segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Os Daimlers muito doidos de Lady Docker

Se alguma vez existiu na Inglaterra uma marca capaz de fazer sombra à Bentley e à Rolls-Royce, essa marca foi a Daimler. Apesar de um remoto parentesco com a Daimler alemã, a Daimler Car Company de Coventry era tão britânica quanto um concerto de Händel ou um terno da Savile Row. Entre os seus clientes figuravam membros da realeza e da aristocracia do Reino Unido, atraídos pela excelência de sua engenharia e pela sutil exclusividade de uma marca que parecia feita sob medida para quem não precisa provar nada a ninguém.

Certo dia, os caminhos da Daimler se cruzaram com os de Lady Norah Docker. Nascida Norah Turner em uma família de classe média remediada, ex-dançarina de boate, tornara-se uma dama do reino ao se casar com Sir Bernard Docker, presidente e chairman do conglomerado B.S.A. (Birmingham Small Arms Company), que entre outros empreendimentos controlava a fábrica de motocicletas do mesmo nome, várias linhas do metrô de Buenos Aires, e também a Daimler.

Mesmo antes do casamento com Bernard Docker, Norah Turner era um fenômeno de ascensão social: seus dois primeiros maridos, ambos empresários de renome e ambos já falecidos, haviam lhe deixado heranças mais que polpudas. Era uma mulher esfuziante e voluntariosa, qualidades que encantaram o comedido Bernard. Não tardou muito para que este a nomeasse para cuidar das áreas de estilo, marketing e relações públicas da Daimler.

Norah não tinha experiência nem qualificação em nenhuma dessas áreas, muito menos na indústria automobilística - mas essa era a alavanca que precisava para mover o mundo. Gostava de carros, não tinha a menor dúvida quanto ao seu bom gosto, e acreditava que isso seria o suficiente para revitalizar as vendas da Daimler no pós guerra.

Depois de uma rápida avaliação, Norah deu o seu veredito: a Daimler era apagada demais, e precisava de um banho de glamour. E mais: em vez de competir com Rolls-Royce e Bentley, deveria ser um objeto de desejo para os potenciais clientes da Jaguar, marca em grande ascensão naquele momento. Como fazer isso? Criando modelos especiais para serem expostos nos principais salões de automóveis, onde gerariam grande visibilidade e divulgação para a marca.

Passando das palavras à ação, Norah apresentou seu primeiro projeto: o Gold Car, uma limousine salpicada com sete mil estrelinhas douradas, em que todos os componentes que normalmente seriam cromados eram banhados a ouro. O interior do carro tinha como pièce de resistence um suntuoso bar em rádica com detalhes em marchetaria, complementado por um jogo de cristais assinados por Cartier.


A cada novo projeto, Norah carregava mais nas plumas e nos paetês. Assim nasceu o coupé que recebeu o nome de Blue Clover, decorado com milhares de estampas miúdas no formato de trevos azuis. O interior do carro era inteiramente em pele de lagarto tingida de um tom azul acinzentado. Até o volante era revestido com o mesmo material.


Se a intenção era causar impacto, os Daimlers de Lady Docker eram um sucesso. Todos comentavam sobre a marca, até mesmo quem nunca tinha ouvido falar a seu respeito. Essa nova imagem da Daimler não era alimentada apenas pelos seus produtos: o estilo de vida do casal Docker também contribuía para isso. E as percepções não eram necessariamente favoráveis.

Os Dockers eram figurinhas fáceis em todos grandes acontecimentos sociais da época, nos quais Norah geralmente podia ser vista bebericando champanhe rosé, sua bebida preferida. Não raro passava dos limites e se tornava inconveniente, como no batizado de Albert, príncipe herdeiro de Mônaco. Irritada porque seu primogênito Lance não fora convidado para o evento, Norah rasgou uma bandeira monegasca à vista dos anfitriões - e para arrematar, acertou um soco em um dos seguranças do palácio. Por conta do barraco, ela e seu marido foram expulsos do local e declarados personae non gratae no Principado.

Os tablóides ingleses e seus leitores se deliciaram com a história, que era apenas mais uma do gênero envolvendo o casal. Mas a tradicional clientela da Daimler torcia o nariz, deplorando a associação da marca a esse tipo de comportamento.

Apesar da notoriedade que a marca havia atingido, a realidade é que não estava conquistando novos clientes. Pior: os clientes antigos estavam abandonando o navio. Um dos sinais mais evidentes dessa desafeição foi a notícia de que o Principe Philip, marido da Rainha Elizabeth II e um dos clientes mais fiéis da Daimler, havia discretamente encomendado um automóvel novo à Rolls-Royce.

