segunda-feira, 25 de abril de 2011

Apostando no mercado futuro

O amigo leitor dispõe de algum capital discricionário (também conhecido como "grana sobrando") e gostaria de diversificar seus investimentos? Então que tal um clássico do futuro? Isso mesmo: um automóvel fabricado há uns quinze ou vinte anos, novo demais para ser considerado um clássico, mas com potencial para vir a sê-lo dentro de mais alguns anos. Há vários modelos assim em nosso mercado, e o que fizemos aqui foi selecionar três deles, cada um indicado para um determinado perfil de investidor.

Mesmo sendo muito diferentes entre si, os automóveis que integram essa seleção têm alguns pontos em comum: os três são importados, os três começaram a ser vendidos no Brasil mais ou menos na mesma época, e os três foram trazidos em volume razoável pelos representantes oficiais dos fabricantes, sendo portanto relativamente fáceis de encontrar. Mas a principal razão para incluí-los em nosso short list é que todos eles são modelos historicamente significativos, como veremos mais adiante.

Da mesma forma que no mercado acionário, investir em um clássico do futuro requer faro apurado, olho clínico e muita paciência, além de um pouquinho de sorte. Os poucos exemplares desses automóveis que só tiveram um dono desde zero km dificilmente estão à venda, enquanto os demais já mudaram de dono uma, duas ou mais vezes. E como se sabe, quanto mais donos ao longo do tempo, maior o risco de gambiarras. Algumas ainda podem ser revertidas, mas em muitos casos os danos são irreparáveis - e quando isso acontece, o carro deixa de ser um investimento para se transformar em um ativo tóxico (popularmente conhecido como "mico"). Ou seja: o risco pode variar, mas ele nunca deixará de existir. A melhor maneira de se precaver é procurando conhecer tanto quanto possível o histórico do carro que você pensa em acrescentar ao seu portfólio de investimentos.

Feitas essas ressalvas, vamos às nossas recomendações:

1.PARA INVESTIDORES DE PERFIL CONSERVADOR: RENAULT TWINGO


O que faz do Twingo um automóvel significativo?

O Twingo foi o primeiro monovolume moderno de pequeno porte, abrindo o caminho para projetos como os do Mercedes-Benz Classe A e do Honda Fit. Com ele, a Renault voltou a exibir um lado inovador que andava meio adormecido havia muito tempo. O projeto, de autoria de Jean Pierre Ploué sob a direção de Patrick Le Quément, é brilhante não só como exercício de packaging mas como objeto de design puro e simples, tornando inteiramente crível o slogan "Créateur d'Automobiles". E apesar de seu tamanho diminuto e da cara de brinquedo, o Twingo é de uma robustez e confiabilidade surpreendentes. Não é a toa que tem proprietários apaixonados e até fã-clubes em várias partes do mundo.

O Twingo é o investimento certo para você se:
  • Você não quer ter um desembolso inicial muito alto
  • Você é fascinado por objetos de design, independentemente da utilidade que possam efetivamente ter para você 
  • Você quer um clássico do futuro que também possa ser usado tranquilamente no dia-a-dia, principalmente em ambientes urbanos
  • Você não quer correr o risco de estourar sua conta bancária para cobrir os custos de manutenção
Pense duas vezes antes de comprar um Twingo se:
  • Você gosta de andar rápido, principalmente em estrada
  • Você imagina que em sua parte mecânica o Twingo seja tão inovador quanto em seu exterior (até 1999, o motor usado no Twingo era praticamente o mesmo do primeiro Corcel)
  • Você pretende viajar com mais que dois passageiros a bordo (mesmo com o recurso do banco traseiro deslizante, dificilmente haverá espaço para a bagagem de todos)
  • Você não suporta o calor, e o Twingo que você está pensando em comprar não tem ar condicionado (o enorme parabrisa inclinado age como uma lente de aumento para os raios solares)
  • Você espera um rodar macio e confortável como na maioria dos carros franceses
  • Você quer um Twingo branco (só mandando pintar, já que essa cor nunca constou do catálogo da Renault) 

2. PARA INVESTIDORES DE PERFIL MODERADO: VOLVO 850
 


O que faz do Volvo 850 um automóvel significativo?

O 850, que passou por algumas alterações cosméticas e teve o seu nome mudado para S70 já perto do final de sua produção, é o último Volvo de verdade. Desenvolvido antes que a marca sueca passasse para as mãos dos americanos da Ford (e destas, para as dos chineses da Geely), o carro também não tem nenhum dos componentes Mitsubishi e Renault que a Volvo costumava usar em seus modelos de entrada. Apesar da tração dianteira, inédita até então num Volvo de porte médio-grande, o 850 preserva a linguagem visual severamente retilínea inaugurada em 1966 com os modelos da série 140.

