sexta-feira, 15 de julho de 2011

Automóvel, o teu nome é mulher (Parte 2 - Final)

O post de hoje complementa e conclui o anterior, no qual apresentamos os perfis de Victoria, Giulietta, Isabella, Octavia e Ondine.


     Flavia e Fulvia


São italianas como a dupla Giulia e Giulietta, mas bem menos convencionais do que seus nomes e sua aparência poderiam fazer crer. As duas têm em comum a tração dianteira, uma raridade na Itália dos anos 1960. Mas à parte isso são muito diferentes entre si: Flávia, com seu motor boxer de quatro cilindros, é maior e mais refinada, enquanto Fúlvia com seu V4 é a irmãzinha nervosa e esportiva.

Primeiras e únicas representantes da Lancia com nomes femininos, foram também as últimas antes do casamento forçado com a Fiat. Daí em diante, a identidade da família foi se diluindo até não sobrar praticamente mais nada.

Notícias recentes dão conta de que o nome Flávia estaria para ser ressuscitado. Mas não se anime: o carro ao qual ele será aplicado é um Dodge Sebring repaginado e disfarçado de Lancia. Pobre Flávia, não merecia isso.

    Silvia

Com seu nome latino e uma elegância despojada que faz lembrar os melhores trabalhos de Giovanni Michelotti, poderia facilmente passar por mais uma italiana. Mas as aparências enganam: Silvia é japonesa e faz parte da família Nissan. Suas linhas foram traçadas pelo alemão naturalizado americano Albrecht Goertz, também autor do magnífico BMW 507 roadster. Apenas quinhentas e poucas unidades do modelo foram produzidas entre 1964 e 1965, o que faz de Silvia uma raridade muito cobiçada entre os colecionadores.

A Nissan voltaria a usar o nome Silvia a partir de 1974, mas nenhuma das sucessoras tinha a beleza da original. Ao contrário, em sua maioria as outras Silvias eram bem feiosas, alimentando os estereótipos que perseguiram os carros japoneses até recentemente.

    Marina

Quando Marina nasceu, sua família passava por uma interminável crise de identidade, conforme evidenciado pelo número de vezes que mudou de nome (BMC, BLMC. British Leyland). E como se não bastassem suas próprias trapalhadas, ainda tinha que conviver com a intransigência suicida do sindicalismo britânico do início dos anos 1970.

Marina chegou ao mercado atrasada e sem um pingo do carisma de seus irmãos Mini e Austin 1100, para não falar na esportividade dos primos Healey e MG. E o nome de origem mediterrânea não poderia ser menos apropriado para essa apagada senhorinha inglesa: Madge ou Mildred teriam sido escolhas melhores. 

    Elise

Também é inglesa, e também vem de uma família com um histórico conturbado. Mas diferentemente de Marina, Elise nasceu bonita e talentosa - e continua assim até hoje. Seu nome é uma homenagem à neta do italiano Romano Artioli, dono da Lotus entre 1993 e 1998. Só pelo fato de ter presidido ao nascimento da Elise automotiva, Artioli merecia um monumento.

    Zoe

Mesmo antes de nascer, ela já foi objeto de uma áspera disputa judicial. Isso porque Zoe virou um dos nomes prediletos dos pais franceses da atual geração, e estes se insurgiram contra o seu uso por um fabricante de automóveis. O resultado foi uma mobilização nacional contra a Renault, que foi obrigada a deixar o nome em banho-maria enquanto os magistrados deliberavam sobre a questão. Recentemente a empresa teve ganho de causa, e assim a francesinha elétrica poderá seguir seu caminho como Zoe.

Em tempos não tão distantes, a Renault já havia usado nomes femininos sem maiores problemas. Clio e Mégane podiam não ser tão comuns quanto Camille e Sophie na época em que chegaram ao mercado, mas nada de mais aconteceu. Ainda não havia a Internet para juntar os descontentes e potencializar sua voz, nem era tão prevalente o ethos do politicamente correto que enxerga fantasmas em toda parte, até mesmo em um inocente nome de automóvel.

Para mim, o affaire Zoe remete a recordações familiares, já que esse era o nome de minha avó. Bastante comum em vários países europeus na época de seu nascimento, já estava praticamente extinto na geração posterior à dela. E como o mundo dá voltas, Zoe retorna à cena para servir de nome a uma nova geração de meninas - e também ao automóvel que a Renault apresenta como a cara do futuro, um futuro movido a energia elétrica.