Mas Lady Docker tinha uma carta na manga: o Golden Zebra, um verdadeiro Taj Mahal sobre rodas repleto de ornamentos banhados a ouro, com um interior revestido em pele de zebra e apliques em marfim. O carro seria exposto na inauguração do novo showroom da Daimler em Paris, onde o dourado também seria o tom predominante na decoração.



Para não destoar do carro e do ambiente em que seria exposto, Lady Docker mandou fazer um vestido de lamé dourado com detalhes em mink - e tentou abater o seu custo (US$ 20 mil, uma soma fabulosa para a época) do imposto de renda. Naturalmente, o fisco de Sua Majestade não engoliu a justificativa de que se tratava de um custo operacional, e o maridão precisou pagar os impostos devidos. E lá foi o casal Docker para a primeira página dos tablóides mais uma vez.

Para os membros do conselho da B.S.A., essa foi a gota d'água. Os Dockers haviam literalmente passado da conta com sua ostentação e falta de decoro. Em uma tensa reunião em maio de 1956, Sir Bernard Docker era destituído da presidência da empresa. Pela sua reação, jamais imaginava que isso pudesse acontecer.

Lady Docker ficou arrasada, e entre lágrimas desabafou:
Não é a perda dos carros dourados que faz que eu me sinta assim. Eles eram o máximo, não eram? Eram como filhos para mim. Não, o que mais dói é que a linda festa que eu iria dar para os 25 mil funcionários da B.S.A. no dia do meu aniversário, uma festança que agora não vai mais acontecer. Como podem ter feito isso com ele (NR: Bernard Docker) depois de dezessete anos? Um homem tão trabalhador, tinha até uma linha direta entre o nosso iate e a empresa.
Mas sua tristeza não duraria muito. Para afugentá-la, nossa indômita lady foi às compras e voltou para casa com um Bentley Continental novinho em folha. "Na verdade", explicou ela com toda a naturalidade do mundo, "eu sempre gostei de Bentleys".

EPÍLOGO

Quatro anos depois da demissão de Sir Bernard Docker, a Daimler foi vendida para a Jaguar. Aos poucos, foi perdendo o que restava de sua identidade, processo que se acelerou depois das sucessivas incorporações da empresa compradora à BMC, à British Leyland, à Ford e à Tata Motors. O último Daimler, que deixou a linha de montagem em 2009, era apenas uma versão mais luxuosa do Jaguar X-type, que por sua vez era construído sobre a plataforma do Ford Mondeo.

Os Dockers foram morar na ilha de Jersey, notório paraíso fiscal ao sul da Inglaterra. Sir Bernard, que nunca se refez do baque de sua saída forçada da empresa, morreu em 1978. Já Lady Norah, que não suportava os habitantes do lugar - em suas palavras, "as pessoas mais chatas e horríveis que jamais existiram" - fez as malas  e foi curtir a vida (e o champanhe rosé) no circuito Maiorca - Londres. Morreu na capital britânica em 1983, aos 77 anos.

Imagens: www.daimler.co.uk (Gold Car); www.svammelsurium.blogg.se (Blue Clover); AlfvanBeem /Wikimedia Commons (exterior Golden Zebra); www.autoexpress.co.uk (interior Golden Zebra)

Imagem do thumbnail: cartum de autoria de Fortuna (com adaptação deste blog)

4 comentários:

Joel Gayeski disse...

Eu imaginava que a Daimler tivesse sucumbido por alguma besteira administrativa, mas não desse quilate.
Lady Docker era uma perua barraqueira pra caramba, hehe.

Anônimo disse...

Parece ficção! Nem coberta de ouro ia dar pra disfarçar que a mulher era brega!

Um bj, Marilia

Francisco J.Pellegrino disse...

Lady Norah, perua barraqueira assumida, conforme o estimado Joel, nosso Ibrahim Sued do antigomobilismo...fala sério, os anos 50 tem uma fartura destas figuras no jet set internacional.Aprendí mais uma hoje e agradeço a vc.

Paulo Levi disse...

Joel, Marília e Francisco,
A todas essas definições eu acrescentaria mais uma, só para ficar dentro do espírito da época: "uma pequena do barulho".

Da mesma forma que Nubar Gulbenkian, Norah Docker foi uma precursora da personalização automotiva. As coisas que o Kourosh Mansory faz atualmente (http://www.mansory.com) são apenas uma evolução do que os dois faziam.