sexta-feira, 27 de maio de 2011

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É mais fácil achar uma agulha em um palheiro do que um paulistano que nunca tenha visto a figura de João Antonio Lara Nunes. Mais conhecido como o Cara do Carro Amarelo, João é uma lenda viva em São Paulo. É um ícone da cidade, tão identificado com ela quanto o Monumento às Bandeiras, a estátua do Borba Gato e o sanduíche de mortadela do Mercadão. Se bobear, corre o risco de ser tombado pelo Patrimônio Cultural.

A fama se justifica: há mais de vinte anos, o Cara do Carro Amarelo pode ser visto em diversos pontos da cidade. Quando menos se espera lá está ele, em avenidas movimentadas e nos horários de pico, selecionados com uma precisão de fazer inveja a qualquer planejador de mídia.


Uma vez identificado um lugar que possa servir de palco, o Cara do Carro Amarelo estaciona o dito cujo (um Farus conversível - "réplica de uma Ferrari", diz ele) e dá início ao seu tableau vivant, que consiste em posar ao lado do carro por horas a fio, trajando ternos que variam dos tons claros às cores cítricas, complementados por acessórios como óculos de surfista e chapéu panamá. Seu objetivo é um só: ser visto pelo maior número possível de pessoas.


Ao mesmo tempo em que atrai as atenções de quem passa, o Cara do Carro Amarelo lança o seu olhar sobre os que o vêem, como que a demonstrar a simbiose existente entre narcisismo e voyeurismo. Impassível como uma estátua na maior parte do tempo, retribui de maneira discreta os eventuais acenos e ignora olimpicamente os xingamentos. Depois de algumas horas no exercício de seu métier, recolhe o inseparável mascote (um cachorro de pelúcia), entra no Farus amarelo e ruma de volta para casa.


O Cara do Carro Amarelo é um artista, daqueles que acreditam na arte pela arte. Nunca foi atrás de patrocínios nem de qualquer forma de retorno financeiro, nunca participou do programa do Jô, nunca apareceu na Ana Maria Braga. Mas apesar de manter esse low profile por muitos anos, foi eventualmente descoberto pelas agências de propaganda. E por meio delas, foi convidado para atuar em diversas campanhas publicitárias.




A primeira foi para o Dia Mundial Sem Carro, à qual se seguiu uma campanha para o Jornal da Tarde. Até aí, tudo bem. Mas em seu trabalho mais recente - um filme viral para o Mini - o Cara do Carro Amarelo deu uma derrapada ao permitir que um automóvel dessa marca fizesse o papel tradicionalmente reservado ao Farus. Ficou fake - um personagem como o seu, diligentemente construído ao longo de décadas, não pode ter sua credibilidade posta em xeque dessa forma.

Como paulistano cioso das tradições de minha cidade, sempre imaginei que o Cara do Carro Amarelo fosse um caso único no mundo. Ledo engano: em Chicago há algo semelhante, um outro personagem movido a narcisismo que adora aparecer com seu automóvel - no caso, um Ferrari 360 Spider. Tony Taglia é o seu nome verdadeiro, mas ele prefere ser chamado pelo nome artístico de Ferrari Guy.




Quem passa pela Michigan Avenue (a Avenida Paulista de lá) tem grandes chances de assistir uma performance ao vivo do Ferrari Guy. Diferentemente do Cara do Carro Amarelo, ele não é de ficar parado: sua diversão é andar pra lá e pra cá ao volante do conversível vermelho que mandou customizar com detalhes em dourado. Se alguém quiser lhe dirigir um impropério terá de fazê-lo (e o faz, aos montes) pela Internet, já que é praticamente impossível se fazer ouvir por cima do rugido do motor Ferrari. 

Mas essas não são as únicas diferenças entre os dois. Se o visual do narciso paulistano é o de um Lord Brummell tropical (em versão Eighties), o de seu equivalente de Chicago está mais para Ted Boy Marino. Bem mais falante e extrovertido que o brasileiro, o Ferrari Guy garante ser o homem mais fotografado dos Estados Unidos ("além do Presidente", acrescenta). E deixa claro que não está nesse negócio de aparecer apenas por amor à arte: transformou-o em um rentável empreendimento (http://ferrariguyforhire.com), oferecendo passeios de Ferrari pela módica tarifa de 300 dólares por hora.


Por enquanto, o Ferrari Guy se diz satisfeito com a procura pelos seus serviços. Certamente ficaria abismado se soubesse que tem um coleguinha no Brasil que fatura alto com campanhas publicitárias - sem fazer força, contracenando com uma "réplica de Ferrari" e gastando muito menos com combustível.

Mas o que realmente o mataria de inveja é saber que em São Paulo o Cara do Carro Amarelo pode aparecer durante praticamente o ano inteiro, ao passo que em Chicago o inverno rigoroso obriga todas as criaturas exóticas a hibernarem por vários meses. Até o Ferrari Guy.

Imagens Ferrari Guy: http://ferrariguyforhire.com

10 comentários:

Mauricio Morais disse...

Caracoles...o que faz um ego inflado, meu Deus! Freud explica??

Anônimo disse...

Paulo, grande abraço a vc.....como diria um pedreiro amigo...cada louco com sua manilha !!!!!

Francisco

Joel Gayeski disse...

Lembro que no tempo que tinha orkut (eca!) tinha uma comunidade falando dobre o Cara do Carro Amarelo.
Esse de Chicago supera todos os níveis de cafonice... ou melhor, falta um terno vermelho.

Paulo Levi disse...

Joel,
Se o Ferrari Guy arranjar um terno vermelho, pode ganhar uma graninha extra fazendo merchan para um determinado banco. Nem precisa ser um terno, basta o paletó.

Paulo Levi disse...

Obrigado, Francisco! Sábias palavras as do pedreiro...

Paulo Levi disse...

Maurício, acho que é como diz aquela frase no comercial do Jornal da Tarde: "não dá pra explicar".

Anônimo disse...

Oi Paulo,
Eu o via sempre na esquina da Brigadeiro com Av. Brasil no tempo que transitava por lá. Nunca entendi qual era a dele, mas fazia parte da paisagem.
Teus posts são deliciosos!
Um bj
Marilia

Gustavo disse...

Na primeira impressão cheguei a ser enganado pela campanha do Mini.
Uma vez refeito do susto acho que foi boa ideia.

Paulo Levi disse...

Marília,
Obrigado pela visita e pelo elogio!

Paulo Levi disse...

Gustavo,
Publicitariamente falando, concordo que a jogada do Mini foi uma boa idéia. Mas pensando apenas no lado artístico da coisa, não dá pra separar o "Cara" de seu Farus Amarelo. É como o Romeu sem a Julieta, o Gordo sem o Magro, por aí.