sábado, 23 de julho de 2011

Plagio, homenagem, coincidência

Uma das discussões que sempre vêm à tona entre os entusiastas brasileiros é aquela que diz respeito às semelhanças de estilo entre o Brasinca 4200 GT e o Jensen Interceptor. Estariamos diante de um plágio? E em caso afirmativo, quem plagiou quem?



O Brasinca foi lançado em 1964, e o Jensen em 1966. Essas datas pareceriam dar razão aos que acreditam que o brasileiro tenha sido plagiado pelo inglês, mas a questão não é tão simples assim. Para saber onde está a verdade, é necessário estabelecer alguns parâmetros conceituais que permitam investigar o assunto sem se deixar afetar pelo calor do debate.

Para começar, precisamos definir o que é plágio. Poderiamos recorrer ao Houaiss, ou quem sabe a um compêndio jurídico, mas talvez um exemplo prático seja mais indicado. E no contexto deste nosso assunto, nada exemplifica o plágio melhor do que o automóvel que vemos na foto abaixo.


O Lifan 320, cópia chinesa do Mini, é o padrão de excelência do plágio automotivo, um carro que tem toda a autenticidade de um rolex de camelô. O fato de ser um pouco menor do que o Mini e de ter duas portas a mais não chega a ser um atenuante, já que a intenção salta aos olhos. As principais diferenças entre os estilos da cópia e do copiado estão em aspectos que no carro chinês parecem estar subordinados a questões de custo e de facilidade de produção, como o formato dos paralamas dianteiros e a largura das rodas.

Convenientemente, o Mini que serviu de modelo à Lifan é também um bom ponto de partida para tratarmos do tema das homenagens no contexto automotivo. Diferentemente do plágio, a homenagem não é a tentativa de chupar o original com casca e tudo, mas sim a referência seletiva aos seus principais atributos. Em música, esse procedimento encontra paralelo nas variações sobre os temas de outro compositor, via de regra pertencente a uma outra época. Assim foi com Chopin em relação a Mozart, e com Brahms em relação a Händel. O Mini da BMW é exatamente isso, uma variação sobre o tema do Mini original lançado em 1959, com a legitimidade adicional de ser produzido pela detentora da marca.

Modelos retrô como o Mini quase sempre são homenagens, mesmo quando a identidade do homenageado não está muito clara - vide Nissan Figaro e Chrysler PT Cruiser. Os exemplos mais reconhecíveis de homenagens automotivas são o VW New Beetle, o Ford Thunderbird e o Fiat 500, todos inspirados em modelos que marcaram época na história de seus fabricantes.


     Ford Thunderbird

Um exemplo de automóvel retrô sem parentesco com o modelo que o inspirou é o Mazda MX-5, também conhecido como Mazda Miata. Visualmente, o pequeno roadster japonês lançado no início dos anos 1990 lembra muito o Lotus Elan fabricado entre 1962 e 1975, o que o levou a ser acusado de plágio na época de seu lançamento. Mas as acusações não procedem, já que o Miata é claramente uma homenagem, uma variação sobre o tema do Elan executada no mesmo espírito do Mini e dos demais modelos retrô citados anteriormente. Se algum outro fabricante resolvesse lançar uma cópia do Miata, aí sim poderiamos falar em plágio.

     Lotus Elan
     Mazda Miata

A homenagem automotiva não precisa obrigatoriamente ter como referência um veículo do passado: vários automóveis europeus do início dos anos 1960, como o NSU Prinz e o Hillman Imp, podem ser considerados homenagens ao Chevrolet Corvair do mesmo período. Não são plágios porque são carros muito menores do que o compacto americano, ao ponto que nem o mais desavisado dos leigos seria capaz de confundi-los com ele.    

     Chevrolet Corvair
     NSU Prinz

Por fim, há as coincidências. Que, muitas vezes, não são exatamente coincidências, mas sim tendências que estão no ar. A integração dos paralamas ao corpo da carroceria em vários automóveis do imediato pós-guerra (Studebaker, Crosley, Cisitalia etc.), que poderia ser vista como uma coincidência, foi na verdade a materialização de uma tendência. O mesmo vale para a generalização do uso de faróis quadruplos nos automóveis americanos a partir de 1958.

Outra coincidência é a presença de um elemento ornamental de inspiração aeronáutica (ou, alternativamente, de um terceiro farol) na parte frontal de Fords, Studebakers, Tuckers, Rovers e Panhards da virada da década de 1940 para a de 1950, ainda que isso não tenha passado de um modismo.

     Tucker Torpedo

     Rover P4

     Panhard Dyna

E assim, aqui estamos nós de volta ao Brasinca 4200 e ao Jensen Interceptor que deram origem a este post. Ainda que exista uma inegável semelhança entre os dois, não seria correto falar em plágio nem em homenagem. O mais provável é que se trate mesmo de uma coincidência e que os seus respectivos designers tenham bebido nas mesmas fontes, entre as quais provavelmente estavam o Studebaker Avanti de 1962 e o show car Chevrolet Testudo de 1963.

     Studebaker Avanti

     Chevrolet Testudo

Há muito desses dois automóveis tanto no Brasinca como no Jensen, principalmente no que se refere às proporcões gerais e ao enorme vidro panorâmico na parte traseira. E basta olhar para o perfil do americano Avanti para reconhecer elementos que também estão presentes no esportivo inglês e no brasileiro, como o formato trapezoidal da coluna C e as pequenas janelas logo atrás da coluna B.

