Iliya Chubrikov, em foto de P. Dufek).

8 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

PL, pode ter certeza que algum dos nossos estimados representantes no congresso (vai minusculo mesmo)abraçará esta tua idéia....do Bolsa Berlineta....

Luís Augusto disse...

Não conhecia essa história. Pela foto parece que o búlgaro vinha do A-110.

Belair disse...

E a bolsa-paciencia para o pobre pagante de impostos,quando sai?

Paulo Levi disse...

Chico, você acaba de me dar uma idéia: vamos lançar o movimento dos Sem-Berlineta.

Paulo Levi disse...

Luís, o Bulgaralpine era mesmo um A110. Pena que no Brasil tenhamos ficado só no A108. Mas tenho a impressão de que a montagem dos nossos "Alpines" era feita em bases mais profissionais, até porque ao contrário dos búlgaros já tinhamos uma indústria automobilística bastante desenvolvida por aqui.

Paulo Levi disse...

Belair, o Bolsa-Paciência está sendo construído nos canteiros da EMOBRÁS. Mas ainda vai demorar um tempinho pra ficar pronto, porque ele terá de ser do tamanho de vários Maracanãs pra dar conta do recado.

Gustavo disse...

Eu faria uma PPP, trazemos o carro de lá e patrocinamos a reforma para uso em território nacional.

Paulo Levi disse...

Muito justo, Gustavo. Um brinde a essa PPP, em nome da união e da fraternidade entre os povos da Bulgária e do Brasil!