sábado, 2 de abril de 2011

O Loewy Coupé - e os automóveis que Raymond desenhou

Quem trabalha em agência de propaganda, estúdio de design ou produtora de som conhece bem a figura: é o profissional de criação que, mais do que por seu talento criativo, acaba emergindo por características inerentes ao seu jeito de ser. A habilidade retórica, o espírito empreendedor e o instinto competitivo são requisitos fundamentais; ter boa estampa, ser bem relacionado e cuidar do marketing pessoal também ajuda. À soma de todos esses atributos costuma-se dar o nome de carisma. Criativos carismáticos têm o poder de seduzir os clientes, e até mesmo de construir impérios.

Poucos encarnaram tão bem esse arquétipo como Raymond Loewy, um dos maiores nomes do design no Século 20. Francês de nascimento, Loewy formou-se em engenharia em sua terra natal e emigrou ainda jovem para os Estados Unidos, onde inicialmente trabalhou como ilustrador para revistas e agências de propaganda. Também foi vitrinista em lojas de departamentos, além de figurinista para produções teatrais.

Em 1930, identificando uma oportunidade de mercado, Loewy criou uma das primeiras consultorias de desenho industrial nos EUA. Em pouco tempo, a despeito da crise economica que assolava o país, empresários formavam filas para contratar os seus serviços. Sua fama cresceu rapidamente - e sua fortuna também. No final de década de 40, Raymond Loewy era um homem rico e uma celebridade internacional de primeira grandeza, com direito a aparecer na capa na revista Time.


Ao longo de quase meio século de existência, a empresa de Loewy projetou tudo o que se possa imaginar, de latas de lixo a locomotivas, de batom a apontadores de lápis. São de sua autoria os logotipos da Shell e da Exxon, o interior da capsula espacial Skylab, o redesenho da garrafa de Coca Cola, e o maço dos cigarros Lucky Strike. E logicamente, em meio a uma produção tão prolífica e diversificada, não poderiam faltar os automóveis.


O ponto alto da trajetória da Raymond Loewy Associates no setor automotivo foi o lançamento do Studebaker Starliner Coupé de 1953, que entraria para a história como o Loewy Coupé. É um automóvel belíssimo, que se destaca tanto pela pureza de suas linhas como pelo equilíbrio de suas proporções. Quando surgiu, não só estava anos-luz à frente de seus concorrentes americanos, como não havia no mundo qualquer carro de produção em série que lhe pudesse fazer sombra em termos de estilo. Até mesmo os grandes mestres italianos, como Ghia e Pininfarina, tiveram de tirar o chapéu. E dessa vez, quem foi para a capa da revista Time foi o presidente da Studebaker, Harold Vance, junto com o novo modelo.



Mas há um detalhe nessa história: não foi Raymond Loewy quem desenhou o Starliner Coupé, mas sim Robert Bourke, um designer que trabalhava num braço de sua empresa instalado dentro da fábrica da Studebaker em South Bend, no estado de Indiana. Ao longo de quase todo o processo de criação do Starliner, Loewy estava de férias na Europa, e quando voltou os desenhos de Bourke já estavam praticamente prontos. Como àquela altura o presidente da Studebaker, Harold Vance, já os havia visto e sinalizado sua aprovação, Loewy não poderia fazer maiores alterações nem que quisesse. Isso de certa forma contrariava o seu modus operandi - Loewy adorava meter a colher no angu alheio - mas o importante é que o carro entraria em produção, ajudando a lustrar ainda mais a sua áura de mago do design. Que foi exatamente o que aconteceu, com o apoio de uma campanha publicitária em que Loewy era orgulhosamente apontado como o autor do projeto.



Na realidade, Raymond Loewy não só não havia projetado o Loewy Coupé, como seu gosto em design automobilistico transitava por outros caminhos. Isso pode ser claramente percebido nos automóveis que desenhou para seu uso pessoal.

O primeiro de que se tem notícia foi um Lincoln Continental 1941, que Loewy mandou modificar para que ficasse exatamente ao seu gosto. Suas principais características eram o meio-teto removível em plexiglas, as janelinhas em formato de escotilha embutidas na coluna "C", a eliminação de todas as junções visíveis na carroceria, e a pintura em dois tons.


O projeto seguinte. já no pós-guerra, teria sido encomendado a Loewy por ninguém menos do que Enzo Ferrari. Este havia solicitado o máximo de sigilo, mas a informação vazou e a Pininfarina, fornecedora preferencial da Ferrari, não gostou nem um pouco. Para apaziguá-la, Enzo achou melhor cancelar o projeto.

Loewy não deve ter ficado muito contente com isso, mas fez de um limão uma limonada: mandou adaptar uma mecânica de Jaguar XK 140 à carroceria, que já havia sido produzida na Itália pela carrozzeria Boano. O resultado ficou meio esquisito, mas ao que parece Loewy gostou tanto desse carro que passou a utilizá-lo em suas viagens à Europa, trazendo-o posteriormente de volta a Nova York. Repare nas buzinas a ar instaladas sobre os paralamas dianteiro, além da grade que parece inspirada nos primeiros protótipos do Citroën 2CV.



O próximo automóvel a receber o "tratamento Loewy" foi um Cadillac Coupé de Ville 1959, que teve amputados os seus característicos rabos de peixe. A grade frontal deu lugar a uma frente em chapa de aço no formato de um bico, pintada na cor do carro. Loewy costumava ridicularizar Detroit pelo uso excessivo de cromados e outros elementos não-funcionais, mas nesse caso a emenda ficou pior do que o soneto.  


