sábado, 24 de setembro de 2011

O resumo da ópera (e um pequeno guia de viagem)

Nota do blogueiro: o post de hoje conclui a cobertura do Elkhart Lake Vintage Festival deste ano. A partir do próximo post, a periodicidade do Adverdriving deverá voltar ao seu ritmo habitual de um post a cada seis ou sete dias. Aproveito a oportunidade para agradecer aos leitores que acompanharam e comentaram os posts dessa série.


Vale à pena viajar aos Estados Unidos para assistir a um evento como o Elkhart Lake Vintage Festival?

Vale sim, e muito. Admirar automóveis clássicos em um ambiente de museu ou de exposição é ótimo, mas vê-los em ação num autódromo é outra coisa. Principalmente quando há quantidade e variedade de participantes: foram mais de trezentos no Vintage Festival deste ano, de modestos Volvos e Datsuns aos monstros sagrados da CanAm, passando por  preciosidades do pré-guerra como Bugattis e Lagondas. E tudo isso em um circuito dos mais velozes e seletivos, que guarda certa semelhança com o de Spa-Francorchamps.




Durante três dias, respira-se automobilismo histórico em Elkhart Lake. Você sai do hotel e dá de cara com um Ferrari 250 GT. Anda uma quadra, e passa por Porsches, Jaguars e Alfas de diferentes períodos. Janta onde Bruce McLaren e Denis Hulme comemoraram suas vitórias, toma o café da manhã ao som distante mas perfeitamente audível dos motores girando alto nos primeiros treinos do dia. Vai ao autódromo e assiste a dezesseis corridas, praticamente sem intervalo entre uma e outra. Circula à vontade pelo paddock, sem nenhuma barreira entre você e os carros. Enfim, um pedaço do paraíso.

O custo de uma viagem dessas não chega a ser nenhum absurdo. Conforme o caso - e desde que o dólar não dispare de vez - pode ser pouca coisa mais caro do que ir a Araxá para o Brazil Classics Fiat Show, ou à Argentina para a Autoclásica. E certamente é muito mais barato do que ir à Inglaterra assistir ao Goodwood Festival of Speed ou ao Goodwood Revival, principais referências mundiais em matéria de automobilismo histórico. Mesmo que você tenha apenas uma semana de férias, dá tranquilamente para ir a Elkhart Lake e ainda sobram dois dias para curtir em Chicago, uma cidade com muita coisa interessante para se ver e fazer.


Gostou da idéia e quer assistir à edição 2012 do Vintage Festival? Aqui está um guia prático para facilitar as coisas.

Quando ir

O Vintage Festival acontece na primeira quinzena de setembro e dura três dias, de sexta a domingo. Programe-se para pegar um vôo para Chicago na quarta à noite, o que permitirá que você chegue a Elkhart Lake na tarde de quinta feira.

Se quiser recuperar o fôlego na chegada a Chicago, há bons hotéis nas imediações de O'Hare, o aeroporto internacional da cidade. Um deles é o Country Inn and Suites de Mount Prospect, onde a diária sai por menos de 80 dólares se a reserva for feita com antecedência. E olhe que isso inclui o café da manhã, o transporte de ida e volta ao aeroporto e os impostos. Se precisar fazer alguma compra antes de seguir viagem para Elkhart Lake, esse hotel oferece um atrativo adicional: está a menos de 20 minutos de carro do Woodfield Mall, um dos maiores shopping centers da região metropolitana de Chicago.

Como chegar 

Várias empresas aéreas voam de São Paulo para Chicago, mas a única a oferecer vôos diretos é a United Airlines.

De Chicago a Elkhart Lake, vá de carro alugado.  O trajeto leva cerca de duas horas e meia por estradas ótimas e bem sinalizadas. Mas é bom evitar o horário de pico (entre quatro e seis da tarde).


Calcule uns 65 dólares por dia de locação, incluindo seguro e impostos. Foi o quanto eu paguei para alugar um big uncle's car igual a esse aí embaixo.


