sexta-feira, 13 de maio de 2011

Uma vitória mais única que rara

Nota do blogueiro: em consequência do recente bug que afetou muitos blogs hospedados no Blogger/Blogspot, o texto abaixo foi retirado do ar contra a vontade do Adverdriving. Peço desculpas aos leitores do blog (principalmente aos que enviaram comentários), e volto a postá-lo na expectativa de que esses problemas técnicos já tenham sido devidamente solucionados.

Imagine que você é um produtor cinematográfico, e um dia aparece um sujeito querendo lhe vender o roteiro de um filme. A sinopse é mais ou menos assim: jovem piloto pouco conhecido, que nunca havia sequer ido a um autódromo para assistir a uma prova do mundial de Fórmula 1, vence um Grande Prêmio logo em sua corrida de estréia.

Provavelmente você enxotaria de sua sala o infeliz que ousasse lhe trazer um roteiro assim tão inverossímil, infantil até. Mas acontece que essa história é rigorosamente verdadeira. Ela aconteceu há quase 50 anos, e teve como protagonista o italiano Giancarlo Baghetti.


Baghetti, filho de um abastado industrial milanês, competia com relativo sucesso na Fórmula Júnior italiana, uma das categorias que antecederam a Fórmula 3 européia. Um dia, caiu nas graças do diretor esportivo da Ferrari, Eugênio Dragoni, que convenceu Enzo Ferrari a lhe ceder um monoposto Tipo 156 para que o rapaz pudesse adquirir experiência para quem sabe, um dia, chegar à Fórmula 1.

Ao volante desse carro, Baghetti participou de duas provas que não contavam pontos para o campeonato mundial de 1961, uma em Siracusa e a outra em Nápoles, vencendo ambas com facilidade. Essas performances animaram Dragoni a inscrevê-lo para sua primeira prova válida pelo mundial, o GP da França em Reims. Apesar de inscrito por uma equipe teoricamente independente, liderada pela Scuderia Sant'Ambroeus sob a égide da CSAI (uma espécie de consórcio entre equipes do automobilismo italiano), na prática Baghetti contava com o mesmo apoio dado aos pilotos oficiais da Ferrari.

O começo da corrida não foi nada de especial. Baghetti largou em 12º, e por um bom tempo se manteve no pelotão intermediário. E aí, a sorte começou a conspirar a seu favor. Um a um, os favoritos foram ficando pelo caminho, seja por acidentes, seja por falhas mecânicas. A poucas voltas do final, Baghetti chegou a assumir brevemente a dianteira, mas foi ultrapassado a seguir por Jo Bonnier e Dan Gurney. A alegria de Bonnier durou pouco: o motor de seu Porsche não resistiu ao esforço, obrigando-a abandonar. Agora, a briga era só entre Baghetti e Gurney. Os dois entraram na reta de chegada praticamente colados, e o italiano, aproveitando a potência superior de seu Ferrari, saíu do vácuo do Porsche para vencer a corrida por milésimos de segundo.


Foi um momento de glória na carreira de Baghetti. Os tifosi foram à loucura; a mídia italiana o aclamou como legítimo herdeiro de Alberto Ascari. E Enzo Ferrari o acolheu em sua equipe, agora de forma oficial.


O que ninguém poderia imaginar em meio a tanta euforia é que a primeira vitória de Baghetti na Fórmula 1 seria também a sua última. À exceção da volta mais rápida em Monza, no trágico GP que custou a vida a seu companheiro de equipe von Trips, o resto do ano passaria em brancas nuvens. O ano seguinte foi ainda pior: os Ferrari não conseguiam acompanhar o ritmo dos rivais ingleses, e Baghetti terminou o campeonato em um decepcionante 11º lugar.

Em 1963, diante da aparente falta de perspectivas na Ferrari, Baghetti juntou-se a Phil Hill e a outros ex-ferraristas na recém-criada Scuderia ATS. Foi como passar do purgatório para o inferno, já que a ATS logo se revelaria um dos maiores fiascos na história do automobilismo

Daí para a frente, Baghetti foi saindo de cena progressivamente até se retirar de vez, no final da década de 60. Depois disso, teve uma segunda carreira como jornalista (foi um dos fundadores da extinta revista Auto Oggi), tendo também exercido a profissão de fotógrafo. Morreu aos 59 anos, vitimado por um câncer.

Hoje, Giancarlo Baghetti é lembrado principalmente pelo ineditismo da vitória em seu GP de estréia, há quase 50 anos. Se a sorte influiu em maior ou menor medida no resultado, pouco importa. O que se pode dizer, sem medo de errar, é que o seu lugar na história do automobilismo está assegurado, já que não existe a menor possibilidade de assistirmos à vitória de outro estreante na Fórmula 1 enquanto a categoria existir.

Imagens: arquivo jornal L'Unità (www.unita.it), exceto foto de Baghetti à frente de Bonnier e Gurney (Anuário Ferrari 1966)

10 comentários:

Luís Augusto disse...

Tinha me esquecido dessa história. Realmente uma das maiores curiosidade da F-1. Mas acho que o fenômeno pode se repetir sim. Lembre-se de Lewis Hamilton há pouco anos, que quase repetiu o feito de Baghetti

Ron Groo disse...

Outro tempo, outra vida até... É muito bom ler estas histórias do tempo em que o automobilismo era uma coisa romântica e linda.

Anônimo disse...

