sábado, 18 de junho de 2011

A cara do dono: os carros de Churchill, Roosevelt e Stalin

"Dize me em que carro andas e eu te direi quem és". Descontado o reducionismo da expressão, não há como negar que o automóvel é, dos artefatos do engenho humano, o que mais fielmente reflete a personalidade de seu usuário. A preferência por um determinado automóvel diz muito sobre a autoimagem de uma pessoa, o status a que aspira na sociedade, os valores que considera importantes, e até mesmo a sua visão de mundo.

Isso se aplica não só a pessoas como você e eu, mas também às que hoje fazem parte da História, com "H" maísculo mesmo. É o caso de Josef Stalin, Franklin Delano Roosevelt e Winston Churchill, os homens mais poderosos do mundo por ocasião da Conferência de Yalta, em fevereiro de 1945.


A Segunda Guerra Mundial já havia terminado na Europa, e o objetivo dessa conferência era discutir a configuração geopolítica do continente europeu no pós guerra. Apesar de aliados no combate a Hitler e Mussolini, havia profundas divergências a separar Stalin, Roosevelt e Churchill. O inglês temia as ambições expansionistas de Stalin, ao passo que Roosevelt preferia acreditar nas boas intenções do ditador soviético. Enquanto isso, este se esmerava no papel de anfitrião e assegurava a seus interlocutores que não faria nada que pudesse comprometer a autonomia dos países do leste europeu. No final, Churchill foi voto vencido, Roosevelt voltou para Washington certo de ter feito um bom acordo com Uncle Joe (o apelido pelo qual se referia a Stalin), e este começou imediatamente a por em prática os seus planos para submeter a Polônia e a Tchecoslováquia ao jugo soviético.

Josef Stalin havia chegado ao poder em 1922 depois de eliminar - inclusive fisicamente - seus rivais no partido comunista. A pretexto de modernizar o país e de construir uma sociedade justa e igualitária, transformou a União Soviética em um reino de intrigas, intimidação e brutalidade, enviando milhões de pessoas (dissidentes de fato, ou simples suspeitos) à morte certa nos campos de trabalhos forçados.

Como se vê, o ditador soviético era do tipo que sabe o que quer - e o modo como escolhia seus automóveis comprovava isso. Tinha grande apreço pelos Packard, que considerava superiores aos Rolls-Royce favorecidos por seu antecessor Lenin. Como figura de proa da vanguarda do proletariado, Stalin tinha a prerrogativa de usufruir o luxo e o conforto dos carros daquela marca americana, que na época estava um patamar acima de Lincoln e Cadillac. 

Ao que tudo indica, Stalin nunca chegou a dirigir um automóvel. Mas gostava de se refestelar no suntuoso compartimento traseiro do Packard no trajeto entre o Kremlin e as várias casas de campo que tinha à disposição, já pensando, quem sabe, nos expurgos que iria promover.  


Certo dia, o supervisor da garagem do Kremlin, Yemelian Yaroslavsky, avisou que estava na hora de renovar a frota, sugerindo que os novos automóveis fossem encomendados à Rolls-Royce. Stalin reagiu com irritação, já que não queria abrir mão de seus amados Packard, muito menos andar nos carros da marca preferida de Lenin. Mas depois de refletir sobre o assunto, concluiu que não ficava bem para uma potência emergente como a URSS, em acelerado processo de industrialização, depender de automóveis de fabricação estrangeira para as necessidades de locomoção de seus líderes. E em nome da soberania nacional, determinou que doravante a União Soviética fabricaria seus próprios automóveis de representação.

Providencialmente, quem apareceu para dar uma força foi a General Motors, que vinha monitorando as atividades da Ford na Rússia e não queria que a principal concorrente ocupasse mais espaços naquele mercado. Alfred P. Sloan, big boss da GM na época, ofereceu de mão beijada ao Kremlin o projeto do mais recente lançamento da Buick, o modelo 90L, incluindo seu motor de 8 cilindros em linha. E foi assim que, em 1936, nasceu o ZIS-101, primeiro automóvel de alto luxo feito na União Soviética.


Produzido de modo quase artesanal pela empresa estatal ZIS - sigla que em russo quer dizer "Fábrica Stalin" - o ZIS 101 de fato ajudou a reforçar a autoestima soviética. Mas como automóvel não era bem o que Stalin tinha em mente. E como Stalin era do tipo que sabe o que quer, a carroceria do sucessor desse modelo, o ZIS-110, foi feita à imagem e semelhança de um Packard. Nada de mais para alguém que costumava apagar dos retratos oficiais, na base do aerógrafo, a figura dos camaradas caídos em desgraça.