Portanto, amigos entusiastas, vamos dar um descanso a essa velha discussão. Tanto o Brasinca 4200 GT como o Jensen Interceptor são automóveis belíssimos e cheios de personalidade, e as semelhanças que existem entre os dois estão longe de caracterizar o plágio. Em vez de usá-los para continuar alimentando polêmicas, melhor seria se lhes déssemos o reconhecimento que merecem por interpretarem, cada qual à sua maneira, algumas das principais tendências do design da época em que foram criados.

Imagens: arquivo pessoal do autor (Brasinca 4200 GT); www.jensencars.org (Jensen Interceptor Mk1); divulgação (Lifan 320); Arpingstone/Wikimedia (BMC Mini); www.brunner-group.com (VW Concept 1); http://www.autotrader.com (Ford Thunderbird, Mazda Miata/MX-5); anônimo/Wikimedia (Lotus Elan); Revista Time, via Wikimedia (Chevrolet Corvair); http://www.nsuprinz.com (NSU); http://www.thetruthaboutcars.com (Tucker); http://classiccarsales.ie (Rover P4); Guillaume27/Wikipedia (Panhard); http://www.rmauctions.com (Chevrolet Corvair Testudo)

16 comentários:

Luís Augusto disse...

Paulo, consegui uma foto dos dois - Brasinca e |Jensen lado a lado e é possível notar como as proporções são diferentes.
Abraços
http://antigomoveis.blogspot.com/2009/01/eu-no-acho.html

Ron Groo disse...

Mas o Lifan é chinês, logo é meio reduntante falar em plágio... O que eles não falsificam, copiam na cara dura.

Aqui em Franco tem dois Lifan e um Mini, as vezes o dono do Mini estaciona de propósito perto do Lifan e a gente se delicia comparando.

Ron Groo disse...

Só uma duvida... Figaro não é um Nissan?

Paulo Levi disse...

Você está certo, Groo - o Figaro é mesmo da Nissan, e não da Daihatsu. Obrigado por apontar o erro, que já foi corrigido.

Sobre o Lifan, já vi alguns em SP com os emblemas do Mini. Aliás, se eu fosse dono de Mini, botava esses emblemas no seguro.

Paulo Levi disse...

Luís, concordo totalmente com você. Não há plágio - há apenas a coincidência de os dois terem bebido nas mesmas fontes.

E como a maioria dos que comentaram a respeito no seu blog, também gosto mais das linhas do Brasinca, que parecem ter envelhecido melhor que as do Jensen.

Francisco J.Pellegrino disse...

Concordo com vcs, os desenhos dos carros são coincidentes, não plágio. O Lifan tem um motor barulhento demais...copiada a idéia e o resultado final é ruim demais.

Joel Gayeski disse...

A 4 Patas tem que ler esse post. Faz uns 11 anos que li lá sobre a "parecência" do Jensen com o Brasinca. Pelo que andei pesquisando, é só aqui que falam em suspeita de plágio.
Esse Lifan ao vivo é bem pior que por foto, parece um Mini que ficou ao sol e derreteu.

Mauricio Morais disse...

Não posso afirmar que não haja plágio, mas também não dá pra afirmar o contrário, é muita coincidência de linhas...
Mas o Walter Hann, que construiu o Brasinca junto com o seu criador o prof. Soler poderia jogar alguma luz sobre esse assunto.

Mauricio Morais disse...

Ia me esquecendo Paulo, texto brilhante e ricamente embasado.

Joel Gayeski disse...

É verdade que o Interceptor era muito mal-feito ao ponto de usarem caixas de direção aleatórias?
Pergunto porque quem disse foi o Jeremy Clarkson e como ele sempre tende ao exagero...

Paulo Levi disse...

Joel, tenho cá pra mim que a insistência na tese de que o Uirapuru/Brasinca foi plagiado pela Jensen se deve, ao menos em parte, àquilo a que Nelson Rodrigues se referia como "síndrome de vira-latas". Acho que nós brasileiros já estamos grandinhos o suficiente para não precisar desse tipo de coisa.

Paulo Levi disse...

Joel,
Sobre os problemas de qualidade do Interceptor, nunca tinha ouvido falar dessa história das caixas de direção mencionada pelo Clarkson. Mas deve ser verdade, considerando o descalabro que era a indústria automobilística inglesa do período.

Segundo a Classic Cars, os primeiros Interceptors produzidos na Itália pela Vignale tinham inúmeros problemas de qualidade e exigiam um retrabalho enorme. Esses problemas teriam sido sanados depois que a própria Jensen passou a montar os carros. Mas o curioso é que, no caso dos coupés Volvo 1800 montados sob contrato pela Jensen, a qualidade era tão ruim que os suecos tiveram que encerrar a produção do modelo na Inglaterra antes que a sua imagem ficasse irremediavelmente comprometida. Vá saber onde está a verdade...

Joel Gayeski disse...

Paulo

Isso tem um pouco de RGT (ela não me paga, portanto não cito o nome hahaha)com todo o ufanismo que contamina a maioria.

Não duvido que os Jensen [i]by Vignale[/i] fossem ruins, já que até Ferraris já foram carros mal construídos. Mas também é bem plausível que a Jensen pudesse puxar a sardinha pro assado dela.

Paulo Levi disse...

Francisco e Maurício, obrigado pelos comentários!

E você está certo, Maurício - seria muito interessante saber o que o Walter Hahn tem a dizer sobre esse assunto.

Anônimo disse...

Parabéns pelo blog.
Trabalho com tecnologia automotiva na Digital Tuning e adoro carros. Seu blog me mostra um lado mto interessante sobre os mesmos.

Mais uma vez parabéns. Gde. abraço, Ana.

Paulo Levi disse...

Ana,
Obrigado pela visita e pelo seu comentário, você é sempre bem-vinda por aqui.