domingo, 1 de maio de 2011

A aventura americana do Dauphine

Hora do rush numa expressway americana, possivelmente nas imediações de um posto de pedágio. Pelos automóveis que se vê nessa foto, pode-se deduzir que o ano é 1960, no máximo 1961. Seria apenas um registro banal do cotidiano dos EUA daquele tempo, não fosse o Dauphine que aparece no lado esquerdo da foto.


A primeira coisa que me ocorreu ao ver o pequeno Renault lado a lado com todos esses Fords, Plymouths e outros gigantes americanos foi uma pergunta: que tipo de pessoa teria um Dauphine nos Estados Unidos no início dos anos sessenta? Como a resposta provavelmente não está em lugar nenhum, nem mesmo nos registros oficiais da Renault, o jeito é usar a imaginação.

Por exemplo, poderia ser um universitário fascinado com a cultura e a civilização francesas, ansioso para passar uns tempos estudando em Paris. Ou então uma secretária que se encantou com a carinha amigável e as cores vivas do Dauphine. Ou, ainda, um jovem casal atraído pelo preço baixo (pouco mais de 1.100 dólares), além das promessas de economia de combustível e manutenção em conta.


Quaisquer que tenham sido os motivos, o fato é que o Dauphine vendeu feito pãozinho quente em seus primeiros tempos de Estados Unidos, chegando a ameaçar a liderança do Fusca entre os importados. Somente em 1959, foram comercializados 91 mil Dauphines no mercado americano. (Para colocar esse número em perspectiva, a produção combinada de Dauphine, Gordini e Renault 1093 no Brasil entre 1959 e 1968 foi de pouco mais que 70 mil unidades.) Segundo uma reportagem da revista Time, a demanda era tanta que a Renault teve que criar uma empresa de navegação para abastecer o mercado em volume suficiente. O Dauphine estava com tudo, e estava em todos os lugares - até mesmo na revista Playboy, onde aparecia contracenando com uma playmate platinada em fotos sugestivas.    


Mas aí veio 1960, e a canoa furou. As vendas cairam para 68 mil unidades, despencando para 34 mil no ano seguinte. Em 1962, não passaram das 12 mil. As concessionárias entraram em desespero, e as tentativas de desovar os estoques a preço vil só ajudaram a piorar a situação.


O que havia começado tão bem virou uma das maiores débacles da Renault em toda a sua história. Alguns fatores externos contribuíram para isso - por exemplo, o contra-ataque dos fabricantes locais com seus primeiros carros compactos - mas o que mais pesou foram os erros cometidos pela própria Renault. Ao contrário da Volkswagen, a fabricante francesa não havia se preocupado em estruturar um pós-venda minimamente eficaz. Faltavam peças de reposição, e os mecânicos americanos não haviam sido devidamente treinados. No rigoroso inverno de grande parte do país, onde a areia e o sal eram usados para derreter o gelo e aumentar a tração dos pneus, a lataria do Dauphine sucumbia rapidamente à ferrugem. E nas autoestradas, faltava fôlego ao motorzinho de 845 cc. com virabrequim apoiado em três mancais para acompanhar o fluxo do tráfego à velocidade máxima permitida de 75 milhas por hora, ou 120 km/h.

Daí para a frente, tudo ficou mais difícil para a Renault. Ainda traumatizada com o episódio do Dauphine, a empresa lançou o modelo R10 com uma abordagem publicitária que era um convite ao fracasso: "R10, um Renault para pessoas que juraram que jamais comprariam outro Renault" . Não podia dar certo - e não deu mesmo.

Assim, o Dauphine ficou estigmatizado nos EUA como um dos piores carros de todos os tempos, figurando há décadas em todas as listas do gênero - inclusive uma compilada pela revista Time, que 48 anos depois de ter cantado os louvores do carrinho em suas próprias páginas o definia em 2007 como "a mais ineficaz amostra da engenharia francesa desde a Linha Maginot."

É uma condenação injusta. Se o Dauphine acabou virando um fiasco no mercado americano, foi menos pelas suas deficiências como automóvel do que pela inépcia de seu fabricante, que não soube criar as condições necessárias para que o sucesso inicial pudesse ser sustentado a longo prazo.

No ano passado, como que para tentar resgatar a imagem póstuma do Dauphine nos Estados Unidos, o proprietário de um dos poucos exemplares remanescentes no país - um calejado modelo 1959 - viajou com ele do Texas até o Alasca.


Jonathan Burnette - esse é o nome do abnegado - documentou a aventura em uma página do Facebook (http://www.facebook.com/home.php?ref=hpskip#!/pages/Alaska-Renault-Trip/115281658517579)

Tudo correu às mil maravilhas tanto na ida como na volta, com a exceção de um pequeno problema no motor. Nada de mais, foi só trocar e cabeçote e tudo resolvido. Afinal, se não tivesse acontecido algo assim, ninguém acreditaria que o carro era mesmo um Dauphine.
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10 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Muito interessante esta tua história do Renault...aqui no Brasil foi a mesma coisa a empresa "vendeu" tudo e foi para a Argentina onde o mercado era "muito melhor"....empresa governamental comandada por funcionários publicos comete estes êrros estratégicos...

