quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Deu a louca nos nomes

Antigamente, quando a indústria automobilistica brasileira era risonha e franca, nenhuma montadora precisava quebrar a cabeça para dar nome aos carros. Um Gordini era um Gordini, um DKW era um DKW, um Aero Willys era um Aero Willys, e fim de papo.

Com o tempo, as montadoras passaram a oferecer diferentes níveis de acabamento para um mesmo modelo, o que fez surgir a necessidade de ter nomes que diferenciassem uma versão de outra. Para tanto, bastava lançar mão de termos como Standard e Luxo (e se preciso fosse, Super Luxo), os quais com o tempo evoluiriam para formas abreviadas como S, L e SL.

Opala e Corcel, um luxo só
Mas aí, outras siglas começaram a pipocar e as coisas foram se complicando. O nome luxo deu lugar às siglas LS e GL, que alçariam vôos mais altos ao se desdobrarem em GLS e GLX. Já na hierarquia da Fiat, as versões SX e CS ficavam acima da S. E engrossando ainda mais a sopa de letrinhas, havia também as siglas das versões esportivas, como R, TS, S/R, GTS e GSI.


À essa altura, já era grande a confusão na cabeça dos consumidores. Foi quando alguém na Ford teve a brilhante idéia (provavelmente enquanto comia uma banana) de usar nomes como Ouro e Prata para o Corcel e o Del Rey. A Fiat veio atrás com o Tempra, que também ganhou versões Ouro e Prata. Mas logo ficou claro que nem todas as bananas e os metais preciosos do mundo seriam suficientes para dar nome à enxurrada de versões que a indústria automobilística já começava a despejar no mercado.

Hoje, vivemos a era do nome pelo nome, sem compromisso com a semântica nem com a ordem hierárquica das coisas. Não cobre coerência a um nome desses. Basta que ele soe bem, que tenha uma certa plasticidade gráfica e que sugira modernidade e status - ainda que tenha sido criado para designar o mais pelado e obsoleto dos automóveis 1.0.

Confirmando que santo de casa não faz milagre (nem mesmo no caso das marcas de origem francesa e italiana), o inglês é a lingua franca dos nomes de versão. Em tese, isso poderia criar um certo constrangimento por parte dos consumidores. Mas a preocupação é infundada, já que esses nomes não apresentam a menor dificuldade para quem tira de letra expressões como sale, big brother e reality show.

Pensei em aprofundar o assunto analisando os nomes das versões mais difundidas em nosso mercado. Mas logo entendi que não haveria lógica em usar uma abordagem cartesiana neste caso, e assim optei por uma leitura mais impressionista - e por que não dizer, mais leve. E para não me alongar demais, me ative às duas montadoras que utilizam esse tipo de nome com maior desenvoltura: a Fiat e a GM.

Tirando a sorte no palitinho, vamos começar por esta última.


Joy em inglês é alegria. Mas é bem mais do que isso: é uma alegria pura, jubilante, incontida. Como a alegria de um taxista preso em um congestionamento no horário de pico. Ou a de uma mãe de família tentando apartar uma briga de criança no banco de trás. Afinal, não foi para isso que você comprou uma Meriva?

Life é vida - um conceito existencial muito elástico, como a maioria dos conceitos existenciais. Ele tanto pode se referir ao carro da sua vida, que parece ser feito para você, como a um carro para toda a vida, daqueles que você não consegue vender por mais que se esforce. A escolha é sua.

Wind é um nome perfeito para a versão 1.0 do Corsa. Se não houver um ventinho de popa para ajudar, é bom ligar avisando que você vai chegar mais tarde.

Way é o rumo e o caminho, um conceito em que o existencial se funde com o místico. Em Minas Gerais, terra de origem do modelo, a palavra é também de muita utilidade quando usada no contexto adequado e com a pronúncia certa. Se você não é mineiro, é melhor não arriscar.

No limiar entre o espiritual e o esotérico, Spirit é uma palavra que em inglês também tem o sentido de bebida destilada, ou mesmo de álcool puro. Talvez seja uma mensagem subliminar patrocinada pelo lobby do etanol.

A palavra Essence existe não apenas em inglês como também em francês. Nos dois idiomas, ela significa o mesmo que em português, ou seja, essência. E essência remete àquilo que é essencial, básico - a despeito de ser esse o nome que designa as versões top de vários modelos da Fiat.