Nesse carro, o também inédito motor de cinco cilindros e 170 CV devolvia à Volvo boa parte do apelo esportivo perdido no final da década de 1960, quando o modelo Amazon saiu de linha. Essa renovada esportividade ganharia um reforço de peso com a chegada de uma versão turbo, que chegava a 240 CV nos modelos mais recentes.

Mas apesar das mudanças o 850 manteve intactas as virtudes que fizeram a fama de seu fabricante, como os cuidados com a segurança ativa e passiva, a qualidade dos materiais e da montagem, e o interior confortável e de excelente ergonomia. Para quem quiser um legítimo Volvo, não há outra opção. Ou melhor, há sim: a versão perua do próprio 850. Se bem que, pelo tipo de uso a que as peruas geralmente são submetidas, você precisará ter muita sorte para encontrar uma em bom estado.

O Volvo 850 é o investimento certo para você se:
  • Você quer ter um Volvo que não é Volvo apenas no nome
  • Você acha divertida a idéia de dirigir um "Q-car" - um autêntico lobo em pele de cordeiro
  • Você pretende usar o carro principalmente em viagens
  • Você quer que seus passageiros viajem muito bem acomodados enquanto você se diverte ao volante
  • Você acredita que o prazer de ter um carro como esse compensa um ou outro gasto imprevisto com manutenção
Pense duas vezes antes de comprar um Volvo 850 se:
  • Você quer um carro de suspensão macia e confortável (principalmente nas versões mais esportivas, o Volvo 850 é duro como uma tábua)
  • Você não costuma viajar para a Europa nem para os EUA, nem tem amigos que possam trazer peças desses lugares
  • Você não tem a disciplina de abastecer sempre em postos conhecidos e confiáveis. Gasolina de procedência duvidosa pode ser fatal para o motor desse carro, principalmente nas versões turbo
  • Você não gosta da idéia de gastar seu tempo e dinheiro em lojas de pneus. O 850 é um notório devorador de pneus dianteiros. Discos e pastilhas também não costumam durar muito
  • Você ficará incomodado quando chamarem o seu Volvo de tijolo ou caixotão

3. PARA INVESTIDORES DE PERFIL AGRESSIVO: ALFA-ROMEO 164


O que faz do Alfa-Romeo 164 um automóvel significativo?

Mesmo tendo sido lançado na gestão Fiat, e mesmo usando a mesma plataforma desenvolvida para o Fiat Croma, o Lancia Thema e o Saab 9000, o Alfa 164 é reconhecido até pelos alfistas mais ortodoxos como um Alfa-Romeo de verdade. A principal razão dessa indulgência é o carismático motor de seis cilindros em "V" projetado por Giuseppe Busso, um engenheiro que só não passou a  vida inteira trabalhando na Alfa-Romeo porque também teve uma passagem pela Ferrari.

Escultural e melodioso como poucos, esse motor nasceu com 185 CV, chegando aos 210 CV na versão de 4 válvulas por cilindro. Como ele equipa a totalidade dos 164 que vieram para o Brasil, é fácil perder de vista que as versões com motores de 4 cilindros (a gasolina e a diesel) responderam pela maior parte das vendas desse modelo na Europa. Isso faz que os "nossos" 164 tenham um maior potencial de valorização, já que essa é a motorização mais desejada e mais rara.

O outro trunfo desse carro é o design de Pininfarina, impregnado do DNA da marca mesmo sem fazer lembrar nenhum Alfa que tenha vindo antes ou depois. É um automóvel imponente, mas essa imponência vem temperada de uma esportividade que tornaria incongruente o seu uso com motorista. Ao contrário do que acontece com a maioria dos sedãs desse porte, o 164 passa a imagem de que foi criado para pessoas que dirigem por prazer e não por obrigação.

O Alfa-Romeo 164 é o investimento certo para você se:
  • Você acredita que os automóveis estão ficando cada vez mais assépticos e sem alma
  • Você quer ter o prazer de acelerar um V6 de sangue quente e temperamento latino, mas sem pagar preços de supercarro
  • Você é capaz de ter uma experiência mística só de ver e ouvir o motor do 164
  • Você acha que não basta um automóvel ser veloz - ele deve ser como um cavalo selvagem que exige talento para ser domado
  • Você é um apaixonado pela marca Alfa Romeo, e como todo apaixonado não está nem aí para as possíveis consequências de sua paixão
 Pense duas vezes antes de comprar um Alfa-Romeo 164 se:
  • Você não costuma viajar para a Europa, nem tem amigos que possam trazer peças de lá (não adianta nem tentar nos EUA, já que não existem concessionárias Alfa-Romeo naquele país)
  • Você espera algum apoio das concessionárias Fiat, incluindo aquela onde o seu 164 foi originalmente vendido
  • Você não está disposto a virar um habitué de oficinas de alinhamento e balanceamento, nem de especialistas em ar condicionado
  • Você não está preparado para uma rotina de gastos não-rotineiros com a manutenção do carro
Como se vê, são três propostas de investimento bem diferentes. Todas elas têm um bom potencial a médio e longo prazo - o que varia é o risco durante o período de maturação. Se você se identificou com alguma delas, a hora de agir é agora: comece a pequisar nos anúncios em jornais, em sites especializados e nas publicações de classificados, solte alguns balões de ensaio nas redes sociais, passe mais devagar em frente às lojas de usados. Com um pouco de sorte, você poderá encontrar ainda hoje o seu clássico de amanhã.

