segunda-feira, 27 de junho de 2011

As mil e uma utilidades do Fiat Mio

O Fiat Mio, que andava meio sumido desde o Salão do Automóvel do ano passado, volta à cena em grande estilo: na semana passada, o "Carro do Futuro" da Fiat esteve do outro lado do oceano para competir no Cannes Lions, maior e mais prestigioso festival publicitário do mundo.

O Fiat Mio (que já foi tema de um post no Adverdriving - leia aqui) - é um carro-conceito criado a partir das sugestões de milhares de internautas em um processo conhecido como co-criação (ou criação colaborativa, ou criação open source, ou crowdsourcing - o nome pode variar, mas o conceito é o mesmo). Segundo a Fiat, mais de 12 mil internautas em 160 países enviaram mais de 17 mil sugestões através de um site (ou "plataforma colaborativa") especialmente desenvolvido para o projeto.

Os relatos vindos de Cannes falam em reações entusiasmadas ao case do Fiat Mio. Em sites, blogs e mídias sociais, o que mais se vê são comentários como "o carro roubou a cena", "o auditório aplaudiu de pé", "a Fiat arrancou aplausos da platéia", e outros na mesma linha.


Mas antes que alguém chegue a conclusões precipitadas, é bom que se diga que os autores desses comentários são majoritariamente brasileiros, muitos deles envolvidos direta ou indiretamente com o projeto. Há poucas menções ao assunto em fontes de outras nacionalidades. De onde se deduz que ou a platéia em Cannes era quase que exclusivamente formada por brasileiros, ou então os estrangeiros que assistiram à apresentação não se deixaram levar por toda essa euforia.

Mas isso é o de menos. O que mais chama a atenção, pelo menos do meu ponto de vista, são duas frases no texto do anúncio assinado em conjunto pela Fiat e pela AgênciaClick Isobar, responsável pela execução do projeto, convidando para essa apresentacão em Cannes.


A primeira dessas duas frases descreve o case do Fiat Mio como "a história de como a web pode soltar a criatividade de consumidores apaixonados para redefinir um produto e até mesmo o modelo de negócio de toda uma indústria." E a segunda afirma que o projeto "tornou realidade o primeiro carro colaborativo do mundo". 

Interessante...  então quer dizer que estamos diante de um projeto que se propõe a "redefinir o modelo de negócio" da indústria automobilística? E pretende fazê-lo através de um "carro colaborativo" cuja realidade, até prova em contrário, é a de um mock-up? Um veículo cujas especificações técnicas não estão disponíveis em lugar nenhum, mesmo dois anos depois do início do projeto?

São afirmações ousadas, para dizer o mínimo. Ou teria a Fiat, no afã de parecer moderna a qualquer custo, perdido a noção da realidade?

Para tentar responder essa pergunta, vamos examinar mais de perto a situação atual da montadora no que diz respeito ao seu grau de modernidade, aqui e no exterior. 

Hoje, a Fiat tem uma das gamas de produtos mais envelhecidas do mercado brasileiro. O Palio chega aos 15 anos sem nenhuma alteracão estrutural, enquanto o Mille - anteriormente conhecido como Uno - acaba de quebrar o récorde do Fusca, que perdurava há 27 anos, como o automóvel mais longevo do Brasil. Mesmo o mais recente lançamento da montadora, o Fiat Bravo, já chegou velho ao nosso mercado, tendo sido lançado na Europa em 2006. Se isso é ser moderno, então  preciso rever os meus conceitos.

Já no cenário internacional, um dos principais problemas da Fiat é o atraso numa área crucial para qualquer montadora que se prentenda apta a atender às demandas do mercado em um futuro próximo: o desenvolvimento de conjuntos propulsores menos dependentes de combustíveis fósseis. Todas as concorrentes da Fiat estão muito mais adiantadas do que ela nesse aspecto, na Europa e em outras partes do mundo.

Na verdade, a Fiat nem parece muito interessada no assunto. Seu CEO, Sergio Marchionne, declarou recentemente que a conta do carro elétrico não fecha. Má notícia para os co-criadores do Fiat Mio, em sua maioria favoráveis à propulsão elétrica. Quando muito, a empresa abrirá uma exceção nos EUA, onde o Fiat 500 terá uma versão elétrica para atender ao segmento dos consumidores mais preocupados com o meio ambiente, e também para fazer jus aos incentivos fiscais concedidos pelo governo americano. Talvez Marchionne esteja certo em remar contra a corrente - mas e se não estiver, onde está o Plano B?