Vale destacar que em francês Essence tem o significado adicional de gasolina. Seria uma mensagem subliminar patrocinada pelo cartel do petróleo?

A idéia para um nome como Attractive só poderia ter partido de uma  mãe coruja que insiste em louvar a beleza de seus próprios filhos, por mais feios que eles possam ser. Assim: "Ele não é mesmo uma gracinha?"

No passado, Elite era apenas um nome ligeiramente pretensioso; hoje, é um rótulo carregado de conotações político-ideológicas. Se você estiver dentro de um carro com esse nome, evite circular perto de manifestações dos chamados movimentos sociais.

Um Advantage é o carro ideal para quem quer se dar bem na vida. Porque o importante é levar vantagem em tudo, certo?


Imagem meramente ilustrativa
Fechando o nosso Top 10, um nome tão recente que ainda não possui representação gráfica: Cult, escolhido pela Fiat para batizar as versões de entrada do Fiat 500 que virá do México e não mais da Polônia. Com essas versões, a Fiat pretende aumentar significativamente as vendas do modelo, que nunca decolaram no Brasil em razão do preço. Ou seja, até hoje o 500 tem sido cult até demais. Nessa sua nova investida, com um precinho mais em conta e o novo nome de versão, talvez consiga amenizar o seu lado cult para se tornar mais pop.

Como eu dizia, não cobre coerência aos nomes de versão.

8 comentários:

Ron Groo disse...

Posso te fazer uma confissão... Até hoje eu não sabia o que era o S, L, SL...

Agora, continuo sem saber os Outros GLX, XL, e tal...

Só sabia o GT, e olha lá.

Quanto as novas nomenclaturas... Way é a pior de todas. Até porque sempre há "caminhos" melhores que qualquer carro que leve way no nome.

Belair disse...

Wind e Way: impagáveis !!!
Ainda estou rindo.
Lembre-se que Wind tambem designa flatulencia...

Paulo Levi disse...

Groo,
Lembro de uma pesquisa do tipo discussão em grupo em que uma das participantes se referia ao Fiat dela como Prêmios. Era "o meu Prêmios" pra lá, "o meu Prêmios" pra cá - e ninguém entendia o porquê daquele plural. O mistério só se desfez quando alguém resolveu checar a ficha de recrutamento da moça e viu que o "Prêmios" dela era, na verdade, um Prêmio S.

Paulo Levi disse...

Belair,
Bem lembrado, esse outro sentido da palavra. Aliás, em inglês o ato de ultrapassar um carro desses seria "passing Wind", o que tem tudo a ver com a sua observação.

Francisco J.Pellegrino disse...

Não deve ser fácil escolher o nome para os automóveis...quando eu trabalhei na Willys tínhamos o Projeto M e não sabíamos qual seria o nome final do carro....aí apareceu a Ford na nossa vida e quase já no início de 1968 é que começamos a receber os emblemas com o nome Corcel....acertaram na mosca o nome, quando apareceu o protótipo do Corcel GT a gente suspirava...bons tempos.

Paulo Levi disse...

Francisco, muito interessante esse seu depoimento. Na época, eu tinha a impressão de que o "M" do Projeto M fosse a inicial do meio do presidente da Willys, William Max Pearce. Procede, ou era apenas uma letra escolhida ao acaso?

Já o nome Corcel é geralmente atribuído ao Mauro Salles, que cuidava da conta publicitária da Willys e continuou a realizar esse trabalho para a Ford. Corcel remetia aos nomes então usados pela Ford inglesa, muitos dos quais começavam pela letra C (Consul, Corsair, Cortina). Ao mesmo tempo, estabelecia um vínculo com o Mustang, maior sucesso da Ford na época, igualmente batizado com um nome "equino".

Aliás, outro nome que fazia parte dessa mesma vertente equina era o do Ford Pinto, comentadíssimo no Brasil mesmo sem nunca ter dado as caras por aqui.

Anônimo disse...

Muito bom! Estou rindo até agora!
Marilia

Francisco J.Pellegrino disse...

PL, eu não tenho conhecimento do que seria a letra "M"...no próximo encontro dos ex-funcionários da Willys vou perguntar ao pessoal...