(Nota: as opções de investimento apresentadas acima não contam com as salvaguardas do Fundo Garantidor de Crédito, muito menos as do administrador deste blog. E não se esqueça: rentabilidade passada não é garantia de ganhos futuros.)

Imagens: Rudolf Stricker/Wikimedia (Renault Twingo); Sigma/Czech Wikipedia Project (Alfa-Romeo 164); divulgação (outras imagens)

9 comentários:

Luís Augusto disse...

Paulo, se eu não tivesse outras prioridades no momento (eufemismo para falta de grana...) ficaria com aquele Saab que apareceu no meu blog. Desses aí, meu eleito seria o 850. E viva a Suécia!

Ron Groo disse...

Meu vizinho, ou quase já que são três ou quatro casas abaixo, tem um Alfa destes, infelizmente o carro vive quebrado. E olha que ele tem um zelo absurdo com o carro.

Seus bancos de couro parecem ter saido da fábrica, a pintura é reluzente como se fosse zero, todos os opcionais originais estão lá. Mas o carro está sempre quebrado.

Eu gosto do carro. Acho lindo.

Luiz Dranger disse...

Paulo, parabéns pelo ótimo post. Eu encararia um Alfa 164 se a Fiat fosse uma empresa mais séria.
Abração

Joel Gayeski disse...

Fico com o 850, T5 no caso, sempre gostei muito de Volvos.
Alfa 164 é tentador mas tem que ter bolsos mais fundos pra tratá-lo como merece.

Francisco J.Pellegrino disse...

Acompanho o Joel, fico com os suecos, a Alfa é pura encrenca italiana.

roberto zullino disse...

A Alfa 164 não tem motor em V, os motores em V se carecterizam pelo uso do mesmo colo do virabrquim para duas bielas e na Alfa cada biela tem seu colo. Não sei dizer se a tecnologia do virabrequim a a chamada "não plana" que permite uma melhor ordem de explosão. Nada disso aumenta a potência, mas modifica muito a entrega da mesma. O motor da Alfa pode ser considerado um seis cilindros em linha com cilindros abertos para diminuir o comprimento.
Como carro é excelente, bate em qualquer um equivalente, mas uma bosta inacreditável em termos de temperamento, tanto que a Alfa Romeo foi expulsa dos USA por causa desse carro. Lá não é como aqui.
Além disso, a Fiat é uma empresa de merda em relação à preservação e assistência a modelos mais antigos e agora quer "vender bonde" para os mineiros inventando um museu em BH, vai sair como boi ladrão. No mesmo tempo está fechando o museu da Alfa em Areze, ou seja, dá tiro para tudo quanto é lado.
Apesar de meu ódio à Fiat e aos Piemonteses de "Torrino" devo reconhecer que a 164 é um caso perdido, ninguém dá jeito nessa merda. Tem algumas a venda por R$ 2 mil. Alfa 164 de graça é caro.

Paulo Levi disse...

Bom, pelos comentários eu diria que a maioria dos nossos investidores é de perfil moderado...

Acho que eu também escolheria o Volvo, se ele fosse um pouquinho menos duro de suspensão (ou se o nosso asfalto fosse um pouco mais decente). Mas isso não quer dizer que eu desdenharia um Twingo, mesmo sendo uma proposta totalmente diferente.

Quanto ao Alfa 164, o mínimo que se pode dizer é que ele desperta um misto de amor e ódio. Pra encarar, só mesmo sendo um investidor de perfil agressivo.

Ainda a propósito do 164, não conhecia o detalhe apontado pelo Roberto Zullino, do motor V6 que tecnicamente não é um V6 de verdade. Guardadas as diferenças, parece ser um caso análogo ao do motor VR6 da Volkswagen. Obrigado pelo esclarecimento, Ingegner Zullino!

Joel Gayeski disse...

Zullino, pelo que vejo tu falar e por aqui mesmo, é mais tranquilo ter um "AP turbão doiskilimei" a um Alfa 164. O VW quebra mas qualquer mecânico boqueta arruma.

roberto zullino disse...

Joel, não é bem assim, quando a Alfa anda mostra décadas de tradição da marca, a Alfa 164 é um carro fabuloso, não se compara a nenhum BMW ou Mercedes de tão superior. Até compartimento para guardar esquis ela tem.
Um turbado AP vai em uma carro mixo, sem conforto, carro não é apenas motor.
O problema da Alfa 164 é que dá problemas, alguns fruto de projeto e outros de qualidade, mas dá no mesmo.