Diante de evidências como essas, fica mais fácil entender o interesse da Fiat em desenvolver um projeto como o do Mio. Ele é um jeito relativamente simples e barato de comprar modernidade diante das limitações da empresa no desenvolvimento de projetos efetivamente modernos. Além disso, ele tem o dom de fazer com que os internautas engajados no projeto se sintam como os desbravadores de um admirável mundo novo, e falem bem da marca para quem quiser ouvir.

Mas as utilidades do Fiat Mio não param por aí. Muita gente que não está a par das realidades da indústria automobilística acha a idéia genial e aplaude a Fiat pelo caratáter aberto e democrático da iniciativa. A mídia abre amplos espaços para que a empresa conte sua história, chovem convites para palestras e seminários.

A última novidade sobre o Mio vem diretamente de Cannes: na apresentação do projeto, a Fiat anunciou que dará início a uma nova etapa explorando o seu potencial como gadget car (a expressão é da própria montadora). O ponto de partida será a seguinte pergunta: "O que você gostaria de baixar e instalar em seu carro?” Como o assunto parece ser muito mobilizador para os co-criadores do Mio, pelo que se pode ver nas sugestões enviadas até o momento, a discussão tem tudo para prolongar a vida util do projeto por mais um bom tempo.

O Mio pode ser pouco mais que um mock-up apoiado sobre uma "plataforma colaborativa" e turbinado por um eficiente aparato promocional. Mas pelo menos no que diz respeito à Fiat, ele já provou ser mais util do que muito automóvel de verdade que há por aí.

Imagens: Jean Chalopin/Cookie Jar Group, via http://toonbarn.com (ilustracão thumbnail); http://www.canneslions.com (screenshot Fiat Mio coberto); http://www.ilsole24ore.com (reprodução matéria jornalística); http://money.cnn.com (foto Sergio Marchionne).

11 comentários:

Joel Gayeski disse...

Sinceramente, isso não passa de um golpe publicitário.
Que modernidade é essa?
Vejamos:
- como tu falaste, o Palio é um projeto básico de 15 anos;
- O Punto tem uma plataforma que, salvo engano, não é a mesma do europeu, mas sim uma derivada do Palio;
- os tão falados motores FPT 1,6 e 1,85l são basicamente os motores que eram usados no Mini. Nem duplo comando são;
- Twinair? S[o em 2013...

Se fosse pra ter essa plataforma colaborativa eu queria um Uno (Mille mesmo) com uma estrutura moderna e o motor 1,4l daquele arremedo que chamam de Cinquecento.

Anônimo disse...

É o carro-demagogia!

Francisco J.Pellegrino disse...

Paulo, não consigo gostar da atual linha de produtos da Fiat, da mesma forma olho para a dianteira dos carros da Volks e vejo uma mesmice desgraçada....será que o "design" dos asiáticos anda fazendo a nossa cabeça ?

Douglas Studzinski disse...

A idéia do gagdet car é genial. Uma grande possibilidade de se ganhar dinheiro.

Ron Groo disse...

A despeito da importância do lançamento, é feio... Parece uma daquelas cafeteiras Dolce Gusto...

Paulo Levi disse...

"Golpe publicitário", Joel? Que é isso...

Paulo Levi disse...

Anônimo,

Vejamos... a palavra demagogia vem do grego demagogos, onde demos significa "povo" e agogos, "o que lidera". Como nesse projeto quem supostamente lidera é o povo, talvez estejamos diante de uma ampliação no sentido original da palavra.

Paulo Levi disse...

Francisco,
É verdade - e eu acrescentaria que essa questão da mesmice também se aplica aos produtos da GMB. Manter um certo ar de família entre os modelos de uma mesma marca é desejável, mas há limites.

Paulo Levi disse...

Douglas,
Assim que soube da idéia do gadget car lembrei da figura do Inspector Gadget, o simpático personagem que ilustra o thumbnail desse post e que no Brasil recebeu o nome de "Inspetor Bugiganga".

Agora falando sério, já dá para ter uma noção sobre as sugestões de gadgets que irão aparecer. Basta acessar o site do projeto e conferir as sugestões que já foram proativamente (urgh) enviadas a ele.

Paulo Levi disse...

Ron,
Entre os dois, fico com a minha velha e boa máquina de café espresso que mói os grãos e produz vapor sem depender das sugestões da galera.

marciapiza disse...

nao e o lugar certo mas aqui sei que o sr ia ver feliz aniversario marciapiza