Mas em seu íntimo, Stalin sabia que o ZIS-110 era um Packard só na aparência. Por isso mesmo, gostava de ter à disposição alguns Packards de verdade na garagem, inclusive um Super Eight Touring modificado pela conceituada Derham Body Co. de Filadélfia, encarroçadora preferida dos  americanos endinheirados da época. Tanto, ninguém diria não se tratar de um legítimo ZIS produzido na pátria mãe.

No outro lado do Atlântico, os Packard também desempenharam o papel de automóveis de estado durante os dois primeiros mandatos de Franklin Roosevelt. Mas o carro preferido do presidente americano era um Ford Phaeton que ele dirigia pessoalmente nas visitas à sua cidade natal, Hyde Park, ou em sua propriedade rural no estado da Georgia.

Para Roosevelt, dirigir um automóvel era mais que um prazer: era uma experiência liberadora, uma reconquista ainda que temporária da mobilidade que perdera ao ser acometido por uma forma rara de neuropatia, inicialmente confundida com poliomielite, aos 39 anos de idade.


O Ford de Roosevelt fora equipado com comandos manuais para que o presidente americano pudesse dirigi-lo, já que a doença o privara do uso dos membros inferiores. Considerando as limitações tecnológicas da época, não devia ser nada fácil, quanto menos seguro, dirigir um automóvel com esse tipo de adaptação. Segundo o historiador Richard Langworth, numa das visitas de Churchill aos Estados Unidos o presidente americano convidou o colega inglês, seu hóspede em Hyde Park, para um passeio pelos arredores da cidade. Churchill depois relataria que sentiu medo quando o Ford dirigido por Roosevelt se aproximou perigosamente das barrancas do rio Hudson, e que suspirou aliviado ao retornar são e salvo à casa do anfitrião.


Chama a atenção o fato de Roosevelt ter escolhido um Ford para seu uso pessoal quando poderia ter optado por uma marca mais prestigiosa. Talvez um automóvel maior e mais pesado fosse mais difícil de dirigir com comandos manuais, especialmente em uma época em que ainda não havia recursos como transmissão automática e direção hidráulica. Em todo caso, não deve ter escapado à percepção de Roosevelt, hábil interprete da alma americana, o valor simbólico de ser visto e fotografado ao volante de um carro de uma marca essencialmente popular, a mesma utilizada por milhões de pessoas em todo o país. Isso sinalizava a sua empatia com o homem comum durante a Grande Depressão, um dos períodos mais sombrios da história dos Estados Unidos. O despretensioso Ford de Roosevelt tinha tudo a ver com o espírito dos Fireside Chats (em português, "conversas ao pé da lareira"), programas de rádio em que o presidente buscava manter viva a esperança dos americanos enquanto os programas do New Deal não produziam seus efeitos no combate à crise.

Assim como Roosevelt, Sir Winston Churchill também dirigia automóveis. Mas mesmo não padecendo de nenhuma limitação física, representava uma ameaça constante para os transeúntes e para a sua própria incolumidade. Sempre apressado para chegar a algum lugar, não conseguia controlar sua impaciência no trânsito londrino, o que não raro o levava a fazer coisas como invadir a calçada para fugir aos congestionamentos.


Depois de ser parado muitas vezes por policiais (que ao reconhecê-lo o liberavam prontamente), Churchill chegou à conclusão de que faria melhor se parasse de dirigir. As obrigações da vida pública absorviam a maior parte de seu tempo, e portanto fazia mais sentido delegar a tarefa a um profissional. Entre outras vantagens, teria as mãos livres para saborear um habano entre um compromisso e outro.

A escolha da palavra "tarefa" no parágrafo anterior não é casual, já que aparentemente Churchill só dirigia por obrigação. Não é que não gostasse de automóveis, apenas preferia que alguém o fizesse por ele. Sua marca favorita era a Daimler, e quando voltou à Inglaterra depois de uma viagem aos EUA - que incluiu uma estada num hospital de Nova York, onde foi atropelado ao atravessar a rua olhando para o lado errado - foi calorosamente recepcionado por um grupo de amigos e admiradores que o presentearam com um Daimler novo em folha.

