quinta-feira, 9 de junho de 2011

Museus de automóveis: o bom exemplo da China para o Brasil

Quando o assunto é automóvel, a vitalidade da China não se resume ao crescimento explosivo de seu mercado interno. Nem às sucessivas quebras de récordes na produção e nas exportações de veículos. O gigante asiático vive hoje um processo de descoberta da cultura automotiva, no sentido mais amplo do termo. Aliás, "cultura automotiva" agora é nome de disciplina acadêmica em várias universidades do país.

Um dos sinais mais visíveis desse fenômeno é o aumento do interesse por automóveis antigos. E aí, entra em cena um paradoxo com raízes históricas: antes do processo de liberalização conduzido por Deng Xiaoping, a China possuia uma frota de automóveis muito pequena, já que a maior parte dos veículos produzidos no país se destinava ao transporte de cargas e ao uso agrícola e/ou militar.


O uso de automóveis de passeio era restrito aos altos funcionários do Partido Comunista, que se confundia com o próprio estado chinês. Por esse motivo, e também pelo fato da China ter fechado suas portas para o resto do mundo de 1949 até o início dos anos oitenta, é relativamente pequeno o estoque de automóveis antigos em seu território.


Mas na China de hoje, as limitações do passado não tem impedido o florescimento de coleções particulares (inclusive com a importação de clássicos de grande valor), nem a construção de museus erguidos com apoio governamental. O mais recente exemplo disso é o Museu do Automóvel de Pequim, que acaba de entrar em operação em regime de soft opening.


Atualmente, apenas 70 automóveis compõem o acervo do museu de Pequim. Mas o espaço de 50 mil metros quadrados mostra que os chineses não pensam pequeno, sendo mais do que suficiente para abrigar muitas relíquias que presumivelmente ainda poderão ser garimpadas em várias partes do país. Além disso, o lugar se presta idealmente à realização de mostras de caráter educativo sobre a história do automóvel e a evolução das tecnologias empregadas em sua fabricação.

Esq.: o Dong Feng 1958, primeiro carro de fabricação chinesa

Réplica do Duryea 1901, automóvel mais antigo da China
ZIS 110, clone russo do Packard descoberto recentemente em Xinjiang
O outro grande museu de automóveis da China fica em Xangai e faz parte do gigantesco complexo denominado Shanghai Auto City, que entre outras coisas abriga o autódromo onde é realizado o GP da China de Fórmula 1. Suas instalações nada devem às do museu de Pequim, nem às de nenhum grande museu de automóveis no hemisfério ocidental.


Acima e abaixo: limousine Hongqi no Museu de Xangai


Naturalmente, as autoridades de Pequim e Xangai têm plena consciência do potencial desses museus para alavancar o turismo em suas respectivas cidades. Não são investimentos a fundo perdido, mas sim exemplos de como canalizar o interesse latente dos visitantes chineses e internacionais em benefício da economia das cidades anfitriãs, com reflexos sobre o orgulho cívico de seus moradores. Isso para não falar em sua utilidade como recurso educacional.

Como entusiasta por automóveis, admiro os chineses pelo trabalho que vêm fazendo no resgate de seu patrimônio automotivo. Mas como brasileiro, acho impossível ver iniciativas como essas sem me entristecer com o que acontece entre nós. Temos uma história automobilística muito mais rica que a da China, temos automóveis que são exemplos fantásticos de criatividade a partir de recursos limitados, temos coleções particulares de padrão internacional. Mas temos pouquíssimos museus abertos ao público, nenhum deles com instalacões remotamente comparáveis às desses museus chineses. O que mais se aproximava disso, o Museu da Tecnologia da Ulbra, foi estupidamente desmantelado depois de virar refém em uma estranha pendenga judicial envolvendo a entidade mantenedora, os sindicatos e o poder público. (Veja aqui). E ainda hoje, a ameaca de extinção ronda o Museu do Automóvel de Brasília, que corre o risco de ser desalojado para liberar espaço para - pasme - o arquivo morto do Ministério dos Transportes. (Veja aqui).

Ainda existe no Brasil uma deformação cultural que faz com que os governantes tendam a olhar para os museus de automóveis como mero capricho de uma elite alienada. Talvez uma viagem a Pequim e Xangai seja util para fazê-los rever os seus conceitos. Os governantes chineses já reviram os seus há muito tempo.

Imagens: http://www.echinacities.com (thumbnail); http://www.news.ucdavis.edu (poster agricultor); http://www.faw.com.cn (desfile militar); http://www.china.org.cn (exterior museu Pequim); http://english.cri.cn (interior museu Pequim); http://scenery.cultural-china.com (réplica Duryea); http://svvs.org (ZIS 110); http://shautomuseum.gov.cn (exterior museu Xangai/limousine Hongqi)

5 comentários:

Joel Gayeski disse...

Caí da cadeira agora, fico meio sem palavras.
Em menos de 20 anos (se a China não quebrar antes) teremos marcas chinesas com qualidade européia/japonesa.

Francisco J.Pellegrino disse...

Paulo, a China já está no futuro e nós continuamos acreditando que somos o "país do futuro". Bem, vamos comentar dos museus que naturalmente os chineses começarão a comprar carros antigos pelo mundo...e como vc disse nossa história automobilistica é rica, mas não sabemos preservá-la.

Luís Augusto disse...

Realmente a anacronismo brasileiro é de chorar. Mais uma vez estamos perdendo o trem da história. Pelo menos as coleções particulares e os museus privados (notadamente os do Badolato e do Trevisan) vingam por aqui.

Ron Groo disse...

Temos muito a aprender com a China, uma cultura milenar e bem cuidada só poderia cuidar bem mesmo de sua memória automotiva.

roberto zullino disse...

aprender o quê com os chineses? a ser capacho da inglesada e dos lusitanos por 500 anos? depois passar décadas debaixo de um doido morrendo de fome? mesmo agora seu desenvolvimento é questionável, poluem o mundo, as chamadas grandes empresas são espoliação do estado por particulares e tem um sistema político incompreensível e bastante duvidoso, sequer distribuem renda. o Proer chinês dos bancos foi de dar vergonha nos sarneys da vida e por aí vai. é uma país de milionários ladrões e o povo que se ferre, essa é a sabedoria milenar deles, "mateus, primeiro os teus".
Vão fazer carros bons? Já fazem, assim como fazem mais um monte de coisas. Vão vencer? Vão certamente, mas a que preço? Quem quer ser chinês aqui? Eu quero, mas só se for do lado certo, ser povo lá nem pensar.