Onde se hospedar 

Uma boa opção é o Siebkens Resort. Não é bem um resort no sentido brasileiro da expressão, mas sim um hotel familiar de porte médio, confortável e bem localizado. Além disso, sua história se confunde com a própria história do automobilismo em Elkhart Lake. A diária sai na faixa de 150 dólares mais impostos. Não serve café da manhã, mas em compensação não cobra pela conexão wi-fi.


O antigo circuito de rua passava bem em frente ao Siebkens Resort
Ingressos

Os ingressos podem ser comprados antecipadamente pelo site do circuito de Road America. O passe de três dias sai por 80 dólares; se for comprado com pelo menos dez dias de antecedência, o preço cai pela metade. Mas há um senão: o envio de ingressos para fora dos EUA é obrigatoriamente feito por uma empresa de courier, e o custo desse serviço praticamente anula o desconto. De qualquer forma, pode-se comprar ingressos no local sem filas nem qualquer tipo de complicação.

Como chegar ao circuito (e se locomover dentro dele)

Road America fica a poucos quilometros do centro de Elkhart Lake, mas fora do perímetro urbano. É um pouco longe para ir a pé, a não ser que você tenha fibra de triatleta e não se incomode em correr sobre o cascalho do acostamento. Portanto, vá de carro - você poderá entrar com ele no autódromo como parte do preço do ingresso, e poderá estacionar pertinho da pista.

Definitivamente, não é carro de tiozão
Diferentemente de Interlagos, Road America não proporciona aos espectadores uma visão semi-panorâmica. Quem quiser se deslocar pelo circuito (que tem mais de seis quilômetros de extensão) para acompanhar as provas de pontos diferentes terá de camelar um bocado. Mas há uma alternativa: alugar um carrinho de golfe, fazendo reserva com bastante antecedência pelo site do circuito. A locação não é barata - 245 dólares pelos três dias do evento - mas dividindo por dois até que compensa.


O que comer (e onde)

O must da gastronomia local é o bratwurst, uma versão mais rústica e condimentada da salsicha alemã do mesmo nome. Pode não ser um paradigma da alimentação saudável, mas é uma delícia - ir a Elkhart Lake e não comer bratwurst é o mesmo que ir à Bahia e não comer acarajé. E o melhor lugar para fazê-lo é no próprio autódromo, num dos vários quiosques de lanches ali instalados. Com uma nota de dez dólares, você almoça um belo sanduíche de bratwurst acompanhado de chucrute e salada de batatas, e ainda sobra troco para um sorvete.


À noite, a pedida é ir ao Lake Street Café, um restaurante bem no centrinho de Elkhart Lake. Por trás de uma fachada despretensiosa está uma cozinha que faria bonito em qualquer metrópole. Pedi as costelinhas de cordeiro com polenta cremosa, e não me arrependi. A conta ficou em cerca de 35 dólares, incluindo uma taça de shiraz australiano. Em São Paulo, uma refeição dessas não sairia por menos de 100 reais.

Um banquete imperdível onde a comida é apenas um detalhe 

A cada ano, uma personalidade do automobilismo esportivo é homenageada em um jantar (chamado, algo pomposamente, de "banquete")  que é realizado no sábado à noite no Osthoff Resort, o maior hotel da cidade. O homenageado deste ano foi John Morton, ex-piloto da equipe de Carroll Shelby e ponta de lança da ofensiva da Nissan no automobilismo ocidental. Seu relato sobre a evolução de sua carreira e sua relação com a equipes para as quais correu, feito com riqueza de detalhes e pontuado por muito humor, foi uma rara oportunidade de conhecer os bastidores do automobilismo americano nos anos 1960 e 1970 a partir da vivência de um de seus principais protagonistas.


Não sei quem será o homenageado do banquete do ano que vem, mas se a fala de John Morton servir de parâmetro o evento será imperdível. O custo do convite este ano foi de 40 dólares - mas conhecer a história na voz de quem ajudou a fazê-la não tem preço.