Churchill tornou-se Primeiro Ministro da Grã-Bretanha em um dos momentos mais críticos de sua história. A Alemanha de Hitler, que já havia anexado parte da Tchecoslováquia, invadido a Polônia e transformado a Noruega em um virtual protetorado, acabava de invadir a França. Restavam aos britânicos apenas duas opções: resignar-se a um destino semelhante, ou lutar com todas as forças para frear o avanço alemão. Que foi o que fizeram, sob a liderança de Churchill.

Perspicaz em sua visão sobre o cenário internacional, firme em suas convicções e brilhante como orador, Churchill conseguiu mobilizar seus efetivos militares para a guerra e ao mesmo tempo preparar a população civil para encarar com realismo as dificuldades que a aguardavam. Não só isso, como também convenceu os Estados Unidos - onde antes do ataque japonês a Pearl Harbor prevalecia o sentimento isolacionista - de que aquele era um conflito mundial, e de que as forças americanas também deveriam intervir na Europa.

Muito provavelmente, a atuação de Churchill foi decisiva para impedir que Hitler levasse a cabo seus intentos. Mas apesar do reconhecimento de seus compatriotas quanto a isso, não conseguiu se reeleger nas eleições realizadas no país assim que a guerra terminou. As dificuldades econômicas do período favoreciam o partido trabalhista, e Churchill era um conservador. Além disso, é provável que tivesse inadvertidamente enviado os sinais errados aos eleitores ao fazer campanha a bordo de um Daimler, um dos símbolos mais reconhecíveis das classes dominantes da Inglaterra.


Durante a guerra, quando sua popularidade estava nas alturas, Churchill circulava a bordo dos Humbers da frota do ministério da defesa, sedãs espaçosos mas desprovidos de maiores conotações de classe social. É possível que tenha se lembrado disso ao analisar as razões de sua derrota eleitoral em 1945: nas eleições seguintes, trocou o Daimler pelo Humber, e conseguiu se eleger para mais um mandato como Primeiro Ministro.

Mas talvez nenhum outro automóvel represente melhor o espírito churchilliano do que o Land Rover Series I: robusto, carismático, e firme como uma rocha. O veterano estadista ganhou em exemplar desse carro como presente de aniversário em 1954, ao completar 80 anos. É pouco provável que tenha se sentado atrás do volante do landie, mas ficou feliz com o presente e posou com gosto ao seu lado. Para a foto ficar perfeita só falta um buldogue inglês - mas isso seria uma falsificação da história de proporções stalinianas, já que os cães prediletos de Sir Winston eram os poodles.


Imagens: http://sovavto.net (Stalin e o ZIS-101); http://ddtvl.com (Ford Phaeton de Roosevelt); http://richardlangworth.com/churchill-as-motorist (Churchill ao volante). Demais imagens: domínio público.

13 comentários:

roberto zullino disse...

Já o hitler e o goering ficavam com todas as mercedes fabricadas para eles, o mesmo fazia o mussolini com as alfas, basta ir em lindoya ou araxá que vai ver que é o que falam. nem sei como os 3 patetas arrumaram tempo para fazer uma guerra, deviam passar 24 horas guiando os carros atribuídos a eles, um mistério, talvez tivessem sósias para fazer a guerra, não iriam abandonar os carros na mão de qualquer um, acho que por isso perderam.

Joel Gayeski disse...

Zullino
Isso acontece em grau menor no Mercado Livre e no Webmotors onde tudo que é carro importado é "único no Brasil".

Paulo
Dos 3 só admiro o Churchill, já que além de ser um baita estadista, não era ditador nem se fazia de cego como o Roosevelt.

roberto zullino disse...

