segunda-feira, 11 de julho de 2011

Automóvel, o teu nome é mulher (Parte 1)

Desde que o mundo é mundo, os nomes de pessoas tem variado conforme os gostos e  padrões vigentes em cada sociedade e em cada época. Em ondas sucessivas, eles vêm e vão. O Thiago e a Thaís de hoje serão o Epitácio e a Eleutéria de amanhã.

Com os automóveis não é diferente. Se existisse uma enciclopédia com todos os nomes de modelos utilizados até hoje, haveria nela um verbete dedicado aos nomes de mulher. Um verbete não muito extenso porém instigante, ambientado principalmente nas décadas de 1950 e 1960. No post de hoje, o primeiro de uma série de dois, vamos traçar um perfil dos principais nomes que fazem parte desse hipotético verbete.

Victoria

Americana de Detroit, pertence ao ramo mais populoso (e popular) da tradicional família Ford. Mesmo assim, em meados da década de 1950 era tão classuda quanto os seus primos ricos, os Mercurys e Lincolns. Nem etérea como Audrey Hepburn, nem vamp como Marilyn Monroe, está mais para a Grace Kelly dos filmes de Alfred Hitchcock. Nunca se apresenta em público sem uma tiara na cabeça, como convém a uma verdadeira princesa.

Há homônimos na família - mais específicamente, uma avó nos anos trinta e alguns descendentes a partir dos anos setenta. Mas nenhum se compara à esplendorosa Victoria de 1955, um marco na história desse nome.

Giulietta 

Nascida em uma aristocrática família milanesa que se descobriu quase falida ao final da Segunda Guerra, Giulietta desdobrou-se em três (Berlina, Sprint e Spyder) para ajudá-la a recuperar suas finanças e a se tornar um ícone aspiracional para a classe média emergente do pós-guerra. Parecia feita sob medida para desfilar na Via Veneto e em outros boulevards da moda dos anos 50, mas também tinha um lado atlético que lhe valeu muitos sucessos no esporte. Foi sucedida por Giulia, que manteve inalteradas as suas qualidades (e até acrescentou algumas) até sair de linha, no final dos anos setenta.
 
Ha cerca de dois anos, nasceu em Turim uma neta à qual foi dado o nome Giulietta. Parece ser uma boa menina - mas, tirando esse nome e a boquinha em formato de coração, não tem nada em comum com a saudosa nonna.

Isabella 

Apesar do nome italiano, a elegante Isabella era alemã. Teria papai Borgward se inspirado em Giulietta (também nascida em 1954) para batizá-la? Provavelmente não: Isabella era o codinome do projeto, e no final foi mantido como nome oficial. Uma escolha bem mais feliz do que Gudrun ou Ursula, convenhamos.

Mas Isabella - também conhecida como a Dama de Bremen - tinha algo em comum com a ragazza de Milão: ambas eram igualmente acessíveis aos entusiastas de classe média. Num período em que a BMW andava mais perdida que Joãozinho e Maria no meio da floresta, essa era a única opção para quem quisesse ter um carro alemão de desempenho esportivo sem pagar preços de Mercedes.  

Isabella teve uma meia-irmã, Arabella, que nasceu e cresceu na família Lloyd e só depois de muitos anos traria o nome Borgward em seus documentos. Diz a lenda que Arabella teria despertado a paixão de Subaru, um japonês fissurado no motor boxer de alumínio da alemãzinha. Mas essa é uma história que fica para uma outra vez.

Octavia

Uma tcheca casca grossa, mas no bom sentido: é que a chapa de aço de sua carroceria era das mais espessas, denotando a ausência de métodos capitalistas de controle de custos na Skoda. Talvez possa parecer um tanto árida em seu visual de monitora da juventude socialista, mas é uma verdadeira deusa em comparação com a polonesa Warszawa e a russa Volga. Sua irmã Felícia se parece bastante com ela mas é mais saidinha, principalmente quando anda de capota abaixada.

Depois da queda do Muro de Berlim, a família de Octavia e Felícia passou a fazer parte do clã Volkswagen. Hoje, as duas têm uma sobrinha-neta, Fabia, que é a cara de um priminho alemão chamado Polo. 

Ondine

A irmã empetecada do Dauphine e do Gordini foi assim batizada para manter a sonoridade desses nomes. Teve vida curta, mas inaugurou na Renault uma linhagem de nomes femininos que teria continuidade com as netas Clio e Megane e com a controvertida bisneta Zoe - sobre a qual falaremos mais detidamente no próximo post do Adverdriving.

Imagens: www.lovefords.org/archive/roof/cars.htm (Ford Victoria); Thesupermat/Wikimedia Commons (Alfa-Romeo Giulietta Spider); Lothar Spurzem/Wikimedia Commons (Borgward Isabella Coupé); Radek Weigel/Wikipedia (Skoda Octavia); Detectandpreserve/Wikimedia Commons (Renault Ondine)

5 comentários:

Ron Groo disse...

Sensacional...

Eu já li em diversos lugares que os carros mais bonitos, com curvas mais acentuadas, sempre são inspirados em mulheres...

Até aquela bomba horrorosa do (fr)Ágile se olhar o conjunto e o arco dos vidros laterais tem um Q do olhar de uma egípicia...

Luís Augusto disse...

Hehehehe, texto poético. Não conhecia a Ondine. Tivemos uma "dama" bem discreta no Brasil, a Elba.

Francisco J.Pellegrino disse...

Muito bom o teu post como sempre...e aguça a nossa vontade de procurar nomes femininos nos automóveis...já estamos na arquibancada aguardando o outro post. Parabéns.

Joel Gayeski disse...

Poesia em prosa, muito bom Paulo.

Paulo Levi disse...

Caros, agradeço pelos seus comentários e fico contente que tenham gostado.

PS para o Luís: bem lembrada, a Elba. Mas é um caso meio ambíguo, já que Elba é ao mesmo tempo nome de mulher e nome de um lugar (a ilha de Elba, onde Napoleão passou uma temporada a caminho de Waterloo).