sábado, 6 de agosto de 2011

Obra do Capeta

Já dizia Baudelaire que o maior dos truques do capeta (tá bom - o poeta usa a palavra "diable", mas dá no mesmo) é o de nos fazer crer que ele não existe. Não é esse o caso do automóvel da foto, o Willys Capeta, cuja existência material pode ser conferida in loco no Museu do Automóvel de Brasília.


Ainda que a dissimulação maligna não faça parte de seu arsenal de truques, o elegante GT construído sobre a base do Aero Willys tem um passado mais do que misterioso. Não há registros oficiais a seu respeito, e pouco se sabe sobre os bastidores do projeto. O que se pode dizer ao certo é que o Capeta foi exposto pela primeira vez no Salão do Automóvel de São Paulo de 1964, e que a Ford - que comprou a Willys em 1967 - o cedeu em comodato a Roberto Lee para que o pioneiro colecionador o expusesse em seu museu de Caçapava, no interior do estado de São Paulo.

Com a morte trágica de Lee e a disputa judicial por seu espólio, o carro ficou à mercê do descaso dos herdeiros e da ação dos vândalos até ser resgatado por José Roberto Nasser, curador do Museu do Automóvel de Brasília, que o restaurou com o empenho dos verdadeiros apaixonados e com o apoio legal e financeiro da própria Ford.

Ao que tudo indica, o Capeta nasceu para ser apenas um show car. Produzi-lo em série teria um custo proibitivo, e a mecânica do Aero Willys estava longe de ser uma boa base para um automóvel de alta performance. Além disso, poderia ter o efeito indesejado de canibalizar as vendas do esportivo da montadora, o Interlagos.

Mas em 1964, a concorrência da Willys no segmento dos esportivos dava sinais de grande vitalidade - basta pensar no GT Malzoni e no Brasinca 4200 GT, ambos apresentados naquele mesmo ano - e a segunda maior montadora brasileira não podia chegar ao Salão do Automóvel sem nenhuma novidade para mostrar. Um belo gran turismo ajudaria a desviar o foco dos concorrentes e provaria ao público a sua capacidade de desenvolver um projeto à altura dos melhores do mundo.

Algumas fontes atribuem o desenho do Capeta a Rigoberto Soler, o responsável pelo projeto do Brasinca 4200 GT. Outras afirmam que seu autor foi Roberto Araújo, diretor do departamento de estilo da Willys. Na abalizada opinião de José Roberto Nasser, que compartilho, não se trata de um trabalho de Soler. O mais provável é que o carro tenha sido criado por membros do departamento de estilo da Willys, sob a direção de Araújo.

Seja como for, o resultado é um automóvel de linhas belissimas. Quem o viu no Salão do Automóvel de 1964 não hesitou em compará-lo às melhores produções italianas do período. Mas o que ninguém (ou quase ninguém) sabia naquela ocasião é que o Capeta é extraordinariamente parecido com um automóvel italiano que o precedeu em um par de anos.


Que automóvel é esse? O Ferrari 250 GT SWB com desenho de Bertone. Produzido em exemplar único assim como o Capeta, o modelo se destinava oficialmente ao uso pessoal do presidente da empresa, Nuccio Bertone. Mas também tinha a função de ajudar a convencer Enzo Ferrari a contratar a Carrozzeria Bertone para projetos futuros. O que nunca veio a acontecer: Ferrari gostava de flertar com outras carrozzerie, mas a sua empresa era praticamente casada com a Pininfarina. Hoje, esse raríssimo automóvel pertence ao mexicano Lorenzo Zambrano, magnata do cimento em seu país e dono de uma das maiores coleções particulares de Ferraris no mundo.

Se as semelhanças existentes entre o Brasinca 4200 GT e o Jensen Interceptor são um eterno motivo de discussões entre os entusiastas brasileiros, o que dizer sobre os dois automóveis focalizados neste post? O Capeta é assim por pura coincidência, ou teriam os desenhistas da Willys, pressionados para criarem um show car impactante a tempo para o Salão de 1964, se inspirado abertamente no Ferrari desenhado dois anos antes por Bertone? Com a palavra, o leitor.

Imagens: http://quatrorodas.abril.com.br/acervodigital/ (Capeta); www.purotuning.com (Ferrari 250 GT SWB Bertone)

5 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

É Paulo, nunca saberemos realmente a verdade sobre este assunto do Capeta ! Mas são bem parecidos.

Ron Groo disse...

eu acho este carro mais bonito que o Brasinca, e olha que o Brasinca é lindo demais.

Bons tempos em que a industria automotiva brasileira não se contentava em lançar um monte de carros uns iguais aos outros mudando apenas a marca e uns detalhes de farol...

Joel Gayeski disse...

Ferrari genérico, passo.

Anônimo disse...

Sou designer automotivo e digo sem duvidas que não existe coincidências assim... Isso como muitos outros é mais pura copia.

Mas é um belo carro e de valor inquestionavel.

Paulo Levi disse...

Tendo a concordar com o autor do comentário das 11:22 do dia 12/08. Era bem mais fácil aparecerem "coincidências" assim nos tempos em que não existia a internet, e as revistas importadas eram um luxo para poucos.