Vovó ficaria espantadíssima. Ou não, já que na sua infância os automóveis elétricos eram quase tão comuns quanto os movidos a gasolina.

Imagens: Craig Howell/Wikipedia (Lancia Flavia Coupé); Semnoz/Wikipedia (Lancia Fulvia Coupé); Tennen-Gas/Wikimedia Commons (Nissan Silvia); Arpingstone/Wikimedia Commons (Morris Marina); TTNIS/Wikimedia Commons (Lotus Elise R); Divulgação (Renault Zoe)

13 comentários:

Luís Augusto disse...

Gostei da Silvia. Mas as mais sedutoras são mesmo as italianas.

Francisco J.Pellegrino disse...

Acompanho o Luís, ma il mio cuore italiano.....Giulia.

Luís Augusto disse...

Havia um Fulvia azul metálico que costumava aparecer nos grandes encontro, mas sumiu nos últimos anos.

Joel Gayeski disse...

Fulvia é uma italiana hipnotizante.

Já Marina mereceu todos os pianos que o Top Gear jogou sobre sua cabeça.

Ron Groo disse...

Só não gostei muito da Zoe, o nome e o carro são feios heheheh...

Mas e nacional? Não tem?

Anônimo disse...

Que texto lindo!
Um beijo,
Marilia

Paulo Levi disse...

Luís, Francisco e Joel, tendo a concordar com vocês sobre as italianas desses dois posts. A Fulvia é hors concours, e até mesmo a versão do Elio Zagato (esquisitona, como quase tudo o que vinha da prancheta dele) tem um carisma fantástico. Tive a oportunidade de pegar carona num carro desses há algumas décadas (não vou dizer quantas, hehe), e foram 45 minutos inesquecíveis, a 150 km/h de média numa autostrada italiana com uma tranquilidade impressionante para um carro daquele tamanho e com um motor de apenas 1.3L.

Paulo Levi disse...

Marília,
Obrigado pela visita e pelo comentário!

Joel Gayeski disse...

Paulo, que inveja, hehehe.
Dá uma olhada e aumenta o volume:
http://www.youtube.com/watch?v=-HcCrEliXHU&feature=related

Paulo Levi disse...

Joel, eu vi (e ouvi)!

O finalzinho do vídeo, em que o Clarkson compara o carro à Charlize Theron ao cair do sol, é a prova definitiva de que os brutos também amam.

Gianluca Vigilanti disse...

Parabens pelo Blog, novamente, pois o post antecedente não sei u que aconteceu....mesmo assim, acho legal informar quem não sabe que a Volkswagen copiou bastante o motor da Lancia Fulvia, ver o Vr6 e o próprio motor da Bugatti. Inerente a Flavia (meu pai ja teve uma), foi a primeira com 4 freios a disco, motor totalmente em aluminio, e demais coisas....

Gianluca Vigilanti disse...

Depois lendo melhor.....Tu esqueceu Lancia Aurelia, Lancia Flaminia. Estes nomes na realidade são femininos sim, mas são nomes de rodovias na minha terra, a Itália. Via Aurélia, Via Flamínia.

Paulo Levi disse...

Ciao Gianluca! Você tem toda a razão, os motores em "V" de ângulo estreitíssimo são uma inovação da Lancia. E a Flavia foi uma pioneira no uso dos discos nas quatro rodas. Eu ainda acrescentaria a Lambda de 1922, talvez a mais revolucionária de todas por ter introduzido a estrutura monobloco ("scocca portante") e a suspensão dianteira independente.

Quanto aos nomes das estradas romanas citadas por você, não houve esquecimento. Tanto a Via Aurelia como a Via Flaminia devem seus nomes aos cônsules romanos que as fizeram construir, respectivamente Gaio Flaminio e Caio Aurelio Cotta. Da mesma forma, o nome da Via Appia se refere a um cônsul romano, no caso Appio Claudio. Os antigos romanos eram avançados em muitas coisas - mas também eram um pouco machistas (rs), e não dariam nomes de mulheres a obras importantes como essas.

Salutissimi,

Paulo