Voltando a atacar no front dos esportivos, Loewy projetou o GT Loraymo a partir da plataforma de um Lancia Flaminia. E por que o nome Loraymo? Porque esse é um acrônimo do nome do próprio designer (LOewyRAYMOnd). Definitivamente, Loewy não poderia ser acusado de excesso de modéstia.


Depois do Loraymo veio um projeto que só pode ser qualificado como um sacrilégio: uma versão customizada de um Jaguar E-type. O lema de Loewy (que também é o título de sua autobiografia) era "Never Leave Well Enough Alone" - numa tradução livre, "em time que está ganhando, deve-se mexer sempre". Nesse caso, o designer levou a frase ao pé da letra - e quem pagou o pato foi o pobre Jaguar, que além de ficar 25 centímetros mais curto, passou a ostentar faróis quádruplos e uma bocarra descomunal. Malcolm Sayer, autor do desenho original do E-type, deve estar se revirando na tumba até hoje.


Ao longo de sua carreira Loewy costumava repetir, como um mantra, que o design deveria buscar a pureza das formas a partir do respeito à funcionalidade dos objetos e da eliminação de qualquer elemento supérfluo ou meramente decorativo. Mas na prática, os automóveis que projetou para seu uso pessoal são qualquer coisa menos isso.

É uma contradição difícil de explicar. Talvez em seu subconsciente Raymond Loewy separasse o que era o seu gosto pessoal do gosto que acreditava que o público deveria ter. Ou, o que é mais provável, o design de automóveis simplesmente não era o seu forte. Seja como for, seu nome está inscrito para a posteridade no hall da fama do design automobilistico. Com um empurrãozinho do Loewy Coupé e de seu verdadeiro criador, Bob Bourke.

Imagens: Arquivo revista Life (Loewy e croquis futurista); Library of Congress Prints & Photographs Division, Visual Materials from the Raymond Loewy Papers (Lincoln 1941, Jaguar XK 140, Loewy e Bourke no estúdio); Derek Jensen/Wikimedia (Studebaker Starliner Coupé); http://www.barrett-jackson.com/application/onlinesubmission/lotdetails.aspx?ln=1295&aid=304&pop=0 (Cadillac 1959); http://blog.hemmings.com/index.php/tag/lancia-loraymo (Lancia Loraymo); http://www.etypeuk.com/forum (Jaguar E-type)

7 comentários:

Guilherme da Costa Gomes disse...

Olá Paulo, muito bonita história, parabéns.
Acredito que a maior colaboração do Loewy na trajetória do automóvel ainda seja o três volumes do Studebaker 1947. Depois, com o bico de avião dos 1950 e 51, uma obra de arte. Mais ainda, os modelos de carroceria desses carros são deslumbrantes! Como o Stud Starlight 1951 e o Starliner 1952.

O Loewy também fez o seu personal-car do modelo de 1948 e depois outro com o de 1953. Se quiser, posso escanear fotos desses carros pra você, é só me contactar via e-m.

Grande abraço,

Luís Augusto disse...

Concordo com o Guilherme. Na minha opinião, o ponto alto de Loewy na carreira automotiva foi o Stud 47. Mas nada se compara à garrafa de Coca-Cola!

Paulo Levi disse...

Guilherme, obrigado pela visita e pelo elogio. Fico feliz que você tenha gostado.

Concordo que o Studebaker 47 teve uma influência bem maior que o 53 em termos de design. Mas para o meu gosto, o 53 é o mais bonito de todos os Studebakers.

O interessante no modelo 47 é que ele também não foi criado por Loewy. O autor do desenho foi Virgil Exner, que trabalhava para Loewy mas não podia ver o patrão nem pintado. Mesmo assim, é visível a influência de Loewy em aspectos como a configuração de três volumes e o vidro traseiro panorâmico.

Quanto à linha 50-51, a grade em estilo aeronáutico é puro Loewy. Exner jamais toparia incluir um elemento simbólico-decorativo como esse, mas àquela altura ele já fora substituido por Bob Bourke, que era um tipo bem mais maleável. Muitos anos depois, Bourke revelaria a sua opinião sobre Loewy como designer automotivo: "Os desenhos dele eram muito ruins. Ele simplesmente não sabia desenhar automóveis - e tinha consciência disso".

Paulo Levi disse...

Luís, como disse ao Guilherme, concordo que o 47 é de fato o modelo historicamente mais significativo da Studebaker. E foi ele que deu projeção ao nome de Loewy como designer de automóveis, ainda que Loewy não fosse de fato o seu designer.

Da mesma forma que Loewy não tinha maiores pruridos em incrementar o seu currículo com trabalhos feitos por membros de sua equipe, assumia a autoria em trabalhos que não passavam de atualizações da obra de terceiros. É o caso da garrafa de Coca Cola, que - verdade seja dita - ficou mais elegante e mais esguia como resultado de sua intervenção.

Como diz o dito popular: não basta botar o ovo, tem que cacarejar...

Francisco J.Pellegrino disse...

A garrafa da coca é genial, fico com o Stud 53, carro não bem visto por aqui, mas aqueles com V8 são muito bons....eu teria um deles.
Estes "genios" tem lá seus momentos de loucuras e cometem algumas estravagâncias...ele não fugiu a regra.

Ron Groo disse...

É sempre bom ter onde aprender coisas novas, e eu como fã dos Stude fiquei particularmente satisfeito com o post.

Paulo Levi disse...

Francisco e Ron, obrigado pela visita e pelos comentários!