sexta-feira, 6 de maio de 2011

Caça ao tesouro

Quando dei de cara com esse carro na Autoclásica do ano passado, confesso que fiquei embatucado. Não consegui entender se era um original ou uma réplica. Ao mesmo tempo, fiquei com a nítida sensação de que eu já o havia visto em algum lugar. Afinal, que raios de carro era aquele?


Os sinais eram no mínimo contraditórios. Tinha o oval da Ford em seu radiador e lembrava um pouco os baquets, bipostos ou semi-monopostos de competição muito usados no automobilismo argentino até meados da década de 1930, mas era baixo demais para ser um baquet de verdade. Por outro lado, os faróis saltados e a posição decididamente perpendicular do radiador remetiam a tempos mais antigos, contrastando com os cuidados com a aerodinâmica visíveis em outras partes da carroceria. E por falar em aerodinâmica, talvez o aspecto mais destoante fosse a traseira truncada conforme os preceitos do aerodinamicista Wunibald Kamm, uma característica que só viria a se difundir dos anos 50 em diante.



Como não havia no local nenhuma placa nem pessoa que pudesse me dar alguma pista sobre esse estranho automóvel, o jeito foi sair à caça de informações pela Internet. E aí, o mistério começou a se desfazer: tratava-se de uma criação de Rodolfo Iriarte e seu filho Torcuato, especialistas na construção de veículos artesanais sob encomenda.

Em seu atelier numa localidade da província de Buenos Aires que coincidentemente leva o nome de Don Torcuato, os Iriarte não fazem réplicas de modelos existentes, mas sim daqueles que só têm concretude na imaginação (a deles, e a de seus clientes). O carro exposto na Autoclásica foi construído sobre a base de um Ford Modelo A 1928, que ganhou uma carroceria em alumínio com mais de cinco metros de comprimento. Essa carroceria vem incorporando novas soluções que fazem dela uma obra aberta, como se pode ver pelas fotos. O motor original foi mantido, mas recebeu modificações que elevaram sua potência para 140 HP, na estimativa dos Iriarte. Com um peso total de apenas 700 kg, é o suficiente para assegurar uma boa diversão.

Resolvido o mistério da identidade desse carro, fiquei revirando o baú da memória para tentar descobrir de onde vinha a sensação de déja vu que eu havia experimentado ao vê-lo na Autoclásica. E aí, como em uma epifania, veio a explicação: o Ford A 1928 dos Iriarte é idêntico a um carro que eu havia visto em uma revista em quadrinhos da dupla de palhaços Fuzarca e Torresmo, isso lá em cinquenta e bolinha.

 Uma vez esclarecido esse último detalhe, dei por encerrada a minha caça ao tesouro. E fui dormir, feliz como um menino que acaba de ganhar um carrinho novo.






Imagens: Argentina Auto Blog - http://autoblog.com.ar/2011/01/artesanos-de-don-torcuato-peligro-de-extincion-2 (vista frontal); arquivo pessoal do autor (demais imagens)

9 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Do centro do eixo traseiro para frente me agrada muito, gostaria de ter tempo e dinheiro disponíveis para construir estas coisas, trabalhar as chapas de aluminio, aprender a soldar....mas !!!!!!!!

Luís Augusto disse...

Os argentinos são mesmo grandes artesãos! Não é à toa que suas réplicas de Bugatti são aptas a concursos internacionais.

Ron Groo disse...

Fuzarca e Torresmo... Foi longe.

Joel Gayeski disse...

Só faltou uma frente mais condizente com o restante das formas do carro, mas no geral é maravilhoso.

Fuzarca e Torresmo? 50 e poucos? nessa época nem meus pais eram nascidos, hehe.

Paulo Levi disse...

Acho que o mais legal no carro é essa mistura maluca de elementos desencontrados. Para fazer uma réplica perfeita, o cara tem que ser bom - mas para criar um carro como esse, tem que ter um grande senso de humor.

(Um PS especial para o Joel: Fuzarca e Torresmo rules, pergunte pros seus avós!)

Joel Gayeski disse...

Paulo, vou perguntar mesmo!

roberto zullino disse...

isso foi feito por um aprendiz com prisão de ventre, coisa mais horrorosa, deviam ter destruído.

Paulo Levi disse...

Xiii Zullino... depois desse comentário, eu não daria mais as caras em San Torcuato.

roberto zullino disse...

bem, jamais iria lá, para mim arrentino bom é arrentino muerto e lhes dou o direito da reciprocidade.se quero alguma coisa boa vou para a Inglaterra.
mas eles fazem boas coisas em réplicas lá, tem bons profissionais, mas é sempre aquela milonga de sempre, fazem um fiat pulga e querem vender pelo preço de uma ferrari, eu passo.
isso aí não passa de uma merda mal feita, mal projetada, todo mundo faz uma cagada de vez em quando, deviam ter destruído.