Dan Palatnik disse...

A verdade é que havia uma fatia de mercado nos EUA que crescia em busca de soluções menores e mais práticas de transporte individual. Não bastavam os "médios". As "Grandes" já vendiam seus pequenos "made in Europe", sem muita saída, reconheçamos -- porque os europeus eram mesmo mais malfeitos que os americanos, e o custo não acompanhava a diferençaa na qualidade. Enquanto isso o Volkswagen ia ganhando terreno... Em 1960 foram lançados o Falcon, o Corvair e o Valiant para brigar justamente neste segmento.
O pobre Dauphine era mesmo ruim, tanto de desempenho quanto de acbamento. Aproveitou a febre dos pequenos, mas não sustentou. A Time o listou entre os piores e afirmou que dava para escutar a ferrugem comer o carro!
Uma versão interessante foi o Henney, um Dauphine elétrico. Ainda mais fraco de desempenho, claro, mas um diferencial.
Minha experiência com a Renault -- um Gordini 64, primeiro carro de minha mãe -- confirmou a Time. O carro não chegou a durar dois anos com a família e foi trocado por um Fusca 1200 66, esse sim de grande custo-benefício (embora a gente achasse o Gordini muito mais moderno que o Fusca}.

Francisco J.Pellegrino disse...

Lembrei agora o apelido do indigitado, "LEITE GLÓRIA", desmancha sem bater ! era o que se dizia à época.

Ron Groo disse...

Acho que aqui no Brasil a reputação do carro não era muito melhor não, era?
Não era este ai que era chamado de "leite glória", desmancha sem bater?

De qualquer forma, eu o acho um carro simpático.

Luís Augusto disse...

Bela história, Paulo, não conhecia o tamanho do fracasso do Dauphine nos USA. Mas parece que ele é querido no Canadá, onde há vários clubes de entusiastas do carrinho.

Paulo Levi disse...

Francisco e Ron,
O Dauphine era mesmo bem fraquinho. Tanto aqui como nos EUA, mercados onde o grande rival era o Fusca, a Renault errou em não ter entrado com o Gordini logo de cara. Não que o Gordini fosse uma maravilha, mas o câmbio de quatro marchas e o motor um pouco mais potente ("40 HP de Emoção") ajudaram a tornar o carro bem mais aceitável. Pena que fosse tarde demais para desfazer a pecha de "Leite Glória".

No mercado argentino, a dupla Dauphine/Gordini vendeu mais do que aqui, só que lá não havia o Fusca pra atrapalhar. Considerando a força desse concorrente no Brasil, acho até que a extinta Willys Overland merecia ter ganho uma medalha da Renault por relevantes serviços prestados.

Paulo Levi disse...

Dan,
De certa forma, também eu tive um Gordini. Eu tinha 17 anos na época, e meu pai o comprou de um tio (que o havia vendido para comprar um Fusca...) com a idéia de que eu poderia usá-lo assim que completasse 18 anos. Como eu acabei indo estudar fora do Brasil, a coisa não rolou. Mas antes disso, eu pegava o carro de vez em quando (na moita, naturalmente) para dar umas bandas por aí.

Na mesma época, eu fazia auto escola - e o carro, naturalmente, era um Fusca. Dava pra perceber que era muito mais robusto que o Gordini. Mas o Gordini tinha um je ne sais quoi que faltava ao Fusca. Se alguém me propusesse uma troca na época, eu provavelmente recusaria.

Paulo Levi disse...

Luís,
Deixa eu adivinhar... esses fãs canadenses do Dauphine só podem ser da província de Québec, certo? Então é menos um gosto automotivo do que uma expressão de identidade cultural...rs

Artur.Y disse...

Excelente pesquisa, Paulo!

Já vi o Dalphine em listas americanas, quando o assunto eram os piores carros.

Carrinho danado esse, que até recebeu o nome Alfa Romeo na Itália.

Sobre a aventura americana, achei um escondido no cantinho desta imagem:

http://blog.hemmings.com/index.php/2011/06/23/portland-oregon-1958/

Há um Corvette belíssimo, mas o infeliz aqui teve olhos para um frágil Renault.

Em tempo, parabéns pelo Blog, passei um final de semana degustando.

Parabéns e continue o bom trabalho!

Artur

Paulo Levi disse...

Artur,
Muito obrigado pela visita e pelas palavras sobre o Adverdriving e sobre este post em particular, fico feliz que você tenha gostado!

Um abraço,

Paulo