domingo, 13 de março de 2011

Carreteras, agora mais longe de você

Como a pizza e a feijoada, eles surgiram da necessidade e foram improvisados com os ingredientes que havia à mão. Nasceram na Argentina, mas logo ganharam adeptos no Uruguai e no sul do Brasil, estendendo sua influência até o estado de São Paulo. E em boa parte das décadas de 50 e 60, quando o mercado brasileiro estava praticamente fechado às importações, tiveram um papel de destaque no automobilismo nacional. Estamos falando dos automóveis da categoria Turismo de Carretera (seu nome de batismo na Argentina), ou simplesmente carreteras, como se tornariam conhecidos entre nós.

Na Mil Milhas de 1960, as carreteras eram maioria absoluta
A receita clássica para se fazer uma carretera quase sempre começa com um carro americano de duas portas das décadas de 30 e 40 (Chevrolet e Ford eram as marcas preferidas), aliviado no peso, reforçado na estrutura, e incrementado no motor com componentes das marcas Ardun, Edelbrock e Wayne. Com o tempo, as carreteras mais competitivas passaram a usar os motores Corvette e Thunderbird, alcançando velocidades acima dos 250 km/h. Freios de Buick e diferenciais de Jaguar muitas vezes integravam a lista de modificações, dando o toque final à mistura.

Duas portas e um amplo portamalas definiam o estilo "Business Coupé"
Já no caso de Fangio e sua cupecita, o "business" era ganhar corridas
Quem teve o privilégio de ver (e ouvir) as carreteras de Camillo Christófaro, Caetano Damiani ou Catharino Andreatta fazendo tremer os céus e a terra em Interlagos ou levantando nuvens de poeira em alguma estradinha do interior gaúcho jamais conseguirá apagá-las da memória.

Camilo Christófaro, vencedor da Mil Milhas de 1966
Caetano Damiani, arqui-rival de Camilo, e seu Chevrolet 1934
O Ford de Andreatta, três vezes vencedor da Mil Milhas nos anos 50
Mas para um jovem aficionado brasileiro nos anos sessenta, a verdade é que as carreteras também davam uma pontinha de vergonha, já que eram uma espécie de lembrete do nosso atraso tecnológico em relação ao chamado primeiro mundo.

Lendo as revistas internacionais - ou mesmo a Autoesporte, que na época era verdadeiramente uma publicação para entusiastas - ficavamos ao mesmo tempo maravilhados e frustrados. Tinhamos sede de modernidade, e aquelas leituras só faziam aumentar a nossa consciência de que a modernidade em matéria de automobilismo estava bem longe daqui - mais precisamente, na Inglaterra. Os ingleses não só ditavam regra na Fórmula 1 com marcas como a Lotus e a BRM, como também reinavam absolutos nas fórmulas menores e nos poderosos Lola e McLaren do Torneio Can-Am. O contraste com as carreteras não poderia ser maior.

Talvez movidos por essa frustração, torciamos por todas as iniciativas que ajudassem a diminuir o atraso tecnológico simbolizado pelas carreteras, que àquela altura eram rotineiramente qualificadas como "folclóricas" ou "antediluvianas" pela imprensa especializada. Entre essas iniciativas estavam as equipes de fábricas como as da Willys e da Vemag, os protótipos de Rino Malzoni, os monopostos de Toni Bianco, os Fórmula Vê dos irmãos Fittipaldi... Quando a última carretera tomou o rumo dos boxes, no início dos anos 70, poucas lágrimas foram derramadas.

O que ninguém imaginava naqueles tempos é que um dia as carreteras voltariam em grande estilo. E veja só que ironia: justamente na Inglaterra. É que os ingleses descobriram que, pela sua rusticidade e robustez, esse tipo de veículo se presta idealmente aos grandes ralis internacionais para carros clássicos, como a reedição da histórica corrida Pequim - Paris. Sem perder tempo, sairam à caça de velhos cupês americanos que pudessem ser transformados em carreteras - ou Fangio Coupés, como rebatizaram esses carros numa alusão às vitórias do jovem Juan Manuel em competições de longa distância como a épica Buenos Aires - Lima de 1940 .

Como os cupês americanos daquela época nunca foram exportados em número significativo para as Ilhas Britânicas, os interessados foram garimpá-los em outros países. Provavelmente nem tentaram no Brasil e na Argentina, já que as poucas unidades sobreviventes por estas bandas viraram carreteras e hoje se encontram nas mãos de colecionadores. Mas encontraram o que queriam na África do Sul, de onde vários desses carros tomaram o rumo dos portos britânicos. 

Hoje, há muitas carreteras (ou cupecitas, ou Fangio Coupés) competindo e vencendo nessas grandes maratonas internacionais. Trocaram o Atacama pelo deserto de Gobi, a cordilheira dos Andes pelos montes Urais, a linha de chegada em Interlagos ou no Circuito da Cavalhada pelos boulevards de Paris.




E assim, a cada ano que passa, a tradicional receita sul-americana - agora com tempero britânico - vai ganhando novos admiradores ao longo dos caminhos mais improváveis do planeta. Pena que desta vez nenhum deles passe aqui por perto.

Imagens: http://www.pekingparis.com/pp2007/index.html (thumbnail); http://www.milmilhasbrasil.com.br/galeria/antigas/02.jpg (largada Mil Milhas); http://www.jmfangio.org (Chevrolet Coupé Nº 26); http://quatrorodas.abril.com.br/acervodigital/home.aspx (bandeirada Mil Milhas); acervo do Museu do Automobilismo Brasileiro (carretera Catharino Andreatta); http://www.rpsrally.com/node (Fangio Coupé Nº 72); http://stevemckelvie.wordpress.com (Fangio Coupé Nº 71 no deserto); http://www.carandclassic.co.uk/car/C204183 (Fangio Coupé Nº 71 em estrada cascalhada); http://38chevyp2p.blogspot.com/2010/10/day-37-very-last-day.html (Fangio Coupé em Paris).

3 comentários:

Mauricio Morais disse...

É incrível como a roda da história dá suas voltas. Nunca imaginaria que as velhas carreteras, ou a idéia contida nelas, fosse reavivada na prática. Belíssimo post.

Luís Augusto disse...

Maurício, o mercado é muito sábio. Os preços de aquisição e manutenção dos grandes esportivos europeus está em um patamar especulativo. Sendo assim, muitos entusiastas migram para opções mais acessíveis como as fascinantes Carreteras.
Fenômeno semelhante ocorre no Brasil: com os preços dos esportivos nacionais ridiculamente alto, muita gente está preferindo importar.

Francisco J.Pellegrino disse...

Vimos elas em Interlagos, quem não foi fã da numero 18 do Camilo ? vc mostrou bem a evolução por aqui a gente assistia a prova onde se misturavam Simcas, Alfas, DKWs, Gordinis com as velhas carreteras, já não dava mais para acompanhar. Aquela Mil Milhas de 2007 onde esteve por aqui o Peugeot 908 HDi enterrou de vez o automobilismo brasileiro dos garagistas.