segunda-feira, 4 de julho de 2011

Peter Brock e o Holden FX, uma saga australiana em Goodwood

No próximo dia 10 de julho, irá a leilão em Melbourne um automóvel que ocupa um lugar especial no coração dos entusiastas australianos: um Holden 48-215, mais conhecido como Holden FX.

Esse foi o primeiro automóvel produzido na Austrália, e só isso bastaria para explicar sua importância. Lançado em 1948 e fabricado até 1953, o FX é hoje um ícone automotivo nacional cujas raízes são tão profundas quanto as do Fiat 500 italiano e as do 2 CV francês em seus respectivos países - mesmo sendo derivado de um projeto da GM americana anterior à Segunda Guerra Mundial.


Mas esse Holden do leilão é um automóvel duplamente significativo: foi ao seu volante que o piloto mais querido dos australianos, Peter Brock, participou daquela que foi a sua última corrida disputada em circuito fechado.


Pouco conhecido internacionalmente, Brock foi uma figura dominante no automobilismo dos antípodas, onde tinha a estatura de uma celebridade de primeira grandeza. Sua popularidade junto ao grande público só encontra paralelo em ídolos como Richard Petty e Dale Earnhardt nos Estados Unidos, e Ayrton Senna no Brasil.

Em 2005, Brock foi à Inglaterra para participar do Goodwood Revival, o maior festival de automobilismo histórico naquele país. Apesar de ter gostado do que viu, ficou frustrado com os problemas mecânicos do Vauxhall que lhe fora confiado para a prova reservada aos sedãs dos anos 50. Voltou para a Austrália imaginando como seria divertido desafiar os ingleses em sua própria casa com um sedã australiano daquele período.

No ano seguinte, conversando com seu amigo Philip Munday, Brock tocou no assunto casualmente. Munday, um aficionado por Holdens clássicos, ficou entusiasmado e prontificou-se a ceder um dos automoveis de sua coleção - um FX todo original, fabricado em 1953 - para que Brock pudesse realizar seu desejo. Como faltavam só três meses para a próxima edição do Goodwood Revival, tudo teria que ser feito a toque de caixa.

A preparação do FX ficou a cargo de Ian Tate, um dos maiores experts em motores Holden na categoria V8 Supercars. Começando pelo bloco do velho FX – um seis em linha de quatro mancais com apenas 2.2L de cilindrada – Tate aumentou o diâmetro dos cilindros, elevando a capacidade cúbica para 2.4L. Instalou um comando bravo e substituiu o carburador original por três SU horizontais de 44 mm cada. Ao final do processo o motor rendia quase 200 CV, o bastante para brigar de igual para igual com os ingleses e demais europeus.


Completando a preparação, o câmbio original foi substituido por uma robusta caixa Muncie de quatro velocidades, associada a um diferencial autoblocante. Os freios dianteiros a tambor deram lugar a discos, e a suspensão foi endurecida com novas molas e amortecedores Koni. Depois de um rápido shakedown no circuito de Calder Park, o carro foi embarcado para a Inglaterra.



Em Goodwood, a lista de concorrentes impunha respeito. O grid incluia pilotos do calibre de Derek Bell, Jackie Oliver e John Fitzpatrick, com seus Jaguars, Austins e Standards preparadíssimos e milimetricamente acertados em função das características do circuito. Definitivamente, a corrida não seria um passeio para aquele australiano quase desconhecido e seu sedã esquisitão.

Mas logo de saída, Peter Brock surpreendeu a todos, das arquibancadas aos boxes, ao marcar o quarto tempo nos treinos. De curiosidade exótica, o Holden FX passou rapidamente a potencial vencedor.

  Foto: Peter Singhof/www.barchetta.cc

Brock não ganhou a corrida mas deu muito trabalho aos favoritos, terminando em quarto lugar entre trinta participantes. Se tivesse tido mais tempo para ajustar o carro à pista (principalmente no que diz respeito a relações de marcha e redução final) poderia ter disputado a vitória com o Jaguar de Derek Bell. Em reconhecimento à sua atuação, os organizadores do evento concederam-lhe o troféu Spirit of Goodwood.



Dessa vez, Brock voltou para casa bem mais feliz. Mas quis o destino que tivesse pouco tempo para comemorar o resultado: menos de uma semana depois de desembarcar na Austrália, sofreu um acidente fatal ao participar de um rali no oeste do país.

A morte do veterano piloto deixou os australianos em estado de choque. Brock fazia parte do cenário nacional havia tanto tempo que parecia envolto em uma aura de invulnerabilidade. Assim, a lembrança ainda recente da incursão em Goodwood ficou registrada como um momento feliz – infelizmente o último - na carreira do ídolo.

Não se sabe o que acontecerá com o Holden FX de Brock depois do leilão. Talvez vá parar em um museu, talvez seja arrematado por um colecionador particular. E talvez volte algum dia a Goodwood, tendo ao volante um dos novos valores do esporte a motor australiano. Não sei o que Brock teria a dizer sobre essa última hipótese, mas algo me diz que ele aprovaria.

Imagens: http://www.peterbrockfoundation.com.au (thumbnail); http://aso.gov.au (screenshot vista frontal do Holden FX); http://www.drivermagazine.com.au (vista 3/4 do Holden FX, motor preparado); http://www.barchetta.cc (largada em Goodwood); http://motoring.ninemsn.com.au (Holden FX em ação em Goodwood)

5 comentários:

Luís Augusto disse...

Bela história. Os Holden podem ter começado como cópias dos GMs, mas logo alcançaram identidade própria e até ensinaram os americanos a fazer carros - quem não se lembra do Monaro copiado pela Pontiac para relançar o GTO? Sobre esse pioneiro, é mesmo uma bela peça.

Paulo Levi disse...

É por aí, Luís. Além disso, o atual Camaro também deve a sua existência à Holden. E o "nosso" Omega não deve nada, porque é um Holden.

Francisco J.Pellegrino disse...

Ótima história,sabemos pouco dos australianos e suas competições. Aprendí mais uma.

Joel Gayeski disse...

Ah a Austrália....
Gostei do FX, assim como da história.
E pensar que lá teve Opala V8, a base do Camao vem de lá, Tem "Omega" esportivo pra todos os gostos, incluindo picape e "Suprema".

Paulo Levi disse...

Um pequeno P.S. para essa história: o Holden FX de Brock foi vendido no domingo passado por cerca de US$340 mil. O comprador, cuja identidade não foi revelada, é um residente da mesma Melbourne onde foi realizado o leilão.

Para quem ainda não viu uma prova do Goodwood Revival em vídeo, vale à pena ver porque é uma coisa espetacular. Uma boa amostra, da edição do ano passsado, está em http://www.youtube.com/watch?v=RJ-BdhKwBpQ