Paulo,


Gostaria que você desse mais alguns detalhes do desempenho do Baghetti na temporada de 61. Quem sabe assim ficaria mais fácil entender porque o piloto italiano não conseguiu repetir a performance avassaladora que apresentou nos três primeiros de GP que disputou. Já conhecia a história, mas sempre me perguntei porque, durante seu período de Ferrari, mesmo contando com equipamento vencedor (Von Trips disputou o título literalmente roda a roda com o Clark), o italiano nem sequer chegou a beliscar um pódio que fosse depois daquela vitória inaugural. Seria justo resumir tudo em um estreante sortudo, ou houveram outros fatores na jogada?

Abraços, parabéns pelo Blogue, visito sempre.

João Lucas.

Paulo Levi disse...

João Lucas, obrigado pela visita e pelo seu comentário. É um prazer contar com um leitor atento e interessado como você.

Resumidamente, eu diria que tudo na carreira de Baghetti na F1 foi uma questão de timing. Teve a sorte de se aproximar da Ferrari em seu melhor momento, e teve o azar de pertencer à equipe em uma das piores fases de sua história.

Quando Baghetti venceu em Siracusa no começo de 1961, quase todos os principais concorrentes ingleses estavam lá. E logo de cara perceberam que não teriam a vida fácil no mundial daquele ano, já que era gritante a superioridade demonstrada pelo V6 da Ferrari mesmo nas mãos de um novato. (Já a corrida de Nápoles teve um grid bem mais modesto, e portanto não serviu de parâmetro para muita coisa.)

No GP da França, dois dos três Ferrari oficiais não resistiram ao calor, e o terceiro foi eliminado em razão de um acidente. Em circunstâncias normais Baghetti não teria grandes chances, até porque o motor de seu carro era de uma geração anterior aos motores "oficiais". Mas mesmo assim era bem mais potente que o dos Porsche contra os quais duelou nas últimas voltas do GP. Baghetti demonstrou ter talento, mas nessa vitória também foi muito ajudado pela sorte.

Nas demais provas daquele ano, todas as atenções da Ferrari estiveram voltadas aos dois pilotos que poderiam lhe dar o título mundial, no caso Phil Hill e Wolfgang von Trips. Baghetti não estava entre as prioridades da equipe, e isso se refletiu em seus resultados.

No ano seguinte, os ingleses contra-atacaram com novos motores V8 em carros com estruturas monocoque. A superioridade sobre a Ferrari era flagrante: Hill, campeão em 1961 pela Ferrari, mal e mal conseguiria um segundo lugar e dois terceiros. E em meio ao mal-estar que tomava conta da equipe, Baghetti nem chegou a ser inscrito em metade das provas do ano.

Ao final de 1962, a crise política na Ferrari chegou ao auge e levou à saída de um grande grupo de integrantes de sua equipe. Muitos foram para a ATS, entre os quais Baghetti - que ali viu se evaporar de vez qualquer perspectiva de carreira que ainda tinha na Fórmula 1.

Ron Groo disse...

Eu tinha feito um comentário, mas o Blogger fez o favor de perder... Como perdi vários em meu espaço...

Mas dizia, é por isto que amamos tanto este espore.

roberto zullino disse...

Na realidade foram todos expulsos da ferrari pelo comedatore por causa de uma carta maquinada pelo Carlo Chitti e assinada por todos. Na carta pediam que se impedisse a entrada da mulher o Ferrari que já estava chamando jesus de genésio e entrava na fábrica gritando "dove é il bastardino", uma referencia ao filho Piero Lardi do vecchio Enzo que segundo fofocavam para a velha estava trabalhando na fábrica. O Enzo ficou puto com o que achou uma chatagem envolvendo sua família e mandou todo mundo embora. o Chitti inventou essa tal de ATS que até era bonita, mas era uma bela merda, acho que não terminou nenhuma corrida. evidentemente, o eugênio dragoni que aparece no filme grand prix fazendo alguma filha da putisse com o jean pierre sarti continuou e com mais força, esse era um verdadeiro machiavel.

Paulo Levi disse...

Zullino,
Se a Donna Laura só metesse o nariz na fábrica, seria uma coisa. Mas como o velho Enzo tinha por hábito não ir aos autódromos (exceto o de Monza), enviava a mulher para espionar tudo por ele. Essa carta do Chiti deve ter sido só o estopim - todos lá dentro já estavam decididos a abandonar o navio.

E por tudo o que sei sobre o Dragoni, realmente não era flor que se cheirasse, apesar de sua atividade profissional pré-Ferrari ter sido no ramo de cosméticos.

Paulo Levi disse...

Groo,
Obrigado por re-postar o seu comentário, com ou sem apagão no Blogger é sempre um prazer ver você por aqui!

Joel Gayeski disse...

Outra baita aula de história, parabéns.

Perguntinha meio fora do tema, pode-se dizer que os Porsche 804 tinham um motor "de Fusca"?

Paulo Levi disse...

Obrigado, Joel!

Sobre o motor do 804, pode-se dizer que havia um remoto parentesco com o motor do Fusca. Mas isso se resumia basicamente à arquitetura boxer, já que se tratava de um motor de oito cilindros com bloco e cabeçotes em alumínio, feito exclusivamente para competição. Era uma grande evolução em relação aos motores flat-four dos Porsche 718 pilotados por Bonnier e Gurney no mundial de 1961. Estes, apesar de usarem quatro comandos de válvulas, ainda mantinham aquela sonoridade característica do motor do Fusca. Pode-se perceber isso claramente em vários vídeos no YouTube.