Imagens: arquivo pessoal do autor - reprodução permitida mediante atribuição a este blog 


Imagens de terceiros: Nissan Sentra (www.nissanusa.com), Siebkens Resort (www.siebkens.com), bratwurst (www.johnsonville.com) mapa de Wisconsin (Google Maps) e John Morton (autoria desconhecida) 


Agradecimento especial a Pam Shatraw, assessora de comunicação do Elkhart Lake Vintage Festival, e a Henry Adamson, diretor do Vintage Sports Car Drivers Association, pelo apoio na realização desta cobertura


Nota: Todas as menções a estabelecimentos comerciais e prestadores de serviço neste post (bem como no resto deste blog) são feitas de forma espontânea e sem nenhuma finalidade de ganho, e não constituem endosso às empresas citadas 

11 comentários:

Guilherme da Costa Gomes disse...

Paulo,
e eu sempre fico pensando: um evento como este serve de inspiração para se fazer alguma coisa por aqui? para os moldes brasileiros, na sua opinião, como seria?

Paulo Levi disse...

Guilherme, seria ótimo termos algo parecido com o Vintage Festival aqui no Brasil. Imagino que para viabilizar uma versão nacional seria necessário contar com a liderança de uma entidade experiente em automobilismo histórico de competição - por exemplo, o MG Club do Brasil, que acaba de realizar a Mil Milhas Histórica, ou a Federação Gaúcha de Automobilismo, organizadora da Copa Classic.

Acredito que o ideal seria realizar uma prova dessas como o único evento do fim de semana, e não como simples "contorno" de uma série de provas para automóveis modernos. Caso contrário, o evento não conseguirá criar uma identidade própria.

Quanto ao local, é pena que tenhamos tão poucos autódromos no país. Uma possibilidade interessante seria o Velopark próximo a Porto Alegre, que já recebe as provas da Copa Classic e que por ser aparentemente administrado de maneira profissional, não descuidaria das questões de marketing que podem ajudar a viabilizar a iniciativa. Mas o ideal, mesmo, seria um autódromo um pouco mais afastado dos grandes centros urbanos, porque ai o evento teria uma importância maior na economia local e provavelmente contaria com maior boa vontade e envolvimento por parte do empresariado local e do poder público.

Belair disse...

E quem arriscaria o precioso carrinho historico correndo numa pista aqui no Brasil?Fora um destemido xara' seu la' do sul,seriam pouquissimos,acho. Poucos sao iguais ao Trevisan nesse quesito.

Luís Augusto disse...

Discussão interessante sobre um evento parecido no Brasil. Acho que temos carros para isso, já está passando da hora de fazer acontecer.

Francisco J.Pellegrino disse...

Os grandes eventos como Lindóia, Araxá, outros no Sul, "deveriam" ser acompanhados da parte histórico competitiva...vamos aguardar, já tivemos as MM Históricas, quem sabe vem mais alguma coisa por aí...
Paulo, excelente post.

Francisco J.Pellegrino disse...

Paulo, abaixo da foto do Lagonda é um Bugatti? e o motor usinado de um só bloco de aluminio ????

Paulo Levi disse...

É isso mesmo, Chico, é o motor de um Bugatti Tipo 51. Uma verdadeira obra de arte, não dá vontade de desgrudar os olhos dele. E andava muito bem, mas mesmo assim suava pra acompanhar o ritmo dos MG TC preparados. É o avanço da tecnologia...rs.

Ron Groo disse...

Ai sim, serviço completo... Quando for, vou lembrar deste post.

Paulo Levi disse...

Groo,
Quando você for, me chama que eu vou de novo!

Luiz Dranger disse...

Paulo,
Ótimo roteiro. Faltou só mencionar que poderia emendar o evento areonáutico de Oshkosh (aviões antigos) que acontece em agosto com esse aqui.
Abração
Luiz

Paulo Levi disse...

Luiz, a dica do Oshkosh Air Show é realmente muito boa. Mas me parece que esse evento é no final de julho, enquanto o Vintage Festival é no começo de setembro. No problem: em meados de julho, tem um evento ainda maior e mais espetacular em Elkhart Lake, o Kohler International Challenge. Nessa ocasião a cidadezinha fica bem mais cheia e muvucada, sendo preciso reservar o hotel com bastante antecedência. Também é imprescindível comprar os ingressos antecipadamente para não ter que encarar as filas nas bilheterias do autódromo.