eu só admiro o Stalin por ser o único diferenciado e essa admiração não é lisonjeira, era um admirável assassino. foi um democrata até o osso, matou inimigos, amigos, parentes, contra parentes e mais uns 20 milhões de compatriotas e uns 6 milhões de alemães, poloneses ou assemelhados, jamais titubeou em meter bala em quem quer que seja, um homem completamente destituído de preconceitos de raça, cor, status, passou em frente levava bala.
o Churchil era muito mentiroso e muito chato, além de arrogante. O Duce era uma béstia completa, mas deixou frases admiráveis do tipo: é meglio un giorno da leone qui centi anni da pecora e aquela sobre os escoteiros, um cretino vestido de menino guiando um monte de meninos vestidos de cretino. no entanto, fazia igual com os Balila. o Hitler foi o caso típico do cachorro correndo atras do carro, quando o carro parou não sabia o que fazer e para que lado ir, só fez merda e não estou me referindo à perseguição dos judeus apenas, simplesmente ficou em um processo de "fuga para a frente" que deu no que deu. sem falar nos japas que também acharam que eram a última bolacha do pacote e tomaram uma porrada que dói até hoje.
dessa turminha aí só sobra o Stalin que foi quem no final ganhou a guerra praticamente sózinho, queiram ou não, foi quem fez a diferença, o resto foi coadjuvante. e ainda arrumou um tempinho para matar o Trotsky no México, o cara era de circo, perto dele o Hitler et caterva eram aprendizes de feiticeiro. a segunda guerra foi uma guerra de amadores contra um profissional, o Stalin, quem estava do lado dele ganhou, quem estava contra levou.

Francisco J.Pellegrino disse...

Detesto ter que concordar com o Zullino, mas o russo era uma fera. O maluco do alemão sem duvida gostava das Mercedes (deverão aparecer algumas em Lindóia com passado meio duvidoso, mas isto é outra história). Não sei pq mas todo vez que ouço o nome Packard me lembro do Ronald Golias na Familia Trapo...Daimler na mão de inglês naquela época era politicamente incorreto...ÓTIMO POST.

Anônimo disse...

Post Brilhante;

Concordo que o carro reflete a personalidade do dono, quando o bolso não atrapalha e nem as contingências cotidianas...

Churchil era genial, seu poder sobre a palavra incendiou a reação contra a Alemanha do - sempre - perdido do Hitler!

Stalin era um assassino grotesco!

Mister Fórmula Finesse

roberto zullino disse...

eu gosto do mal, sou contra a ética, caráter, bons costumes, isso é tudo invenção da classe dominante. adoro inimizades, brigas, essas coisas, Stalin rules forever, vou mandar fazer um retrato dele para por na cabeceira e me inspirar, desgraça pouca é bobagem, ele faz a diferença até hoje.
United forever in frienship and labor, almighty republic forever endure, the Great Soviet Union will lasts forever in the hearts of the people as a fortress secure. Stalin, our leader destroyed de invader e por aí vai.....

Francisco J.Pellegrino disse...

Zuzu, deste jeito vc vai parar no blog do anão comunista.....kkkkkkkkkkkkkkk

roberto zullino disse...

de maneira alguma, eu sou do mal, mas não sou comuna mais, quem não é comuna aos vinte não tem coração, quem é comuna depois dos 40 não tem cérebro.
sou stalinista, coisa muito diferente, ao invés de ser a favor da ditadura do proletariado somos a favor da ditadura do camarada Stalin, mas de bem longe, que o homem tinha coceira no dedo quando empunhava uma pistola.

Joel Gayeski disse...

O comunismo era só a fachada pro Staln fazer a limpa quando desse na veneta... e qual ditadura que não é assim?
Só que ele deixava até o Diabo com medo.

roberto zullino disse...

Agora você entendeu Joel, de todos o Stalin era o único que tinha poderes divinos, um anjo caído como Lúcifer, certamente já está chefiando o inferno, pois deve ter dado um golpe no Capeta.
o hitler, goering, roosevel, churchil e outros estão lá também, mas levam chicotadas do camarada Stalin todo dia e morrem de medo que ele aumente a temperatura do fogo.
Por isso sempre fui um bom menino e vou para o céu, tudo por inspiração do camarada Stalin. o capeta ainda dá para encarar, mas o camarada nem pensar, idolatria é isso, idolatra, mas fica bem longe.

Luís Augusto disse...

Hehehe, independentemente das discussões acima, um belo post. Mas o único carro relevante é mesmo o Buick disfarçado de Packard do Stalin.

Ron Groo disse...

Sensacional a matéria, só discordo de uma coisa... Os carros refletindo o dono...

Fico imaginando a quantidade de gente com cara de Corsa, Pálio... Tipo: quadrado e sem força, Sem requinte... sei lá... rs

Claro que foi brincadeira.
O texto é interessante demais, li com um sorriso de orelha a orelha.

Paulo Levi disse...

Agradeço aos camaradas comentaristas pelas relevantes contribuições para o avanço do nosso processo automotivo-dialético.